quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Capítulo 3 - Lanchinho Noturno
Corri o caminho inteiro até minha casa. Quase caí no choro enquanto tentava enfiar a chave na porta. A única coisa que eu queria era estar em casa. Só parei de correr quando cheguei no meu quarto. Acendi a luz e arfei em busca de ar, enquanto ficava ali parada um instante. Fui até o banheiro e tomei água direto da torneira. Foi quando me vi no espelho. Meu rosto estava coberto de fuligem, flocos de cinzas caíam de meus cabelos, e minhas roupas estavam rasgadas. Meu cérebro começou a processar a extensão do que acontecera.
Voltei para o quarto, agarrei o celular e apertei uma tecla de discagem rápida.
— Mrfshhh - balbuciou Chip. Acho que ele afinal foi dormir em vez de assistir Orca, a baleia assassina sozinho.
— Chip! Jennifer sumiu! Ela fugiu com aquela banda de rock. E o Melody Lane pegou fogo! Ai, meu Deus, Chip...
Mais cinzas caíram dos meus cabelos enquanto eu andava pelo quarto.
— Pegou fogo, como? Incendiou? Tá todo mundo bem?
Comecei a rir descontroladamente, o que depois virou um acesso de soluços.
— Não, acho que a maioria das pessoas morreu!
— Você tá bem, certo?
— Certo - solucei. - Saímos pela janelinha.
— O quê?
Se liga, Chip!
— Você sabe! Aquela janela do banheiro por onde todas as meninas menores de idade entram
de penetra? Só que todo mundo tava tentando sair pela porta. Foi, tipo, um estouro de boiada total! Quem desmaiou acabou sendo pisoteado, e dava pra ouvir os ossos se quebrando! Havia um monte de gritos e estouros, como se um milhão de fogos de artifício estivessem estourando ao mesmo tempo. E as pessoas... queimando... cheiravam como...
Finalmente calei a boca. Não conseguia respirar, soluçar e falar ao mesmo tempo.
— Que loucura.
Novamente, dã. Sentei-me na cama, tentando recobrar o fôlego. Olhei para a foto sobre a cômoda, de mim, Chip e Jennifer. Merda. O que aqueles fracassados estariam fazendo com ela?
— Só que Jennifer ainda tá com aqueles caras sem noção! Eles a levaram num furgão
apavorante com janelas pretas e...
— Você viu a marca e o modelo?
Ah, agora ele queria dar uma de Lei & Ordem para cima de mim? Quem é que se lembra de coisas desse tipo?
— Sei lá! Um furgão de estuprador oitenta e nove? A gente precisa encontrar Jennifer!
— E quem se importa com a Jennifer e aqueles retardados com cabelos retardados e rímel de olho? Tem gente que acabou de morrer queimada viva! Na nossa cidade!
Ah, Chip. Você e esse orgulho da sua cidade.
Nesse instante, a campainha tocou. O som foi tão agudo que parecia uma sirene no meu ouvido.
Comecei a sussurrar guinchando ao telefone:
— Meu Deus do céu! Tem alguém aqui! Tô sozinha, Chip! Vou surtar!
— Trabalhando no turno da noite. Não desliga, tá? Tá bom?
— Tá!
Desci as escadas correndo e depois parei no patamar. Não ouvi nada, só o nosso furão de estimação arranhando dentro da jaula, — Shhh, Spector! - pedi. Desci degrau por degrau na ponta do pé, estremecendo a cada rangido, depois abri devagar caminho pela cozinha escura e cheia de sombras, tateando o balcão de fórmica.
A maldita geladeira zumbia mais alto do que uma serra elétrica. Fui até o
corredor e olhei na direção da porta de entrada. Não dava para ver nada pela janela da porta. Devagar me aproximei dali e olhei para fora. Nada. Acendi a luz da varanda. Estava vazia. Apaguei a luz.
— Certo, não tem ninguém lá fora - disse ao celular. - Isso é... muito estranho. Talvez eu esteja ficando louca. Te ligo mais tarde.
— Ei!
Fechei o celular. Quem havia tocado a campainha? Abri o armário do corredor, enfiei a mão lá dentro e afastei os casacos. Uma raquete de tênis caiu e eu pulei meio metro para o alto, mas não havia ninguém escondido ali. Fechei a porta do armário com um clique suave.
Que diabo estava acontecendo? Essa era a noite mais estranha da minha vida. Ouvi o zumbido da geladeira. De repente percebi que havia mais um som na cozinha. Um ping, ping, ping. Virei-me. Ninguém. Avancei alguns passos para dentro da cozinha e escutei. Agora o som não parecia mais estar ali, mas de novo na porta da frente. Ping, ping, ping. Girei, acendi a luz e tornei a olhar para o corredor de entrada. De pé, dentro de casa junto à porta e ensopada de sangue, estava Jennifer.
Ela parecia saída de um pesadelo. A jaqueta branca acolchoada agora era vermelha escura, e sua bota azul direita estava retorcida em um ângulo estranho, como se ela tivesse machucado o tornozelo. O cabelo estava completamente emaranhado. Os ombros estavam encurvados e o rosto, voltado para o chão.
— J-Jennifer?
Ela não disse nada, mas eu continuava a ouvi-la pingando. Percebi que era sangue e que pingava dela, caindo da manga da jaqueta e fazendo uma poça no chão de linóleo. Ela ergueu um pouco o rosto. Fiquei arrepiada ao ver que estava sorrindo.
— O que aconteceu? - sussurrei.
Silêncio ainda. Ela olhou para baixo, para os pingos, como se contemplasse o fato de que o sangue estava deixando seu corpo. Depois olhou para cima e voltou a me encarar.
— Jen?
Ela passou por mim abruptamente e foi até a geladeira. Pulei quando ela se mexeu e
automaticamente recuei. Era como se uma assombração tivesse resolvido me visitar. Só que a assombração era Jennifer. Minha BFF. Minha mente disparou. Eu precisava fazer alguma coisa. Precisava ligar para Chip, para minha mãe, para a mãe de Jennifer, para a emergência... para alguém! Ela estava obviamente machucada e precisava de um médico já!
Só que aí Jennifer fez algo inesperado, como se alguma coisa pudesse ser esperada a essa altura. Ela abriu a geladeira, e, pela luz da lâmpada do interior, eu a vi tirar um frango assado e soltá-lo no chão de linóleo verde. Ela se agachou e começou a arrancar pedaços do frango e a enfiá-los na boca. Aquilo dava um significado completamente novo à expressão lanchinho noturno. Eu disse a primeira coisa que me veio à cabeça.
— Hã, Jen... Minha mãe comprou esse frango no mercado de Boston. Eu não posso...
Ela gritou. Estou falando sério, gritou. Fiquei arrepiada, e eu meio que desabei na mesa da cozinha. Estiquei o braço para trás e agarrei uma cadeira cromada para me apoiar. Aí a coisa piorou. Ela vomitou - e não era frango. Uma gosma preta jorrou de sua boca, fazendo o corpo dela inteiro recuar com a intensidade do vômito. Aquilo não era só bile. Jennifer expeliu a substância mais nojenta e horrorosa que já vi. Era espessa, negra e oleosa, e cheirava como um gambá morto que tivesse apodrecido em um tonel de lixo cheio de Molho Badger durante uma semana. Havia uma tonelada daquilo, no mínimo quatro litros, talvez doze.
Então a gosma preta começou a se... mexer. Não sei, acho que estava escuro ali, mas posso jurar por Deus que aquela meleca se mexeu. Pequenos espinhos surgiram ao longo dela, e a coisa deslizou pelo chão e para cima das paredes. Para ser completamente exata, ela ondulou. Estava viva. Comecei a me sentir tonta, mas entrei em ação. Agarrei Jennifer e tentei tapar a boca dela com a mão. Eu não ia deixá-la emporcalhar ainda mais a cozinha retro kitsch da minha mãe com aquela gosma preta. Minha mãe tinha levado semanas para achar o tom exato de tinta verde que combinasse os armários com a cor original do linóleo.
Escorreguei um pouco naquela meleca ao agarrar Jennifer. Aí ela caiu de joelhos, levando-me para baixo com ela, e começou a rir compulsivamente. Tentei me afastar, mas Jennifer de repente se virou e me empurrou contra a parede, me prendendo ali. Ela estava tão forte! Eu não conseguia me mexer. Deslizei as mãos pelos braços dela e agarrei seus pulsos. Comecei a entrar em pânico, achando que ela iria vomitar mais um pouco daquela coisa nojenta bem na minha cara. Fechei os olhos com toda a força, e a boca também, tentando imaginar um jeito de, além disso, tapar meu nariz.
Levei vários segundos para perceber algo estranho. Ao segurar-lhe os pulsos, vi que a pulsação dela estava, tipo, extremamente lenta.
— O qu...?
Jennifer aproximou o rosto do meu, depois inclinou a cabeça para acariciar meu cabelo e o lóbulo da minha orelha. Não me entenda mal aqui. Não foi nada lésbico. Foi completamente diferente. Era como um animal preparando seu jantar. Senti os lábios dela em meu pescoço, e minha própria artéria pulsar enquanto meu coração acelerava. Senti os lábios dela se entreabrirem e a ponta de seus dentes na minha pele. Mas então seus dentes inferiores se prenderam na corrente de metal ao redor do meu pescoço - a do coração dourado onde estava escrito BFF. Ela hesitou, ainda me prendendo naquele abraço esquisito. Ficou tão imóvel que eu sequer tinha certeza se ela estava ou não respirando.
Aí ela me empurrou e saiu correndo pelo corredor até a porta de entrada. E sumiu.
Não consegui acreditar no que havia acabado de acontecer. Quer dizer, sério, o que é que tinha acabado de acontecer? Será que tinha sido um sonho? Uma alucinação? Eu me belisquei. Hã-hã, eu estava acordada.
Virei para olhar a cozinha e vi a montanha gigante de gosma preta no chão. Aquilo estava mesmo ali. E alguém precisava limpar aquela droga antes de minha mãe chegar em casa.
Voltei para o quarto, agarrei o celular e apertei uma tecla de discagem rápida.
— Mrfshhh - balbuciou Chip. Acho que ele afinal foi dormir em vez de assistir Orca, a baleia assassina sozinho.
— Chip! Jennifer sumiu! Ela fugiu com aquela banda de rock. E o Melody Lane pegou fogo! Ai, meu Deus, Chip...
Mais cinzas caíram dos meus cabelos enquanto eu andava pelo quarto.
— Pegou fogo, como? Incendiou? Tá todo mundo bem?
Comecei a rir descontroladamente, o que depois virou um acesso de soluços.
— Não, acho que a maioria das pessoas morreu!
— Você tá bem, certo?
— Certo - solucei. - Saímos pela janelinha.
— O quê?
Se liga, Chip!
— Você sabe! Aquela janela do banheiro por onde todas as meninas menores de idade entram
de penetra? Só que todo mundo tava tentando sair pela porta. Foi, tipo, um estouro de boiada total! Quem desmaiou acabou sendo pisoteado, e dava pra ouvir os ossos se quebrando! Havia um monte de gritos e estouros, como se um milhão de fogos de artifício estivessem estourando ao mesmo tempo. E as pessoas... queimando... cheiravam como...
Finalmente calei a boca. Não conseguia respirar, soluçar e falar ao mesmo tempo.
— Que loucura.
Novamente, dã. Sentei-me na cama, tentando recobrar o fôlego. Olhei para a foto sobre a cômoda, de mim, Chip e Jennifer. Merda. O que aqueles fracassados estariam fazendo com ela?
