sábado, 7 de maio de 2011

Capítulo 9 - Quem Disse Que Funerais São Uma Festa?

Enquanto relatava essa história horrível com a maior calma do mundo, Jennifer limpava a parte de baixo das unhas com um palito de cutícula que tinha pegado de cima de minha cômoda.
— Ser torturada faria a maioria das garotas desmaiar ou algo assim. Mas sou tão barra pesada que fiquei com eles o tempo todo. Eu podia sentir os caras esfaqueando através de minhas costelas e para dentro da minha barriga, até alcançar o meu coração. Ele atirou a faca na cachoeira... então ela já era.
Eu a olhei, sem acreditar.
— Eles... eles mataram você!
— Eu tô aqui, não estou? - discordou ela, balançando a cabeça em negativa. - Enfim, mataram - concluiu. - Fizeram um sushi comigo. Eu deveria estar morta. Mas, por algum motivo, não estou.
— Talvez esteja - sussurrei.
— Tanto faz. Enfim, não lembro direito o que aconteceu depois disso. Só sei que acordei algumas horas depois e de algum jeito consegui voltar.
— É, eu me lembro - disse eu, secamente. Como eu poderia esquecer?
— Eu não poderia machucar você. Quer dizer, você é uma grande amiga. Mas sentia tanta fome que precisava fazer alguma coisa. Desde então, eu de certa forma soube o que era necessário fazer pra me sentir forte. E, quando estou cheia, como agora, eu sou... imortal. Posso fazer coisas assim...
Ela enfiou o palito de cutícula no braço e o empurrou por baixo da pele. Pulei. Era
ultranojento.
— Nada de mais - disse ela, nem um pouco perturbada. - Olhe isso.
Ela puxou o palito do braço e a ferida cicatrizou-se diante dos meus olhos. Estendi a mão e toquei sua pele. Não havia sequer uma marca.
Cheguei cedo e esperei. Sentia-me responsável. Não sei exatamente como eu poderia tê-la impedido, mas tinha a sensação de que de algum jeito havia falhado com Colin. Sua família estava péssima. Não os culpo. Ficaram ao redor da cova com a aparência de quem tinha levado uma surra. Havia um grupo menor de pessoas a um lado. Alguns jornalistas estavam lá, também. O mundo ouviria ainda mais notícias de Devil’s Kettle.
— Estamos reunidos aqui hoje para celebrar a vida de Colin Gray - começou o padre -, que foi arrancado da primavera...
Ouvi choros e soluços a distância. Olhei naquela direção, junto com todo mundo, e vi várias figuras de preto aproximando-se do topo da colina. Uma procissão de góticos, incluindo todas as Garotas Mortas da região, marchava solenemente em fila. Usavam capas pretas, correntes, meias arrastão, coturnos e uma dose exagerada de lápis. Todos estavam chorando. Era como uma tragédia grega, completa ao som do órgão fúnebre.
Uma das meninas espalhava pétalas de rosa vermelha no chão. Eles andaram até a cova e se postaram ao lado dos Grays.
O padre pigarreou.
— Esses são...?
O Sr. Gray fez que sim.
— Os amigos de Colin.
Um gótico chamado Kevin atirou-se na terra fresca.
— Colin! Me leve com você! Eu pertenço aí, à escuridão!
Esses góticos são mesmo uns dramáticos.
Uma das Garotas Mortas ergueu o garoto. Era Chloe, acho.
— Não, Kevin. Esses são apenas os restos mortais dele. Ele está entre os anjos do reino das trevas agora. Voe, Colin! Voe até o firmamento.
Chloe acendeu um maço de sálvia e agitou a fumaça no ar. O Sr. Gray engasgou por causa do fedor. Se achava que conhecia alguma coisa do reino das trevas, aquela garota estava seriamente enganada. Eu, entretanto, começava a me sentir uma especialista. Kevin dirigiu-se ao Sr, Gray.
— Tudo bem se a gente acampar aqui por alguns dias? A gente quer comungar com o cadáver dele.
O Sr. Gray ficou boquiaberto.
Chloe se dirigiu à Sra. Gray.
— Preciso perguntar uma coisa, Sra. Gray. Hã, o Sr. Feely, sabe, o psicólogo da escola?, disse que é muito importante que eu me expresse.
— Mocinha, talvez essa não seja a melhor hora... - repreendeu o padre, mas a Sra. Gray o afastou com um gesto.
— Tudo bem - disse ela.
— Certo; então, é verdade que Colin saiu com Jennifer Check na noite em que foi assassinado?
Chloe pronunciou o nome de Jennifer como se fosse um palavrão imundo.
Cobri o rosto. Não acreditava que ela estivesse trazendo isso à tona no funeral! E para a mãe dele!
— Porque vamos combinar... Jennifer Check? É nojento - continuou. - Ela acha que é tão especial só porque é popular e o que a “sociedade” considera “atraente”. Mas na verdade ela é só uma megavadia genérica que ouve Fergie e compra na Hollister. Sem falar que ela tem herpes labial e o outro tipo.
Isso era novidade para mim, se era verdade mesmo. Que nojo!
— Então, só pra confirmar: Colin não saiu com ela, saiu?
Os Grays apenas ficaram olhando o chão. Chloe surtou.
— Ah, meu Deus, eu sabia! Aquela piranha!
Amém, irmã. Kevin tocou-lhe o braço e tentou acalmá-la.
— Hã... Chloe? Acho que você devia ficar brava é com quem matou Colin. Jennifer Check só o convidou para ir à casa dela assistir Aquamarine.
O choro de Chloe aumentou.
— Isso é ainda pior! - guinchou ela, depois caiu no chão, tendo um pequeno ataque de raiva.
A Sra. Gray começou a chorar, cobrindo o rosto com as mãos, e o Sr. Gray a abraçou.
— Colin não teria gostado disso - disse Kevin, balançando a cabeça.
Foi aí que o verdadeiro show começou.
A Sra. Gray ergueu a cabeça na hora e encarou Kevin.
— Ah, você acha, é? - gritou ela, com sarcasmo crescente. - É, tem razão! Tenho certeza de que meu filho não teria gostado de ser devorado por um canibal e ser enterrado antes de seu aniversário de 18 anos! Uau! Você deve ter conhecido o Colin tão bem! - Ela sacudia os braços e cuspia ao falar.
— Jill... - disse o Sr. Gray, tentando puxá-la para trás. Kevin estava branco como um fantasma, completamente aterrorizado ante a harpia que libertara.
— Quando encontraram Colin naquela casa maldita, ele parecia uma lasanha com dentes! Eu sei, porque fui eu que tive de identificar seus restos mortais! - Os gritos dela foram substituídos por um rosnado baixo, o que era ainda mais assustador. - Meu filho não está no reino dos espíritos. Não está voando pelo... pelo firmamento com asas mágicas de fogo. Está num caixão caro de madeira de cedro que será enterrado a sete palmos, Ela se inclinou ameaçadoramente para Kevin e gritou na cara dele:
— Então você pode pegar a sua dor e enfiar no rabo! Eu tenho o monopólio da dor!
Aí ela desabou, soluçando, nos braços do Sr. Gray.
Tive vontade de bater palmas, mas achei que não seria muito apropriado.

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