sábado, 7 de maio de 2011

Capítulo 7 - Bonecas na Caixa de Areia

Entrei como um furacão em minha casa escura, com as luzes apagadas.
— Mãe! Mãe? Por favor, esteja em casa!
Mas ela, é claro, não estava. Dessa vez ela fazia falta de verdade. Eu precisava dela e ela não estava lá. Afundei no chão da cozinha e me enrolei como uma bola. Não conseguia parar de soluçar. Finalmente fiquei esgotada o bastante para me acalmar e pensar sobre toda essa merda maluca.
Eu sempre tinha sido capaz de sentir o que Jennifer sente, só que nunca com tanta intensidade assim. Eu devia estar sentindo-a quando estava com Chip. Não tinha outra explicação. Mas de onde viera aquela emoção? O que havia acontecido com Jennifer? Por que ela estava toda ensangüentada de novo? Onde ela estava agora? Será que eu tinha atropelado minha melhor
amiga e depois fugido? Será que aquilo era minha culpa agora? Será que ela tinha morrido?
Uma lembrança saltou na minha cabeça. Uma vez, quando a gente era pequena, estávamos no quintal da casa dela brincando de boneca na caixa de areia.
— Eu vou ser a Betty Festa Fantástica e você vai ser essa aqui - mandou Jennifer,
entregando-me uma boneca nua que não tinha um dos braços e cujo cabelo havia sido todo cortado.
— Por que eu tenho de ser Ana, a Feia? - perguntei.
— Você pode ser Ana, a Feia ou Kevin. Escolha - respondeu ela, apoiando-se nas mãos para esperar a minha decisão. Só que colocou as mãos para baixo um pouco enfaticamente demais.
— Ai! - gritou, - Droga!
Ela tentava xingar como uma adulta desde os 5 anos de idade.
— Que foi, Jennifer? - perguntei.
Ela levantou uma das mãos e vi uma tacha enfiada ali. A gente tinha furado as orelhas das bonecas com tachas para usá-las como brincos. Agarrei a mão dela e devagar tirei o objeto. A mão continuava a sangrar, por isso eu a enfiei na boca e chupei. Era o que eu fazia com minhas feridinhas, por isso achei que iria funcionar para ela, também.
Devolvi a mão para ela,
— Pronto, Só que a gente devia por um band-aid.
Jennifer ficou quieta por um instante. Depois falou com muita solenidade:
— Agora somos irmãs.
Eu fiz que sim.
— Não conte nada a minha mãe sobre isso. Ela vai me levar pra tomar injeção.
— Eu nunca entrego você - respondi.
Meus olhos se abriram. Será que tinha sido o sangue que criara essa conexão? Era tudo tão esquisito. Exigia mais pensamento e menos choro.
Eu me desgrudei do chão da cozinha e cambaleei escada acima até meu quarto. Tirei as calças e o suéter e caí na cama, Ergui a cabeça do travesseiro. Minha cabeça não parava de rodar.
Então de repente ouvi uma voz no meu ouvido.
— Oi.
Sentei de um pulo e acendi o abajur. Sob a luz suave, vi Jennifer ao meu lado. Estava molhada por ter acabado de sair do banho (para lavar toda sujeira, acredito). Usava uma de minhas camisetas. Gritei e pulei para fora da cama, levando as cobertas comigo.
— Já chega de gritaria! Como você é clichê - disse ela. Estava recostada casualmente contra a cabeceira da cama, como se morasse ali.
— Saia!
— Mas a gente sempre dorme na mesma cama quando fazemos festa do pijama - argumentou com uma piscadela. De repente, me senti cansada demais para continuar lutando. E ela tinha razão; eu tinha de parar de ficar gritando. Devagar afundei de volta na cama. O que eu deveria achar? Numa hora Jennifer aparece coberta de sangue, voando pelos ares; na outra, ela está
toda alegre no meu quarto. Eu só queria a minha melhor amiga de volta.
Ela se inclinou e tocou o meu queixo com ternura.
— Viu? Eu não mordo.
Eu estava tremendo. Ela me enlaçou em um abraço apertado. Pude sentir seu coração de BFF pressionando minha bochecha. Eu também estava usando o meu. Não sabia o que fazer.
— Essa aí é minha camiseta do Evil Dead? - perguntei.
— Shhhhh - sussurrou ela. Puxou meu rosto e tocou meus lábios. Fiquei petrificada. Era como se fosse o mesmo feitiço vodu que o Low Shoulder tinha lançado na platéia do Melody Lane.
Ela se inclinou e me beijou. Os lábios dela eram mais macios do que os de Chip.
Eu me afastei e sacudi o encanto.
— Que mee..leca está acontecendo aqui?
— Ooooa! - exclamou ela. - Nunca vi você soltar a bomba-m antes.
— Eu vi você! Eu vi você! O carro... eu...
— Mais devagar, retardatária. - Ela estava me zoando.
— Vou chamar a polícia - avisei.
— Pode chamar, pode me entregar. Tenho a polícia na palma da minha mão. Tô transando com um cadete, esqueceu?
Certo. Roman Duda estava transando com ela. Nada nessa cidade era sagrado.
— O que você quer? - perguntei, exasperada.
— Quero explicar algumas coisinhas pra você. Você já viu demais e, além disso, entre
melhores amigas não existem segredos, certo?
Ela parecia mesmo estar falando sério. Fiz que sim, incapaz de falar. Não conseguia imaginar o que ela poderia me dizer para explicar essa maluquice total.
— Sabe a noite do incêndio? - perguntou. - Fiquei bem mal. Quase morri. - Ela fez uma pausa por um instante e depois simplesmente soltou: - Sabe aqueles caras do Low Shoulder?
Totalmente malignos. São basicamente agentes de Satã com cortes de cabelo fantásticos.
Descobri isso assim que entrei em seu furgão de estuprador.
Típico de Jennifer. Ela só foi perceber que aqueles gatos não eram legais depois que já estava trancada no furgão deles.

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