— Só que Jennifer ainda tá com aqueles caras sem noção! Eles a levaram num furgão
apavorante com janelas pretas e...
— Você viu a marca e o modelo?
Ah, agora ele queria dar uma de Lei & Ordem para cima de mim? Quem é que se lembra de coisas desse tipo?
— Sei lá! Um furgão de estuprador oitenta e nove? A gente precisa encontrar Jennifer!
— E quem se importa com a Jennifer e aqueles retardados com cabelos retardados e rímel de olho? Tem gente que acabou de morrer queimada viva! Na nossa cidade!
Ah, Chip. Você e esse orgulho da sua cidade.
Nesse instante, a campainha tocou. O som foi tão agudo que parecia uma sirene no meu ouvido.
Comecei a sussurrar guinchando ao telefone:
— Meu Deus do céu! Tem alguém aqui! Tô sozinha, Chip! Vou surtar!
— Trabalhando no turno da noite. Não desliga, tá? Tá bom?
— Tá!
Desci as escadas correndo e depois parei no patamar. Não ouvi nada, só o nosso furão de estimação arranhando dentro da jaula, — Shhh, Spector! - pedi. Desci degrau por degrau na ponta do pé, estremecendo a cada rangido, depois abri devagar caminho pela cozinha escura e cheia de sombras, tateando o balcão de fórmica.
A maldita geladeira zumbia mais alto do que uma serra elétrica. Fui até o
corredor e olhei na direção da porta de entrada. Não dava para ver nada pela janela da porta. Devagar me aproximei dali e olhei para fora. Nada. Acendi a luz da varanda. Estava vazia. Apaguei a luz.
— Certo, não tem ninguém lá fora - disse ao celular. - Isso é... muito estranho. Talvez eu esteja ficando louca. Te ligo mais tarde.
— Ei!
Fechei o celular. Quem havia tocado a campainha? Abri o armário do corredor, enfiei a mão lá dentro e afastei os casacos. Uma raquete de tênis caiu e eu pulei meio metro para o alto, mas não havia ninguém escondido ali. Fechei a porta do armário com um clique suave.
Que diabo estava acontecendo? Essa era a noite mais estranha da minha vida. Ouvi o zumbido da geladeira. De repente percebi que havia mais um som na cozinha. Um ping, ping, ping. Virei-me. Ninguém. Avancei alguns passos para dentro da cozinha e escutei. Agora o som não parecia mais estar ali, mas de novo na porta da frente. Ping, ping, ping. Girei, acendi a luz e tornei a olhar para o corredor de entrada. De pé, dentro de casa junto à porta e ensopada de sangue, estava Jennifer.
Ela parecia saída de um pesadelo. A jaqueta branca acolchoada agora era vermelha escura, e sua bota azul direita estava retorcida em um ângulo estranho, como se ela tivesse machucado o tornozelo. O cabelo estava completamente emaranhado. Os ombros estavam encurvados e o rosto, voltado para o chão.
— J-Jennifer?
Ela não disse nada, mas eu continuava a ouvi-la pingando. Percebi que era sangue e que pingava dela, caindo da manga da jaqueta e fazendo uma poça no chão de linóleo. Ela ergueu um pouco o rosto. Fiquei arrepiada ao ver que estava sorrindo.
— O que aconteceu? - sussurrei.
Silêncio ainda. Ela olhou para baixo, para os pingos, como se contemplasse o fato de que o sangue estava deixando seu corpo. Depois olhou para cima e voltou a me encarar.
— Jen?
Ela passou por mim abruptamente e foi até a geladeira. Pulei quando ela se mexeu e
automaticamente recuei. Era como se uma assombração tivesse resolvido me visitar. Só que a assombração era Jennifer. Minha BFF. Minha mente disparou. Eu precisava fazer alguma coisa. Precisava ligar para Chip, para minha mãe, para a mãe de Jennifer, para a emergência... para alguém! Ela estava obviamente machucada e precisava de um médico já!
Só que aí Jennifer fez algo inesperado, como se alguma coisa pudesse ser esperada a essa altura. Ela abriu a geladeira, e, pela luz da lâmpada do interior, eu a vi tirar um frango assado e soltá-lo no chão de linóleo verde. Ela se agachou e começou a arrancar pedaços do frango e a enfiá-los na boca. Aquilo dava um significado completamente novo à expressão lanchinho noturno. Eu disse a primeira coisa que me veio à cabeça.
— Hã, Jen... Minha mãe comprou esse frango no mercado de Boston. Eu não posso...
Ela gritou. Estou falando sério, gritou. Fiquei arrepiada, e eu meio que desabei na mesa da cozinha. Estiquei o braço para trás e agarrei uma cadeira cromada para me apoiar. Aí a coisa piorou. Ela vomitou - e não era frango. Uma gosma preta jorrou de sua boca, fazendo o corpo dela inteiro recuar com a intensidade do vômito. Aquilo não era só bile. Jennifer expeliu a substância mais nojenta e horrorosa que já vi. Era espessa, negra e oleosa, e cheirava como um gambá morto que tivesse apodrecido em um tonel de lixo cheio de Molho Badger durante uma semana. Havia uma tonelada daquilo, no mínimo quatro litros, talvez doze.
Então a gosma preta começou a se... mexer. Não sei, acho que estava escuro ali, mas posso jurar por Deus que aquela meleca se mexeu. Pequenos espinhos surgiram ao longo dela, e a coisa deslizou pelo chão e para cima das paredes. Para ser completamente exata, ela ondulou. Estava viva. Comecei a me sentir tonta, mas entrei em ação. Agarrei Jennifer e tentei tapar a boca dela com a mão. Eu não ia deixá-la emporcalhar ainda mais a cozinha retro kitsch da minha mãe com aquela gosma preta. Minha mãe tinha levado semanas para achar o tom exato de tinta verde que combinasse os armários com a cor original do linóleo.
Escorreguei um pouco naquela meleca ao agarrar Jennifer. Aí ela caiu de joelhos, levando-me para baixo com ela, e começou a rir compulsivamente. Tentei me afastar, mas Jennifer de repente se virou e me empurrou contra a parede, me prendendo ali. Ela estava tão forte! Eu não conseguia me mexer. Deslizei as mãos pelos braços dela e agarrei seus pulsos. Comecei a entrar em pânico, achando que ela iria vomitar mais um pouco daquela coisa nojenta bem na minha cara. Fechei os olhos com toda a força, e a boca também, tentando imaginar um jeito de, além disso, tapar meu nariz.
Levei vários segundos para perceber algo estranho. Ao segurar-lhe os pulsos, vi que a pulsação dela estava, tipo, extremamente lenta.
— O qu...?
Jennifer aproximou o rosto do meu, depois inclinou a cabeça para acariciar meu cabelo e o lóbulo da minha orelha. Não me entenda mal aqui. Não foi nada lésbico. Foi completamente diferente. Era como um animal preparando seu jantar. Senti os lábios dela em meu pescoço, e minha própria artéria pulsar enquanto meu coração acelerava. Senti os lábios dela se entreabrirem e a ponta de seus dentes na minha pele. Mas então seus dentes inferiores se prenderam na corrente de metal ao redor do meu pescoço - a do coração dourado onde estava escrito BFF. Ela hesitou, ainda me prendendo naquele abraço esquisito. Ficou tão imóvel que eu sequer tinha certeza se ela estava ou não respirando.
Aí ela me empurrou e saiu correndo pelo corredor até a porta de entrada. E sumiu.
Não consegui acreditar no que havia acabado de acontecer. Quer dizer, sério, o que é que tinha acabado de acontecer? Será que tinha sido um sonho? Uma alucinação? Eu me belisquei. Hã-hã, eu estava acordada.
Virei para olhar a cozinha e vi a montanha gigante de gosma preta no chão. Aquilo estava mesmo ali. E alguém precisava limpar aquela droga antes de minha mãe chegar em casa.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
CAPÍTULO DOIS - Pode vir quente
Chip tinha razão. Melody Lane Tavern definitivamente não é uma boate. Boates são para
gente bonita das metrópoles. Boates tem DJs e champanhe. Tudo o que tem em Melody Lane
é uma jukebox quebrada e a Privada do Sticker.
A placa de néon piscava falhando quando atravessamos o estacionamento coberto de cascalho
para chegar até a porta de entrada. O lugar era basicamente uma cabana de madeira caindo
aos pedaços decorada com calotas, localizada na saída da cidade. O cara na porta desenhou Xs
pretos gigantescos nas costas das nossas mãos. Jennifer olhou o dela com desgosto. Não
gostava de ser riscada de nada.
O interior estava em penumbras. Vimos o bartender passar uma caixa de cerveja pelo balcão
para um cara de camiseta rasgada.
– Mal posso esperar até ter idade pra ficar bêbada – disse Jennifer. – Já tomou cidra sabor de
pêssego?
– Já, foi demais – menti.
– É nojento! – contestou ela. Depois se encolheu um pouco quando um dos jogadores de
futebol americano da escola entrou, encarando os peitos dela.
– Oi, Jennifer. Você ta bonita – disse ele.
– E aí, Craig.
Jennifer revirou os olhos. Depois que ele se afastou o suficiente, ela me cutucou e disse:
– Ele acha que é bom o bastante pra mim. Não admira que esse cara esteja na turma de
matemática para retardados.
– É – concordei, distraída. Ao olhar em volta, reconheci um garoto da escola. – Ei, é Ahmet,
da Índia! O aluno de intercâmbio!
Os olhos de Jennifer acompanharam a direção dos meus e se enrugaram de irritação.
– Por que chamaram esse garoto de novo? – perguntou ela.
– Acho que o diretor Lunquist pensou que seria bom pra, você sabe... diversidade.
Ela revirou os olhos.
– Não acredito que a gente trocou um jogador de hóquei gostoso por isso.
Dei de ombros.
– Ah, sei lá, ele parece OK – argumentei. – E tem uma estátua sensacional de elefante no
armário da escola.
Eu andava planejando pesquisar sobre aquela estátua. Tinha quase certeza que era algo
religioso. Não deve ser demais ir à igreja cultua elefantes? Eu me sentia empolgada, pois o
simples fato de Ahmet existir fazia tudo parecer multicultural.
Fomos para o fundo da casa noturna e nos aproximamos do palco. Bom, acho que a
plataforma seria um termo melhor. O lugar para a apresentação só era cerca de vinte
centímetros de altura mais alto do que o resto da boate. O lugar estava lotado, mas a maioria
das pessoas era freqüentadora regular. A banda não tinha atraído muita gente diferente, além
de nós e de Ahmet.
Jennifer sacou um maço de cigarros da saia jeans. Depois tirou devagar um cigarro e o ergueu entre dois dedos, como se estivesse esperando alguém vir acendê-lo. Não me preocupei muito
com os pulmões dela, nem com os meus riscos de fumante passiva. Ela fazia aquilo o tempo todo para atrair os homens e raramente ultrapassava a marca de um cigarro antes de acabar se
agarrando com algum cara.
Dito e feito. Roman Duda, com boné camuflado, veio andando como quem não quer nada e se plantou um pouco perto demais de Jen. O cara tinha tipo uns 25 anos. Era nojento. Bebeu um gole enorme de uma garrafa de cerveja e depois arrancou o maço de cigarros das mãos dela.
– Jennifer, você tem 17 anos – repreendeu ele. – Seus pulmões são como duas costeletas de cordeiro perfeitamente rosadas, não os polua com esse lixo.
Ela respondeu colocando o cigarro que estava segurando entre os lábios e apertando-os na direção dele, que também o arrancou.
– Sabe que eu podia te prender por estar com isso?
– Me prender? Ai, ai. Você nem saiu da academia, Roman!
Ah, sim, eu mencionei que esse verdadeiro exemplo de humanidade estava na academia depolicia? Logo, logo, iria proteger a gente de bem de Devil’s Kettle. Eu duvidava que ele fosse
capaz de proteger um rato de um gato. Ou uma adolescente com tesão demais de si mesma.
– Dois meses – rouquejou ele. – Daí vou estar na força pra valer.
Jennifer inclinou-se e sussurrou:
– Você vai me algemar?
Depois se esfregou nele. Olhei pro lado. Sabia que ela já tinha ido pra cama com aquele cara,
mas tentei não pensar nisso. Não sou puritana, mas a coisa toda tava me dando nos nervos.
Roman gemeu um pouco e sussurrou de volta:
– Não faça isso aqui. Não posso arrumar encrenca.
– Olhem! – gritei, apontando para uma distração conveniente. – A banda!
Eles eram os típicos aspirantes a roqueiros alternativos. Eram tão magros que dava para
contar seus ossos. Não lavavam o cabelo havia semanas, talvez desde o inicio da turnê, e todos vestiam jeans rasgados ou calças cargo com a camiseta coladas ao corpo.
O líder da banda, porém era definitivamente salgado. Usava uma camiseta marrom sobre uma camisa branca de mangas compridas. Seus jeans eram ultracolados e ele tinha olhos enormes e intensos, como poças de tinta. Parecia... perigoso.
Ao meu lado, Jennifer pelo jeito achava a mesma coisa.
– Dá pra ver que são de fora.
Ela acenou na direção do resto da platéia, que era formada na maioria pelos bons e velhos garotos meio valentões com botas de caubói e metidos em jeans surrados.
Roman olhou a banda com desconfiança.
– Eles parecem um bando de...
– É lógico que você diria isso – cortou Jennifer. – Você é tão mosca morta. Que bom seria se a gente tivesse mais caras como esses em Devil’s Kettle. Todos estilosos e tal.
Eu ainda os estava encarando.
– Eles são tão maneiros – murmurei, ajeitava meus óculos.
Observei o guitarrista tirar a guitarra brilhante do case. Ele olhou para cima e seus olhos se encontraram com os meus. Lambeu os lábios. Congelei e engoli em seco.
– Ei, acho que eles tão precisando de duas groupies – disse Jennifer, agarrando meu braço. – Vamos! Vai ser igual a Quase famosos! Eu vou ser a Penny Lane e você pode ser aquela outra
garota.
– Não! – falei, automaticamente. Sentia dificuldades para respirar.
– Não seja nerd, Needy. Eles são só garotos. Petiscos. Nós é que temos o poder. – Ela me girou
e me encarou fundo nos olhos. – Você não sabe disso? – Depois colocou as mãos no meu peito. Essas coisas são como bombas inteligentes. É só apontar na direção certa que a coisa começa a rolar.
Eu estava bem consciente de que muitos homens ali perto estavam de olho nas mãos dela nos meus peitos, como se a gente fosse se agarrar a qualquer momento e eles não quisessem perder o showzinho. Dei de ombros e a afastei, mas sabia que ela tinha razão. Já a tinha visto conseguir muitas e muitas vezes o que queria só ostentando seus atributos. Mas eu não sabia fazer aquilo. Ela era ímã sexual; eu era só a Needy. Mesmo assim, quando ela andou até a beira do palco/plataforma, eu a segui.
O vocalista veio nos encontrar ali e olhou para Jennifer com expectativa. Aquilo não era novidade para ele.
– Oi! Hã, a gente queria muito conhecer vocês, e tal? Sou Jennifer Check e essa é... minha
amiga? – Jennifer piscava muito e entoava todas as frases como se fossem perguntas.
Ele não lançou exatamente um sorriso para ela, foi mais como se quisesse mostrar os dentes.
– Sou Nikolai, e essa é minha banda. – Ele apertou a Mao dela. Seus dedos tinham montes de anéis de prata pesados, e ele exibia uma tatuagem de lua negra no pescoço. Achei o nome dele demais. “Nikolai” parecia o nome de um caçador de vampiros gostoso de um filme que poderia passra de madrugada no Starz.
– Ah, ta, Low Shoulder, né? Ouvi dizer que vocês são super... superbons com seus
instrumentos.
Verdade seja dita, Jennifer tinha uma grande coisa a seu favor, e não era a aparência. Era a coragem. Era a garota mais corajosa que já conheci na vida. Capaz de abordar qualquer um e conseguir o que queria. Ela era assim. Não tinha muito o que dizer àquele cara, mas conseguiu soltar uma quantidade suficiente de palavras para fazê-lo notá-la. Depois, seus filhotinhos meio que selaram o acordo. Tá bom, então acho que ela tinha duas grandes coisas ao seu favor. Mas que Jennifer tinha cara de pau, isso tinha, sem dúvida.
– A guitarra é quase uma extensão do meu corpo a essa altura – disse Nikolai.
Finalmente pensei em algo para dizer.
– Ei, se não se importam com a pergunta, por que viram tocar em Devil’s Kettle? Vocês vivem em uma cidade grande, né?
Achei que era uma pergunta justa. Estávamos mesmo no fim de lugar nenhum.
Nikolai por fim voltou seus olhos negros para mim.
– É – respondeu ele. – Mas, sabe o que é, acho muito importante a gente se conectar com nossos fãs nos lugares de bosta também. Justo.
– Impressionante. Posso lhe pagar uma bebida? – perguntou Jennifer.
Tava na cara que ela queria avançar naquilo. Mas, sério: como ela iria comprar uma bebida? A gente tinha dois Xs enormes nas mãos. Estávamos no meio do mato, mas mesmo assim não serviam bebida a menores de idade.
– Eles fazem uma batida ótima em tributo ao 11 de Setembro. É vermelha, branca e azul, mas você tem de beber bem rápido, senão fica marrom – disse Jennifer.
Nikolai estremeceu um pouco.
– Hã... claro.
– Volto já.
Jennifer saltitou até o balcão. Eu meio que fui para um canto, para poder ficar de olho nela.
Seja como for, não sabia mesmo o que mais dizer a Nikolai. O olho dele era verdadeiramente assustador. Um cara alto de calças jeans e botas colocou uma música de Loretta Lynn para tocar no jukebox. Alguém deve ter concertado aquela coisa. Aí um casal começou a faze uma dança country bem na frente da banda, como se fosse para irritar os caras do rock.
O baixista foi até Nikolai e os dois começaram a sussurrar um para o outro. Não consegui deixar de ouvir. Ei, não me julgue. Eu não tinha mais nada o que fazer! Ver Jennifer exibir os peitos para o bartender não era muito empolgante.
– Dirk, o que você acha dela? – perguntou Nikolai.
Meu pulso acelerou. Ele estava falando de mim?!
– Quem, a Jan Brady? – perguntou Dirk.
SIM! Eles estavam falando de mim! Encodi a barriga para dentro e tentei parecer sexy.
– Não, não; aquela que vai me trazer uma bebida. É ela, cara.
Ah, claro. Eles estavam falando de Jennifer. Qual era a novidade, mesmo?
– Sei não – disse Dirk.
Ahá! Talvez ele tivesse gostado mais de mim!
– Tem certeza de que ela é... – começou Dirk.
– Olhe, eu fui criado num lixo como esse – interrompeu Nikolai. – Sempre tem aquela garota que é a mais gostosa da escola. A princesa da feira anual da região, ou algo assim. Ela acha que vai ser atriz ou cantora um dia, mas não entende que as regras mudam depois que a gente sai do meio do mato. De repente, você deixa de ser especial.
Fiquei completamente confusa a essa altura. Ele a tinha visto, certo? Jennifer não era nenhuma princesinha.
– Você disse pra gente que era do Brooklyn – protestou Dirk.
– A questão é – continuou Nikolai – que ela com certeza absoluta é virgem. Meu queixo caiu.
– Já saí com meninas assim. São todas princesas metidas que adoram provocar, mas nunca abrem as pernas. E depois... te dão o fora.
— Sei não - repetiu Dirk.
Meu gatinho sabia o que estava rolando. Eu estava dando apoio total a ele.
— Dirk, a gente não veio até aqui pra nada!
— Certo, tá bom. Mas, sabe, não sou só o seu baixista. Sou uma pessoa, com sentimentos, que por acaso toca baixo. E gostaria de um pouco mais de respeito...
Ele continuou a lenga-lenga, mas parei de escutar. Estava furiosa. Como eles ousavam falar de minha melhor amiga assim? Tornei a enconder a barriga e subi de novo naquele palquinho.
— Com licença - disse, enquanto dava um tapinha hesitante em Nikolai.
— Que foi? - cortou ele.
— É da minha melhor amiga que vocês estão falando. E... você tem razão... ela é virgem. O que é muito melhor do que ir pra cama com umas aberrações como vocês!
Depois me virei e atirei o cabelo para trás na direção dele. Eu me senti como um redemoinho de dignidade, quando saí batendo os pés. Então tá, menti sobre o negócio da virgindade. Como se eu fosse dizer que minha BFF é uma piranha!
Andei direto até o bar. Jennifer tinha de fato conseguido pôr as mãos em uns drinques.
Estavam em tubos de teste e eram mesmo vermelhos, brancos e azuis.
— A Torre Um não está cheia o bastante - reclamou ela. - E eu tive de brigar com Roman pra consegui-las. - Ela olhou minha cara de raiva. - Que foi? Tá com medo dos astros do rock?
— Esses caras são nojentos, Jen. Esqueça,
— Acho que o vocalista está na minha - disse ela, olhando por cima do meu ombro para ele. Isso só porque ele acha que você é virgem. Eu ouvi os dois conversando.
— O quê? Difícil, hein. - Ela endireitou os ombros. - Bom, se Nikolai quer o tipo inocente, posso fazer o tipo inocente. Vou ser a Pequena Miss Sunshine - disse ela, com determinação.
— Ele é velho demais pra você!
Jennifer me encarou com olhos semicerrados de raiva. Nunca ninguém se colocava entre ela e um homem. Jamais.
De repente os alto-falantes ganharam vida e o retorno guinchou em nossos ouvidos.
Estremeci enquanto Nikolai agarrava o microfone e sorria para a platéia.
— Boa noite, Devi’s Lake.
O guitarrista soltou um acorde de furar o tímpano.
— Devil's Kettle! - corrigiu alguém.
Olhei em volta, achando que pudesse ser Ahmet. Mas ele estava perdido no meio da multidão.
— Foi mal. Enfim, somos o Low Shoulder e só queremos fazer vocês felizes.
O logo da banda, pendurado atrás deles, mostrava os fundos de um carro meio inclinado para a direita. Não entendi. Também não entendi o nome da banda. Era indie demais pra mim.
Estava começando a achar que aqueles caras só podiam ser roubada. Nikolai, especialmente, tinha um brilho maligno no olhar. Mas, no momento, eu só achava que ele era gostoso.
Então o guitarrista soltou outro acorde de furar o tímpano e a banda tocou a canção de rock mais impressionante e mais assustadora de todos os tempos. Hoje faz parte do zeitgeist nacional, mas naquele momento foi uma revelação.
“Através das árvores vou achar você.”
A primeira vez em que ouvi aquela melodia foi mágica. Ver Nikolai cantar a letra foi intenso.
Com um dos pés sobre o amplificador, ele gritava ao microfone. O guitarrista parecia sentir dor, de tão concentrado que estava.
Jennifer ficou totalmente hipnotizada; agarrava meu braço e encarava Nikolai. Bom, como todo mundo. O bar todo ficou enfeitiçado. O Low Shoulder estava fazendo alguma macumba maluca naquela multidão. Tirei o meu capuz. Começava a ficar muito quente com tanta gente socada aqui algo dançou no reflexo dos meus óculos. As pessoas sacudiam os braços no ar; era uma loucura total. Jennifer e eu balançávamos ao som da música, junto com todo mundo. Fechei os olhos por um instante e deixei a voz de Nikolai preencher minha mente.
Por fim abri os olhos e olhei ao redor. Havia um movimento estranho à minha esquerda,
contra a parede. Uma luz dançante. Achei que talvez a multidão tivesse acendido os isqueiros e que estivessem movendo-os em homenagem à banda, mas logo percebi que chamas
dançavam pelas paredes. Chamas de verdade. Chamas grandes. Fogo!
Fiquei parada, assistindo àquilo tudo como se fosse um filme. O fogo subiu pelas paredes e enrolou os pôsteres pregados na madeira. As flâmulas presas no teto se acenderam como fósforos e a parede inteira se iluminou. Tudo aconteceu muito rápido - afinal, aquele lugar inteiro era feito de madeira. As pessoas começaram a lutar para se afastar da parede e uma mulher gritou.
O bartender idiota abriu caminho pela multidão e atirou um jarro de cerveja na parede, o que só fez piorar as coisas. Não se ensina mais na escola o que significa “inflamável” não?
Todo mundo por fim se ligou que o lugar estava em chamas. Pararam de balançar e cantarolar com a música e ficaram ali em silêncio. Foi assustador, sobrenatural, o jeito como todos simplesmente ficaram esperando algo acontecer, esperando o fogo aumentar. A banda percebeu que tinha perdido a platéia e parou de tocar abruptamente. Todos nós escutamos o fogo crepitando enquanto corria até outra parede e depois pelo teto.
E sabem o que aconteceu nesse momento crucial? Prestem atenção, isso será importante mais tarde. Eu estava lá, eu vi. Aqui vai exatamente o que os ilustres membros da banda Low Shoulder fizeram: atiraram longe os instrumentos e deram no pé! Os amplificadores e as guitarras foram abandonados enquanto os músicos sai¬am desesperados. Exceto Nikolai, que meio que ficou ali, sorrindo. Aquele cara era estranho. Observou o lugar e o fogo, depois olhou para Jennifer. Como se estivesse satisfeito com aqueles acontecimentos. Depois deu no pé, também. Eu repito: o Low Shoulder deu no pé.
A fuga da banda finalmente quebrou o encanto. Os clientes do bar voltaram em pânico à vida. Foi um caos quando as pessoas debandaram até a porta de entrada - a única porta. As chamas se espalharam, e o cabelo loiro de uma mulher pegou fogo. Ha uivou e caiu no chão, tirando a jaqueta jeans para bater com ela na cabeça. Um cara saltou por cima da mulher para chegar até a porta. Sem sequer olhar para baixo. O cheiro acre do cabelo queimado dela atingiu minhas narinas e por fim me arrancou do transe.
Ao meu lado, no meio daquela loucura, Jennifer continuava parada, como se estivesse no olho
do furacão.
— Sei pra onde a gente tem de ir! - gritei Agarrei Jennifer e comecei a arrastá-la até o banheiro.
Era como arrastar um manequim. Ela ainda estava hipnotizada, ou sei lá o quê, e seus membros não se dobraram.
— Hmmmm? - disse ela, como se não notasse a bola de fogo gigantesca no meio da qual estávamos.
— Vamos! A janelinha!
Abri caminho às cotoveladas entre uns bêbados que estavam ziguezagueando na direção oposta, enquanto puxava Jennifer comigo até os fundos do bar. Entramos no banheiro minúsculo, o que dizia DAMAS na porta. Pisei na Privada do Sticker, que já exibia um sticker do Low Shoulder grudado, e arrastei Jennifer para cima comigo. Eu me equilibrei na privada enquanto a empurrava para fora pela janelinha. Em geral a gente entrava no Melody Lane daquele jeito. Porém hoje era a única saída. Dei um impulso para cima e sai também, atrás dela. Caímos na grama e depois, cambaleantes, nos afastamos do edifício.
Olhei para a fogueira atrás de nós e vi que ainda tinha gente lá dentro. Homens e mulheres tropeçavam na saída, mas obviamente estavam subindo sobre corpos para isso. Subindo em pessoas como a mulher loira cujo cabelo pegara fogo. Havia gente sendo pisoteada até a morte. Cobri o rosto; não conseguia mais olhar.
Porém, eu continuava a ouvir os gritos... muitos gritos. Alguns devem ter sido meus. Ouvi sirenes. Escutei o estalido de ossos e o uuuuush do fogo queimando-os. Os estouros soavam como fogos de artifício. Era de gente queimando, eu sabia. Podia ouvir os engasgos ao meu lado.
Jennifer caiu em cima de mim, tossindo. Suas meias-calças estavam rasgadas por causa da saída pela janela, mas ela ainda estava com as duas botas cinza. Sua corrente com o coração dourado escrito BFF brilhou à luz do fogo. Abracei-a com força e assim fiquei.
— Tá tudo bem - sussurrei. - A gente conseguiu sair. Você vai ficar bem.
De repente, alguma mão esquelética agarrou o ombro de Jennifer. Era Nikolai.
— Graças a Deus, tá tudo bem com você! - declarou ele. - Estive te procurando em tudo o que é lugar!
Não dava para acreditar que aquela aberração ainda tentava dar em cima dela.
— Acho que você devia ir procurar sua banda - dei a dica.
— Aqueles caras? - acenou ele. - Foram os primeiros a sair correndo. Fugiram para o furgão como se fossem um bando de mulherzinhas.
Viu? Ele mesmo admitiu que os caras fugiram! Eu o encarei enquanto mais gritos se ouviam do prédio em chamas. Jennifer estremeceu e cobriu as orelhas.
— Tá perigoso de verdade aqui, meninas - disse Nikolai. Como se a gente não soubesse, dã. - Querem saber? Vocês deviam vir pro meu furgão, onde é seguro.
— O quê?! - guinchei. O cara queria que a gente entrasse no seu furgão depravado?
Ele falou comigo como se eu fosse surda.
— Perigoso. Furgão. Segurança. Vamos nessa.
Jennifer me empurrou e caiu nos braços dele.
— Certo, certo - murmurou.
— Você tá em choque, Jenny - falou ele suavemente enquanto a envolvia com um dos braços e enfiava a outra mão no bolso, de onde tirou um frasco. - Tome, beba isso aqui.
É claro que ela deu um gole enorme. Minha BFF nunca dispensava álcool de graça.
— Você não tá meio na noia com tudo isso, não? - berrei, tentando falar a língua dele. - E seus alto-falantes, amplificadores e não sei o que mais? Tá tudo pro¬vavelmente derretido, e
quando vocês forem pra próxima parada vão ter de, sei lá, fazer um show acústico idiota! Ninguém curte isso!
— Vamos arrumar equipamento novo logo, logo. Tenho a impressão de que a gente vai estourar.
Eu não sabia se ele estava falando da banda ou do prédio.
Insisti com Jennifer:
— Vamos, Jen.
— É, vamos pro meu furgão - arrematou Nikolai e a conduziu até um furgão branco
encardido estacionado na estrada que levava a Melody lane. As janelas eram negras: não dava para ver lá dentro, nem dizer se a banda estava lá ou não.
Jennifer a essa altura estava enrolando a língua.
— Quero ver seu furgão descolado. Vamos, Needy, vamos pro furgão.
Cara, o que é que tinha naquele frasco?
— Por quê? Por que a gente deveria ir? Temos de pegar o Sebring! A gente podia ir pro El Ojo e comer uns Northwoods Nachos com Molho Badger extra! Por favor? Tô morrendo de fome?
Ela sempre estava a fim de nachos... Por favor, Jen, por favor.
— Needy, corta essa! Cala a boca!
Minha melhor amiga entrou no furgão branco com o vocalista do Low Shoulder. Um cara que parecia pálido, torto e maligno como a árvore petrificada que eu vi quando era pequena. Ele se virou ao ajudá-la a entrar no banco do carona. Juro que mostrou os dentes para mim e rosnou.
Não fiquei para ver. Virei e saí correndo na direção da floresta enquanto Melody Lane
explodia atrás de mim. Nunca fui tão corajosa quanto Jennifer.
gente bonita das metrópoles. Boates tem DJs e champanhe. Tudo o que tem em Melody Lane
é uma jukebox quebrada e a Privada do Sticker.
A placa de néon piscava falhando quando atravessamos o estacionamento coberto de cascalho
para chegar até a porta de entrada. O lugar era basicamente uma cabana de madeira caindo
aos pedaços decorada com calotas, localizada na saída da cidade. O cara na porta desenhou Xs
pretos gigantescos nas costas das nossas mãos. Jennifer olhou o dela com desgosto. Não
gostava de ser riscada de nada.
O interior estava em penumbras. Vimos o bartender passar uma caixa de cerveja pelo balcão
para um cara de camiseta rasgada.
– Mal posso esperar até ter idade pra ficar bêbada – disse Jennifer. – Já tomou cidra sabor de
pêssego?
– Já, foi demais – menti.
– É nojento! – contestou ela. Depois se encolheu um pouco quando um dos jogadores de
futebol americano da escola entrou, encarando os peitos dela.
– Oi, Jennifer. Você ta bonita – disse ele.
– E aí, Craig.
Jennifer revirou os olhos. Depois que ele se afastou o suficiente, ela me cutucou e disse:
– Ele acha que é bom o bastante pra mim. Não admira que esse cara esteja na turma de
matemática para retardados.
– É – concordei, distraída. Ao olhar em volta, reconheci um garoto da escola. – Ei, é Ahmet,
da Índia! O aluno de intercâmbio!
Os olhos de Jennifer acompanharam a direção dos meus e se enrugaram de irritação.
– Por que chamaram esse garoto de novo? – perguntou ela.
– Acho que o diretor Lunquist pensou que seria bom pra, você sabe... diversidade.
Ela revirou os olhos.
– Não acredito que a gente trocou um jogador de hóquei gostoso por isso.
Dei de ombros.
– Ah, sei lá, ele parece OK – argumentei. – E tem uma estátua sensacional de elefante no
armário da escola.
Eu andava planejando pesquisar sobre aquela estátua. Tinha quase certeza que era algo
religioso. Não deve ser demais ir à igreja cultua elefantes? Eu me sentia empolgada, pois o
simples fato de Ahmet existir fazia tudo parecer multicultural.
Fomos para o fundo da casa noturna e nos aproximamos do palco. Bom, acho que a
plataforma seria um termo melhor. O lugar para a apresentação só era cerca de vinte
centímetros de altura mais alto do que o resto da boate. O lugar estava lotado, mas a maioria
das pessoas era freqüentadora regular. A banda não tinha atraído muita gente diferente, além
de nós e de Ahmet.
Jennifer sacou um maço de cigarros da saia jeans. Depois tirou devagar um cigarro e o ergueu entre dois dedos, como se estivesse esperando alguém vir acendê-lo. Não me preocupei muito
com os pulmões dela, nem com os meus riscos de fumante passiva. Ela fazia aquilo o tempo todo para atrair os homens e raramente ultrapassava a marca de um cigarro antes de acabar se
agarrando com algum cara.
Dito e feito. Roman Duda, com boné camuflado, veio andando como quem não quer nada e se plantou um pouco perto demais de Jen. O cara tinha tipo uns 25 anos. Era nojento. Bebeu um gole enorme de uma garrafa de cerveja e depois arrancou o maço de cigarros das mãos dela.
– Jennifer, você tem 17 anos – repreendeu ele. – Seus pulmões são como duas costeletas de cordeiro perfeitamente rosadas, não os polua com esse lixo.
Ela respondeu colocando o cigarro que estava segurando entre os lábios e apertando-os na direção dele, que também o arrancou.
– Sabe que eu podia te prender por estar com isso?
– Me prender? Ai, ai. Você nem saiu da academia, Roman!
Ah, sim, eu mencionei que esse verdadeiro exemplo de humanidade estava na academia depolicia? Logo, logo, iria proteger a gente de bem de Devil’s Kettle. Eu duvidava que ele fosse
capaz de proteger um rato de um gato. Ou uma adolescente com tesão demais de si mesma.
– Dois meses – rouquejou ele. – Daí vou estar na força pra valer.
Jennifer inclinou-se e sussurrou:
– Você vai me algemar?
Depois se esfregou nele. Olhei pro lado. Sabia que ela já tinha ido pra cama com aquele cara,
mas tentei não pensar nisso. Não sou puritana, mas a coisa toda tava me dando nos nervos.
Roman gemeu um pouco e sussurrou de volta:
– Não faça isso aqui. Não posso arrumar encrenca.
– Olhem! – gritei, apontando para uma distração conveniente. – A banda!
Eles eram os típicos aspirantes a roqueiros alternativos. Eram tão magros que dava para
contar seus ossos. Não lavavam o cabelo havia semanas, talvez desde o inicio da turnê, e todos vestiam jeans rasgados ou calças cargo com a camiseta coladas ao corpo.
O líder da banda, porém era definitivamente salgado. Usava uma camiseta marrom sobre uma camisa branca de mangas compridas. Seus jeans eram ultracolados e ele tinha olhos enormes e intensos, como poças de tinta. Parecia... perigoso.
Ao meu lado, Jennifer pelo jeito achava a mesma coisa.
– Dá pra ver que são de fora.
Ela acenou na direção do resto da platéia, que era formada na maioria pelos bons e velhos garotos meio valentões com botas de caubói e metidos em jeans surrados.
Roman olhou a banda com desconfiança.
– Eles parecem um bando de...
– É lógico que você diria isso – cortou Jennifer. – Você é tão mosca morta. Que bom seria se a gente tivesse mais caras como esses em Devil’s Kettle. Todos estilosos e tal.
Eu ainda os estava encarando.
– Eles são tão maneiros – murmurei, ajeitava meus óculos.
Observei o guitarrista tirar a guitarra brilhante do case. Ele olhou para cima e seus olhos se encontraram com os meus. Lambeu os lábios. Congelei e engoli em seco.
– Ei, acho que eles tão precisando de duas groupies – disse Jennifer, agarrando meu braço. – Vamos! Vai ser igual a Quase famosos! Eu vou ser a Penny Lane e você pode ser aquela outra
garota.
– Não! – falei, automaticamente. Sentia dificuldades para respirar.
– Não seja nerd, Needy. Eles são só garotos. Petiscos. Nós é que temos o poder. – Ela me girou
e me encarou fundo nos olhos. – Você não sabe disso? – Depois colocou as mãos no meu peito. Essas coisas são como bombas inteligentes. É só apontar na direção certa que a coisa começa a rolar.
Eu estava bem consciente de que muitos homens ali perto estavam de olho nas mãos dela nos meus peitos, como se a gente fosse se agarrar a qualquer momento e eles não quisessem perder o showzinho. Dei de ombros e a afastei, mas sabia que ela tinha razão. Já a tinha visto conseguir muitas e muitas vezes o que queria só ostentando seus atributos. Mas eu não sabia fazer aquilo. Ela era ímã sexual; eu era só a Needy. Mesmo assim, quando ela andou até a beira do palco/plataforma, eu a segui.
O vocalista veio nos encontrar ali e olhou para Jennifer com expectativa. Aquilo não era novidade para ele.
– Oi! Hã, a gente queria muito conhecer vocês, e tal? Sou Jennifer Check e essa é... minha
amiga? – Jennifer piscava muito e entoava todas as frases como se fossem perguntas.
Ele não lançou exatamente um sorriso para ela, foi mais como se quisesse mostrar os dentes.
– Sou Nikolai, e essa é minha banda. – Ele apertou a Mao dela. Seus dedos tinham montes de anéis de prata pesados, e ele exibia uma tatuagem de lua negra no pescoço. Achei o nome dele demais. “Nikolai” parecia o nome de um caçador de vampiros gostoso de um filme que poderia passra de madrugada no Starz.
– Ah, ta, Low Shoulder, né? Ouvi dizer que vocês são super... superbons com seus
instrumentos.
Verdade seja dita, Jennifer tinha uma grande coisa a seu favor, e não era a aparência. Era a coragem. Era a garota mais corajosa que já conheci na vida. Capaz de abordar qualquer um e conseguir o que queria. Ela era assim. Não tinha muito o que dizer àquele cara, mas conseguiu soltar uma quantidade suficiente de palavras para fazê-lo notá-la. Depois, seus filhotinhos meio que selaram o acordo. Tá bom, então acho que ela tinha duas grandes coisas ao seu favor. Mas que Jennifer tinha cara de pau, isso tinha, sem dúvida.
– A guitarra é quase uma extensão do meu corpo a essa altura – disse Nikolai.
Finalmente pensei em algo para dizer.
– Ei, se não se importam com a pergunta, por que viram tocar em Devil’s Kettle? Vocês vivem em uma cidade grande, né?
Achei que era uma pergunta justa. Estávamos mesmo no fim de lugar nenhum.
Nikolai por fim voltou seus olhos negros para mim.
– É – respondeu ele. – Mas, sabe o que é, acho muito importante a gente se conectar com nossos fãs nos lugares de bosta também. Justo.
– Impressionante. Posso lhe pagar uma bebida? – perguntou Jennifer.
Tava na cara que ela queria avançar naquilo. Mas, sério: como ela iria comprar uma bebida? A gente tinha dois Xs enormes nas mãos. Estávamos no meio do mato, mas mesmo assim não serviam bebida a menores de idade.
– Eles fazem uma batida ótima em tributo ao 11 de Setembro. É vermelha, branca e azul, mas você tem de beber bem rápido, senão fica marrom – disse Jennifer.
Nikolai estremeceu um pouco.
– Hã... claro.
– Volto já.
Jennifer saltitou até o balcão. Eu meio que fui para um canto, para poder ficar de olho nela.
Seja como for, não sabia mesmo o que mais dizer a Nikolai. O olho dele era verdadeiramente assustador. Um cara alto de calças jeans e botas colocou uma música de Loretta Lynn para tocar no jukebox. Alguém deve ter concertado aquela coisa. Aí um casal começou a faze uma dança country bem na frente da banda, como se fosse para irritar os caras do rock.
O baixista foi até Nikolai e os dois começaram a sussurrar um para o outro. Não consegui deixar de ouvir. Ei, não me julgue. Eu não tinha mais nada o que fazer! Ver Jennifer exibir os peitos para o bartender não era muito empolgante.
– Dirk, o que você acha dela? – perguntou Nikolai.
Meu pulso acelerou. Ele estava falando de mim?!
– Quem, a Jan Brady? – perguntou Dirk.
SIM! Eles estavam falando de mim! Encodi a barriga para dentro e tentei parecer sexy.
– Não, não; aquela que vai me trazer uma bebida. É ela, cara.
Ah, claro. Eles estavam falando de Jennifer. Qual era a novidade, mesmo?
– Sei não – disse Dirk.
Ahá! Talvez ele tivesse gostado mais de mim!
– Tem certeza de que ela é... – começou Dirk.
– Olhe, eu fui criado num lixo como esse – interrompeu Nikolai. – Sempre tem aquela garota que é a mais gostosa da escola. A princesa da feira anual da região, ou algo assim. Ela acha que vai ser atriz ou cantora um dia, mas não entende que as regras mudam depois que a gente sai do meio do mato. De repente, você deixa de ser especial.
Fiquei completamente confusa a essa altura. Ele a tinha visto, certo? Jennifer não era nenhuma princesinha.
– Você disse pra gente que era do Brooklyn – protestou Dirk.
– A questão é – continuou Nikolai – que ela com certeza absoluta é virgem. Meu queixo caiu.
– Já saí com meninas assim. São todas princesas metidas que adoram provocar, mas nunca abrem as pernas. E depois... te dão o fora.
— Sei não - repetiu Dirk.
Meu gatinho sabia o que estava rolando. Eu estava dando apoio total a ele.
— Dirk, a gente não veio até aqui pra nada!
— Certo, tá bom. Mas, sabe, não sou só o seu baixista. Sou uma pessoa, com sentimentos, que por acaso toca baixo. E gostaria de um pouco mais de respeito...
Ele continuou a lenga-lenga, mas parei de escutar. Estava furiosa. Como eles ousavam falar de minha melhor amiga assim? Tornei a enconder a barriga e subi de novo naquele palquinho.
— Com licença - disse, enquanto dava um tapinha hesitante em Nikolai.
— Que foi? - cortou ele.
— É da minha melhor amiga que vocês estão falando. E... você tem razão... ela é virgem. O que é muito melhor do que ir pra cama com umas aberrações como vocês!
Depois me virei e atirei o cabelo para trás na direção dele. Eu me senti como um redemoinho de dignidade, quando saí batendo os pés. Então tá, menti sobre o negócio da virgindade. Como se eu fosse dizer que minha BFF é uma piranha!
Andei direto até o bar. Jennifer tinha de fato conseguido pôr as mãos em uns drinques.
Estavam em tubos de teste e eram mesmo vermelhos, brancos e azuis.
— A Torre Um não está cheia o bastante - reclamou ela. - E eu tive de brigar com Roman pra consegui-las. - Ela olhou minha cara de raiva. - Que foi? Tá com medo dos astros do rock?
— Esses caras são nojentos, Jen. Esqueça,
— Acho que o vocalista está na minha - disse ela, olhando por cima do meu ombro para ele. Isso só porque ele acha que você é virgem. Eu ouvi os dois conversando.
— O quê? Difícil, hein. - Ela endireitou os ombros. - Bom, se Nikolai quer o tipo inocente, posso fazer o tipo inocente. Vou ser a Pequena Miss Sunshine - disse ela, com determinação.
— Ele é velho demais pra você!
Jennifer me encarou com olhos semicerrados de raiva. Nunca ninguém se colocava entre ela e um homem. Jamais.
De repente os alto-falantes ganharam vida e o retorno guinchou em nossos ouvidos.
Estremeci enquanto Nikolai agarrava o microfone e sorria para a platéia.
— Boa noite, Devi’s Lake.
O guitarrista soltou um acorde de furar o tímpano.
— Devil's Kettle! - corrigiu alguém.
Olhei em volta, achando que pudesse ser Ahmet. Mas ele estava perdido no meio da multidão.
— Foi mal. Enfim, somos o Low Shoulder e só queremos fazer vocês felizes.
O logo da banda, pendurado atrás deles, mostrava os fundos de um carro meio inclinado para a direita. Não entendi. Também não entendi o nome da banda. Era indie demais pra mim.
Estava começando a achar que aqueles caras só podiam ser roubada. Nikolai, especialmente, tinha um brilho maligno no olhar. Mas, no momento, eu só achava que ele era gostoso.
Então o guitarrista soltou outro acorde de furar o tímpano e a banda tocou a canção de rock mais impressionante e mais assustadora de todos os tempos. Hoje faz parte do zeitgeist nacional, mas naquele momento foi uma revelação.
“Através das árvores vou achar você.”
A primeira vez em que ouvi aquela melodia foi mágica. Ver Nikolai cantar a letra foi intenso.
Com um dos pés sobre o amplificador, ele gritava ao microfone. O guitarrista parecia sentir dor, de tão concentrado que estava.
Jennifer ficou totalmente hipnotizada; agarrava meu braço e encarava Nikolai. Bom, como todo mundo. O bar todo ficou enfeitiçado. O Low Shoulder estava fazendo alguma macumba maluca naquela multidão. Tirei o meu capuz. Começava a ficar muito quente com tanta gente socada aqui algo dançou no reflexo dos meus óculos. As pessoas sacudiam os braços no ar; era uma loucura total. Jennifer e eu balançávamos ao som da música, junto com todo mundo. Fechei os olhos por um instante e deixei a voz de Nikolai preencher minha mente.
Por fim abri os olhos e olhei ao redor. Havia um movimento estranho à minha esquerda,
contra a parede. Uma luz dançante. Achei que talvez a multidão tivesse acendido os isqueiros e que estivessem movendo-os em homenagem à banda, mas logo percebi que chamas
dançavam pelas paredes. Chamas de verdade. Chamas grandes. Fogo!
Fiquei parada, assistindo àquilo tudo como se fosse um filme. O fogo subiu pelas paredes e enrolou os pôsteres pregados na madeira. As flâmulas presas no teto se acenderam como fósforos e a parede inteira se iluminou. Tudo aconteceu muito rápido - afinal, aquele lugar inteiro era feito de madeira. As pessoas começaram a lutar para se afastar da parede e uma mulher gritou.
O bartender idiota abriu caminho pela multidão e atirou um jarro de cerveja na parede, o que só fez piorar as coisas. Não se ensina mais na escola o que significa “inflamável” não?
Todo mundo por fim se ligou que o lugar estava em chamas. Pararam de balançar e cantarolar com a música e ficaram ali em silêncio. Foi assustador, sobrenatural, o jeito como todos simplesmente ficaram esperando algo acontecer, esperando o fogo aumentar. A banda percebeu que tinha perdido a platéia e parou de tocar abruptamente. Todos nós escutamos o fogo crepitando enquanto corria até outra parede e depois pelo teto.
E sabem o que aconteceu nesse momento crucial? Prestem atenção, isso será importante mais tarde. Eu estava lá, eu vi. Aqui vai exatamente o que os ilustres membros da banda Low Shoulder fizeram: atiraram longe os instrumentos e deram no pé! Os amplificadores e as guitarras foram abandonados enquanto os músicos sai¬am desesperados. Exceto Nikolai, que meio que ficou ali, sorrindo. Aquele cara era estranho. Observou o lugar e o fogo, depois olhou para Jennifer. Como se estivesse satisfeito com aqueles acontecimentos. Depois deu no pé, também. Eu repito: o Low Shoulder deu no pé.
A fuga da banda finalmente quebrou o encanto. Os clientes do bar voltaram em pânico à vida. Foi um caos quando as pessoas debandaram até a porta de entrada - a única porta. As chamas se espalharam, e o cabelo loiro de uma mulher pegou fogo. Ha uivou e caiu no chão, tirando a jaqueta jeans para bater com ela na cabeça. Um cara saltou por cima da mulher para chegar até a porta. Sem sequer olhar para baixo. O cheiro acre do cabelo queimado dela atingiu minhas narinas e por fim me arrancou do transe.
Ao meu lado, no meio daquela loucura, Jennifer continuava parada, como se estivesse no olho
do furacão.
— Sei pra onde a gente tem de ir! - gritei Agarrei Jennifer e comecei a arrastá-la até o banheiro.
Era como arrastar um manequim. Ela ainda estava hipnotizada, ou sei lá o quê, e seus membros não se dobraram.
— Hmmmm? - disse ela, como se não notasse a bola de fogo gigantesca no meio da qual estávamos.
— Vamos! A janelinha!
Abri caminho às cotoveladas entre uns bêbados que estavam ziguezagueando na direção oposta, enquanto puxava Jennifer comigo até os fundos do bar. Entramos no banheiro minúsculo, o que dizia DAMAS na porta. Pisei na Privada do Sticker, que já exibia um sticker do Low Shoulder grudado, e arrastei Jennifer para cima comigo. Eu me equilibrei na privada enquanto a empurrava para fora pela janelinha. Em geral a gente entrava no Melody Lane daquele jeito. Porém hoje era a única saída. Dei um impulso para cima e sai também, atrás dela. Caímos na grama e depois, cambaleantes, nos afastamos do edifício.
Olhei para a fogueira atrás de nós e vi que ainda tinha gente lá dentro. Homens e mulheres tropeçavam na saída, mas obviamente estavam subindo sobre corpos para isso. Subindo em pessoas como a mulher loira cujo cabelo pegara fogo. Havia gente sendo pisoteada até a morte. Cobri o rosto; não conseguia mais olhar.
Porém, eu continuava a ouvir os gritos... muitos gritos. Alguns devem ter sido meus. Ouvi sirenes. Escutei o estalido de ossos e o uuuuush do fogo queimando-os. Os estouros soavam como fogos de artifício. Era de gente queimando, eu sabia. Podia ouvir os engasgos ao meu lado.
Jennifer caiu em cima de mim, tossindo. Suas meias-calças estavam rasgadas por causa da saída pela janela, mas ela ainda estava com as duas botas cinza. Sua corrente com o coração dourado escrito BFF brilhou à luz do fogo. Abracei-a com força e assim fiquei.
— Tá tudo bem - sussurrei. - A gente conseguiu sair. Você vai ficar bem.
De repente, alguma mão esquelética agarrou o ombro de Jennifer. Era Nikolai.
— Graças a Deus, tá tudo bem com você! - declarou ele. - Estive te procurando em tudo o que é lugar!
Não dava para acreditar que aquela aberração ainda tentava dar em cima dela.
— Acho que você devia ir procurar sua banda - dei a dica.
— Aqueles caras? - acenou ele. - Foram os primeiros a sair correndo. Fugiram para o furgão como se fossem um bando de mulherzinhas.
Viu? Ele mesmo admitiu que os caras fugiram! Eu o encarei enquanto mais gritos se ouviam do prédio em chamas. Jennifer estremeceu e cobriu as orelhas.
— Tá perigoso de verdade aqui, meninas - disse Nikolai. Como se a gente não soubesse, dã. - Querem saber? Vocês deviam vir pro meu furgão, onde é seguro.
— O quê?! - guinchei. O cara queria que a gente entrasse no seu furgão depravado?
Ele falou comigo como se eu fosse surda.
— Perigoso. Furgão. Segurança. Vamos nessa.
Jennifer me empurrou e caiu nos braços dele.
— Certo, certo - murmurou.
— Você tá em choque, Jenny - falou ele suavemente enquanto a envolvia com um dos braços e enfiava a outra mão no bolso, de onde tirou um frasco. - Tome, beba isso aqui.
É claro que ela deu um gole enorme. Minha BFF nunca dispensava álcool de graça.
— Você não tá meio na noia com tudo isso, não? - berrei, tentando falar a língua dele. - E seus alto-falantes, amplificadores e não sei o que mais? Tá tudo pro¬vavelmente derretido, e
quando vocês forem pra próxima parada vão ter de, sei lá, fazer um show acústico idiota! Ninguém curte isso!
— Vamos arrumar equipamento novo logo, logo. Tenho a impressão de que a gente vai estourar.
Eu não sabia se ele estava falando da banda ou do prédio.
Insisti com Jennifer:
— Vamos, Jen.
— É, vamos pro meu furgão - arrematou Nikolai e a conduziu até um furgão branco
encardido estacionado na estrada que levava a Melody lane. As janelas eram negras: não dava para ver lá dentro, nem dizer se a banda estava lá ou não.
Jennifer a essa altura estava enrolando a língua.
— Quero ver seu furgão descolado. Vamos, Needy, vamos pro furgão.
Cara, o que é que tinha naquele frasco?
— Por quê? Por que a gente deveria ir? Temos de pegar o Sebring! A gente podia ir pro El Ojo e comer uns Northwoods Nachos com Molho Badger extra! Por favor? Tô morrendo de fome?
Ela sempre estava a fim de nachos... Por favor, Jen, por favor.
— Needy, corta essa! Cala a boca!
Minha melhor amiga entrou no furgão branco com o vocalista do Low Shoulder. Um cara que parecia pálido, torto e maligno como a árvore petrificada que eu vi quando era pequena. Ele se virou ao ajudá-la a entrar no banco do carona. Juro que mostrou os dentes para mim e rosnou.
Não fiquei para ver. Virei e saí correndo na direção da floresta enquanto Melody Lane
explodia atrás de mim. Nunca fui tão corajosa quanto Jennifer.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
CAPÍTULO 1 - Kettle Corn
Placa diz: BEM-VINDO A DEVIL’S KETTLE, A “CHALEIRA DO DIABO”. POP. 7.036.
VENHA VER O QUE ESTÁ FERVENDO! Sério... diz isso mesmo. Uma escola, uma pizzaria,
um semáforo e um monte de mata ao redor: basicamente os fundos de Lugar Nenhum,
Minnesota. Foi aqui que tudo aconteceu.
Eu sei que "Chaleira do Diabo" soa meio como magia negra, mas o lugar ganhou esse nome
por causa de uma cachoeira. Tecnicamente, nem é uma cachoeira normal. Em vez de
despencar em um riacho ou córrego, a água cai em um buraco e de lá não sai mais. Não existe
uma fonte a mais de um quilômetro de distância ou coisa assim: a água simplesmente some.
Os cientistas não conseguem explicar. Já lançaram todo tipo de coisa lá dentro - aquelas
bolinhas que quicam, tinta vermelha, lama radioativa, bebês... Ahá, agora peguei você! Essa
dos bebês foi brincadeira. Cara, que tipo de cidade você acha que é essa? Enfim, nenhum dos
trecos que jogaram lá dentro jamais veio à tona. Talvez tenham ido parar em outra dimensão.
Ou talvez o buraco seja, você sabe... fundo de verdade.
Acho que você está a fim de ouvir a história da Jennifer; é o que todo mundo sempre quer.
Uma garota tão bonita, dizem, partir antes do tempo assim. Era líder de torcida, sabe. Porém,
acredite, a vadia teve o que mereceu.
Perto do fim, seu corpo tinha uma aparência horrível, todo decomposto e amarelo. Mas, alguns meses atrás, Jen ainda era a coisa mais linda deste lado daquela coisa do buraco fundo.
Jennifer; eu; meu namorado, Chip... Éramos todos normais. Correspondíamos às nossas fotos
no anuário da escola: nada mais, nada menos. Jennifer, a líder de torcida; Needy, a CDF; Chip,
o baterista fofo.
Tem gente que tenta me convencer de que Chip Dove era um péssimo baterista, que era só um
nerd fracassado, mas eu nem escuto. Para mim, tudo nele era musical.
Tá bom, certo, tudo bem. Eu sabia que ele não sabia tocar nada na bateria. Ele só sabia "Land
of a Thousand Dances" - uma dessas músicas velhas sentimentaloides com a letra cheia de
nã-nã-nãs. Para sorte dele, porém, tocar na banda da Kettle High não era algo que exigia
muito. Ele descia a mão no tambor.
As meninas da torcida apareciam em seus uniformes roxo e amarelo-mostarda, batendo as
botinhas brancas em um ritmo mais perfeito do que a batida do tambor de Chip, depois
desdobravam as bandeiras para dar alguns volteios. E, lá na frente, senhoras e senhores, estava
Jennifer Check. Ela era linda. Cabelo castanho brilhante esvoaçante, peitões, cinturinha... O
pacote completo. Difícil acreditar que estava no ensino médio. Parecia que tinha acabado de
sair de uma das páginas duplas da Playboy. Essas apresentações antes dos jogos aconteciam
com muita frequência (eu às vezes me perguntava se isso não seria só uma desculpa para ver
Jennifer em sua superminissaia plissada dando voltas na bandeira). Naquela época a gente era
grudada, praticamente irmãs. As pessoas custavam a acreditar que uma beldade como Jennifer
pudesse ser amiga de uma débil como eu. Eu usava óculos de nerd e meu cabelo nunca viu um
secador na vida. Mas éramos as Supergêmeas desde a época pré-verbal. O amor que se sela na
caixa de areia nunca morre. Bom, pelo menos é o que eu costumava pensar.
Era fevereiro, uma quinta, e a escola inteira estava na apresentação, Jen acenou para a plateia e
eu acenei de volta. Uma garota da nossa aula de biologia, Chastity, estava ao meu lado nos
bancos do ginásio e revirou os olhos para mim.
— Você é lésbica.
— Quê? - perguntei na defensiva, - Ela é minha melhor amiga.
Chastity imitou meu aceno.
— Você a olha como se quisesse se esfregar com ela. Tipo sexo sem penetração.
— Tá com inveja? - atirei, enquanto coçava o nariz por baixo dos meus óculos.
— Do quê? Daquela vadiazinha cheia da grana?
— Ela não é cheia da grana - respondi. A coitada da Jennifer Check estava longe de ser rica, a
menos que se medisse a riqueza pelas marcas na cabeceira da cama. Bom, marcas figurativas:
ela não marcaria de verdade sua cama de dossel.
Mais tarde, eu estava escavando um livro em meu armário azul de metal quando Jennifer
chegou saltitante para checar o cabelo no meu espelho magnético.
— E aí, Vodol? - sorriu ela.
— E aí, Vagisil?
Era minha resposta padrão.
Jennifer desviou o olhar para ver o rei do esporte, Jonas Kozelle, beliscar a bunda de alguma
garota. Seu nariz perfeito se retorceu de nojo. Ela já havia passado da Fase dos garotões do
esporte e entrado na dos homens mais velhos havia muito tempo.
— Nós duas vamos sair hoje à noite - disse ela, arregaçando as mangas do suéter rosa cortado.
A camiseta colada listrada de rosa e branco se ergueu, mostrando sua barriga reta.
— Hoje? Pra onde?
— O Low Shoulder vai tocar no Melody Lane. Pela primeira vez na vida o show está liberado
pra todas as idades, ou seja, a gente não vai ter de entrar escondido pela janelinha.
Apesar de Chip ser músico, eu não acompanhava bandas.
— O que é o Low Shoulder? - perguntei.
— Uma banda de indie rock de fora da cidade. Dei uma olhada no MySpace e o vocalista é
ultrassalgado. E vai ter um monte de outros petiscos salgadinhos lá pra você. Vamos, Needy! É
fim de semana!
— É quinta-feira - corrigi, batendo a porta do armário.
— Quinta conta como fim de semana na faculdade. E daqui a um ano e meio a gente vai estar
na faculdade.
Ela sorriu. Nós duas mal podíamos esperar pra dar o fora dessa cidade - juntas. A gente tinha
planejado ser BFF por toda a eternidade.
Dei um soco no ar.
— University of Northern Minnesota, Duluth! U-hu!
— Bom... e aí? - Ela fingiu perguntar. Em geral não tinha discussão. Ela liderava; eu seguia.
— Humm, não vai dar.
Olhei pro lado, tentando ser forte. Ela me rodeou até me encarar com aqueles olhos redondos
de filhotinho.
— Ai, para de ser chata.
— Prometi sair com o Chip hoje. Só nós dois - expliquei.
Jennifer fez beicinho e desenhou um X no ar na frente do meu rosto.
— Buuu! Needy tá fora.
Olhei em volta, para ver se alguém tinha notado. Odiava quando ela fazia aquilo em público.
Mas também odiava lhe dizer não. Eu realmente só queria ficar em casa com o Chip e me
sentia mal toda vez que cancelava algo com ele, mas sabia que, no fim, Jennifer conseguiria me
dobrar.
Decidi cortar aquela perseguição. Dei de ombros e me rendi.
— A que horas é o show? - perguntei.
— Passo pra te pegar às 20h30. Minha mãe vai sair com o dono da loja de presunto, por isso
não vai precisar do carro.
— Ele parece ser um cara legal.
Ela deu um sorrisinho.
— É, minha mãe diz que ele tem um enoooooorme... coração. Tão enorme que agora ela anda
com uma infecção urinária recorrente.
Eca.
Ela se virou para ir embora, mas gritou por cima do ombro:
— Vista algo bacana, ok?
— Ok - suspirei para mim mesma enquanto ela se afastava.
No vocabulário de Jennifer, “vista algo bacana” significava algo bastante específico. Significava
que eu não podia parecer um zero à esquerda, mas também não podia superá-la. Podia
mostrar a barriga, mas nada de decote. Lembra toda aquela besteirada que contei antes, sobre
os peitos dela? Eu estava sendo boazinha. Na verdade, eu é que tenho os peitões, mas sempre
tive de escondê-los para que Jennifer não sentisse sua posição de gatinha gostosa número um
ameaçada. Ela era sempre o alvo maior dos elogios quando a gente saía - ninguém colocava
Jenny pra escanteio.
Posando na frente do espelho encardido do meu banheiro, experimentei algumas blusinhas e
descartei todas. Decotada demais, laranja demais, surrada demais. Por fim, escolhi uma baby
look preta básica com capuz cinza e dobrei meu jeans um pouquinho na altura dos quadris.
Chip estava esperando, deitado espalhado na minha cama. Era bom tê-lo por perto enquanto
eu me arrumava. Era bom ter alguém prestando atenção em mim e não em Jennifer, para
variar. Chip e eu começamos a namorar há mais ou menos um ano. Ele me convidou para sair
depois de um jogo em que houve apresentação da banda da escola. Fiquei tão espantada que
só consegui ficar parada olhando para ele. Jennifer disse sim por mim e depois parou de fingir
que ele não existia. Então, de um jeito estranho, eu meio que lhe devo uma. Não que ela me
deixe ficar muito tempo com ele.
Quando saí do banheiro, ele ergueu a sobrancelha.
— Esse jeans aí tá ultrabaixo. Tô quase vendo sua virilha.
— Chip! É um show de rock. Esse é meu visual roqueiro.
— Tá, mas sabe o que é, tô vendo seu útero.
Suspirei e subi as calças, enquanto ele não parava de falar.
— Nunca ouvi falar desse Low Shoulder. De qual dos caras a Jennifer tá atrás?
— Do vocalista e líder da banda, óbvio - respondi, enquanto apanhava uma escova e começava
a passá-la pelos nós de meu cabelo loiro cinzento. Em geral eu só afastava um pouco de cabelo
do rosto com um elástico de cabelo. Ele é pesado demais para eu conseguir prendê-lo inteiro
com um elástico.
— Garotas como Jennifer não saem com bateristas.
— Valeu - disse ele, fingindo estar magoado.
— Sem querer ofender - falei. - Quer dizer, ela provavelmente abriria uma exceção no caso de
um baterista que também fosse vocalista e líder da banda. Esse cara aí tem uns 22 anos, por
isso pode acabar preso se transar com ela. Mas Jennifer disse que ele é ultrassalgado, então...
— Salgado? Vocês duas nunca vão parar com essa linguagem secreta?
— Salgado quer dizer “lindo” - expliquei, enquanto Chip me agarrava pela cintura e me
puxava para a cama. Ele acariciou minha orelha com o nariz.
— Então você deve ser molho shoyu, baby - disse ele. Depois me beijou. Seus lábios eram
macios e eu retribuí o beijo. O cabelo castanho dele fez cócegas em meu nariz. Ele o usava
meio comprido, mas não demais. Só o bastante para eu ter de afastá-lo dos olhos dele às vezes.
Sinto falta de transar com Chip. Era o paraíso. Pelo menos a melhor coisa que senti na vida, já
que nunca beijei ninguém nem antes nem depois. Ele mordiscou meu lábio e começou a
desafivelar o cinto.
Culpada por ter de deixá-lo sozinho, tentei falar enquanto ele me mordiscava.
— Tem certeza de que não quer ir ao Melody Lane com a gente? Agora eles dão pipoca de
graça. Tem um carrinho de pipoca lá.
O cinto já estava desafivelado e agora ele estava às voltas com o zíper.
— Você prometeu que a gente ia ficar junto hoje - balbuciou. - Aluguei Orca, a baleia
assassina. É tipo Tubarão, só que com uma baleia inofensiva.
— A gente fica junto em casa o tempo todo. No quesito ficar juntos, estamos extremamente
bem... Peraí,
Parei e o empurrei para longe, para que eu pudesse me sentar. Eu era como um perdigueiro
farejando uma raposa.
— Jennifer tá aqui - falei.
— Como você sabe? - perguntou ele, tentando me agarrar de novo. Então nós dois a
escutamos lá embaixo.
— Needy, pare de brincar com o absorvente interno e desça agora mesmo!
Chip pareceu assustado.
— Isso é muito estranho - murmurou para si mesmo. Eu me levantei e terminei de escovar o
cabelo. Chip nunca entendeu a ligação que existia entre mim e Jennifer. Éramos uma
irmandade sagrada, - Você sempre faz o que Jennifer te diz pra fazer - reclamou, enquanto
ajeitava as calças. Bom, talvez ele entendesse nossa relação mais do que eu achava que
entendia. É um caso a se pensar.
— Não faço, não - retruquei, negando o óbvio. - Só gosto de fazer as mesmas coisas que ela, só
isso. A gente tem coisas em comum. É por isso que a gente é BFF.
Puxei a corrente com pingente em forma de coração de baixo da camiseta e a ergui para que ele a visse. Tinha gravado BFF e tinha um brilhantezinho falso. Para ser sincera, eu achava
mesmo que tinha vontade de fazer as mesmas coisas que ela.
Ele simplesmente bufou:
— Vocês duas não têm nada em comum.
Agora fiquei puta da vida.
— Tá, tudo bem, Chip. Deixa pra lá.
Coloquei os óculos e saí do quarto pisando forte. Desci as escadas e vi Jennifer esperando na
porta da frente.
Estava usando uma tonelada de maquiagem e quase nada além disso. Uma roupa padrão para
uma saída ao Melody Lane. Bem, tá certo: além da baby look roxa rasgada e da minissaia jeans,
estava também com a jaqueta branca acolchoada que tinha gola de pelo falso. Era uma graça!
Sempre quis aquela jaqueta... Pelo menos até ela ficar coberta de sangue. Jennifer havia
arrematado o visual com um cinto que trazia escrita com tachas a palavra LOVE.
Ela balançou as chaves do carro na minha frente:
— Adivinhe só quem vai ser dona de um carrão até as 23h30? Um Chrysler Sebring 2003, e ele
é todinho meu! Você tem sorte de poder sair comigo em grande estilo!
Ela deu um meio giro com o quadril. Aí parou quando Chip desceu as escadas atrás de mim.
— Ah, oi, Chip - cumprimentou ela. - Gosta de filhotinhos?
Jennifer agarrou seus próprios peitos e os atirou na direção de Chip com uma risadinha.
— Acho que você esqueceu, tipo, uns dois botões - disse Chip, corajosamente tentando não
olhar, mas sem conseguir se conter.
— Acho que ela se lembrou de dois botões - retruquei, enquanto me metia na frente de
Jennifer para barrar a visão dele.
Ela cheirou o ar ao meu redor.
— Vocês dois estavam transando?
— Você é nojenta! - gritei. Empurrei-a para longe e ela me empurrou de volta. Lutamos um
pouco, e os peitos de Jennifer quase saíram da blusa. Quando vi Chip olhando, parei na hora.
— Tá bom, vamos logo pra boate - disse ela, depois de restabelecer sua superioridade como
ímã de garotos.
Enquanto eu trancava a porta da frente, Chip tentou arrumar briga.
— Melody Lane não é uma boate, é um bar - disse ele. - Na verdade, nem chega a ser bar. É
tipo um bingo com serpentina de chope.
— Dá um tempo, Chip. Você só tá com ciuminho porque não foi convidado - disse Jennifer.
VENHA VER O QUE ESTÁ FERVENDO! Sério... diz isso mesmo. Uma escola, uma pizzaria,
um semáforo e um monte de mata ao redor: basicamente os fundos de Lugar Nenhum,
Minnesota. Foi aqui que tudo aconteceu.
Eu sei que "Chaleira do Diabo" soa meio como magia negra, mas o lugar ganhou esse nome
por causa de uma cachoeira. Tecnicamente, nem é uma cachoeira normal. Em vez de
despencar em um riacho ou córrego, a água cai em um buraco e de lá não sai mais. Não existe
uma fonte a mais de um quilômetro de distância ou coisa assim: a água simplesmente some.
Os cientistas não conseguem explicar. Já lançaram todo tipo de coisa lá dentro - aquelas
bolinhas que quicam, tinta vermelha, lama radioativa, bebês... Ahá, agora peguei você! Essa
dos bebês foi brincadeira. Cara, que tipo de cidade você acha que é essa? Enfim, nenhum dos
trecos que jogaram lá dentro jamais veio à tona. Talvez tenham ido parar em outra dimensão.
Ou talvez o buraco seja, você sabe... fundo de verdade.
Acho que você está a fim de ouvir a história da Jennifer; é o que todo mundo sempre quer.
Uma garota tão bonita, dizem, partir antes do tempo assim. Era líder de torcida, sabe. Porém,
acredite, a vadia teve o que mereceu.
Perto do fim, seu corpo tinha uma aparência horrível, todo decomposto e amarelo. Mas, alguns meses atrás, Jen ainda era a coisa mais linda deste lado daquela coisa do buraco fundo.
Jennifer; eu; meu namorado, Chip... Éramos todos normais. Correspondíamos às nossas fotos
no anuário da escola: nada mais, nada menos. Jennifer, a líder de torcida; Needy, a CDF; Chip,
o baterista fofo.
Tem gente que tenta me convencer de que Chip Dove era um péssimo baterista, que era só um
nerd fracassado, mas eu nem escuto. Para mim, tudo nele era musical.
Tá bom, certo, tudo bem. Eu sabia que ele não sabia tocar nada na bateria. Ele só sabia "Land
of a Thousand Dances" - uma dessas músicas velhas sentimentaloides com a letra cheia de
nã-nã-nãs. Para sorte dele, porém, tocar na banda da Kettle High não era algo que exigia
muito. Ele descia a mão no tambor.
As meninas da torcida apareciam em seus uniformes roxo e amarelo-mostarda, batendo as
botinhas brancas em um ritmo mais perfeito do que a batida do tambor de Chip, depois
desdobravam as bandeiras para dar alguns volteios. E, lá na frente, senhoras e senhores, estava
Jennifer Check. Ela era linda. Cabelo castanho brilhante esvoaçante, peitões, cinturinha... O
pacote completo. Difícil acreditar que estava no ensino médio. Parecia que tinha acabado de
sair de uma das páginas duplas da Playboy. Essas apresentações antes dos jogos aconteciam
com muita frequência (eu às vezes me perguntava se isso não seria só uma desculpa para ver
Jennifer em sua superminissaia plissada dando voltas na bandeira). Naquela época a gente era
grudada, praticamente irmãs. As pessoas custavam a acreditar que uma beldade como Jennifer
pudesse ser amiga de uma débil como eu. Eu usava óculos de nerd e meu cabelo nunca viu um
secador na vida. Mas éramos as Supergêmeas desde a época pré-verbal. O amor que se sela na
caixa de areia nunca morre. Bom, pelo menos é o que eu costumava pensar.
Era fevereiro, uma quinta, e a escola inteira estava na apresentação, Jen acenou para a plateia e
eu acenei de volta. Uma garota da nossa aula de biologia, Chastity, estava ao meu lado nos
bancos do ginásio e revirou os olhos para mim.
— Você é lésbica.
— Quê? - perguntei na defensiva, - Ela é minha melhor amiga.
Chastity imitou meu aceno.
— Você a olha como se quisesse se esfregar com ela. Tipo sexo sem penetração.
— Tá com inveja? - atirei, enquanto coçava o nariz por baixo dos meus óculos.
— Do quê? Daquela vadiazinha cheia da grana?
— Ela não é cheia da grana - respondi. A coitada da Jennifer Check estava longe de ser rica, a
menos que se medisse a riqueza pelas marcas na cabeceira da cama. Bom, marcas figurativas:
ela não marcaria de verdade sua cama de dossel.
Mais tarde, eu estava escavando um livro em meu armário azul de metal quando Jennifer
chegou saltitante para checar o cabelo no meu espelho magnético.
— E aí, Vodol? - sorriu ela.
— E aí, Vagisil?
Era minha resposta padrão.
Jennifer desviou o olhar para ver o rei do esporte, Jonas Kozelle, beliscar a bunda de alguma
garota. Seu nariz perfeito se retorceu de nojo. Ela já havia passado da Fase dos garotões do
esporte e entrado na dos homens mais velhos havia muito tempo.
— Nós duas vamos sair hoje à noite - disse ela, arregaçando as mangas do suéter rosa cortado.
A camiseta colada listrada de rosa e branco se ergueu, mostrando sua barriga reta.
— Hoje? Pra onde?
— O Low Shoulder vai tocar no Melody Lane. Pela primeira vez na vida o show está liberado
pra todas as idades, ou seja, a gente não vai ter de entrar escondido pela janelinha.
Apesar de Chip ser músico, eu não acompanhava bandas.
— O que é o Low Shoulder? - perguntei.
— Uma banda de indie rock de fora da cidade. Dei uma olhada no MySpace e o vocalista é
ultrassalgado. E vai ter um monte de outros petiscos salgadinhos lá pra você. Vamos, Needy! É
fim de semana!
— É quinta-feira - corrigi, batendo a porta do armário.
— Quinta conta como fim de semana na faculdade. E daqui a um ano e meio a gente vai estar
na faculdade.
Ela sorriu. Nós duas mal podíamos esperar pra dar o fora dessa cidade - juntas. A gente tinha
planejado ser BFF por toda a eternidade.
Dei um soco no ar.
— University of Northern Minnesota, Duluth! U-hu!
— Bom... e aí? - Ela fingiu perguntar. Em geral não tinha discussão. Ela liderava; eu seguia.
— Humm, não vai dar.
Olhei pro lado, tentando ser forte. Ela me rodeou até me encarar com aqueles olhos redondos
de filhotinho.
— Ai, para de ser chata.
— Prometi sair com o Chip hoje. Só nós dois - expliquei.
Jennifer fez beicinho e desenhou um X no ar na frente do meu rosto.
— Buuu! Needy tá fora.
Olhei em volta, para ver se alguém tinha notado. Odiava quando ela fazia aquilo em público.
Mas também odiava lhe dizer não. Eu realmente só queria ficar em casa com o Chip e me
sentia mal toda vez que cancelava algo com ele, mas sabia que, no fim, Jennifer conseguiria me
dobrar.
Decidi cortar aquela perseguição. Dei de ombros e me rendi.
— A que horas é o show? - perguntei.
— Passo pra te pegar às 20h30. Minha mãe vai sair com o dono da loja de presunto, por isso
não vai precisar do carro.
— Ele parece ser um cara legal.
Ela deu um sorrisinho.
— É, minha mãe diz que ele tem um enoooooorme... coração. Tão enorme que agora ela anda
com uma infecção urinária recorrente.
Eca.
Ela se virou para ir embora, mas gritou por cima do ombro:
— Vista algo bacana, ok?
— Ok - suspirei para mim mesma enquanto ela se afastava.
No vocabulário de Jennifer, “vista algo bacana” significava algo bastante específico. Significava
que eu não podia parecer um zero à esquerda, mas também não podia superá-la. Podia
mostrar a barriga, mas nada de decote. Lembra toda aquela besteirada que contei antes, sobre
os peitos dela? Eu estava sendo boazinha. Na verdade, eu é que tenho os peitões, mas sempre
tive de escondê-los para que Jennifer não sentisse sua posição de gatinha gostosa número um
ameaçada. Ela era sempre o alvo maior dos elogios quando a gente saía - ninguém colocava
Jenny pra escanteio.
Posando na frente do espelho encardido do meu banheiro, experimentei algumas blusinhas e
descartei todas. Decotada demais, laranja demais, surrada demais. Por fim, escolhi uma baby
look preta básica com capuz cinza e dobrei meu jeans um pouquinho na altura dos quadris.
Chip estava esperando, deitado espalhado na minha cama. Era bom tê-lo por perto enquanto
eu me arrumava. Era bom ter alguém prestando atenção em mim e não em Jennifer, para
variar. Chip e eu começamos a namorar há mais ou menos um ano. Ele me convidou para sair
depois de um jogo em que houve apresentação da banda da escola. Fiquei tão espantada que
só consegui ficar parada olhando para ele. Jennifer disse sim por mim e depois parou de fingir
que ele não existia. Então, de um jeito estranho, eu meio que lhe devo uma. Não que ela me
deixe ficar muito tempo com ele.
Quando saí do banheiro, ele ergueu a sobrancelha.
— Esse jeans aí tá ultrabaixo. Tô quase vendo sua virilha.
— Chip! É um show de rock. Esse é meu visual roqueiro.
— Tá, mas sabe o que é, tô vendo seu útero.
Suspirei e subi as calças, enquanto ele não parava de falar.
— Nunca ouvi falar desse Low Shoulder. De qual dos caras a Jennifer tá atrás?
— Do vocalista e líder da banda, óbvio - respondi, enquanto apanhava uma escova e começava
a passá-la pelos nós de meu cabelo loiro cinzento. Em geral eu só afastava um pouco de cabelo
do rosto com um elástico de cabelo. Ele é pesado demais para eu conseguir prendê-lo inteiro
com um elástico.
— Garotas como Jennifer não saem com bateristas.
— Valeu - disse ele, fingindo estar magoado.
— Sem querer ofender - falei. - Quer dizer, ela provavelmente abriria uma exceção no caso de
um baterista que também fosse vocalista e líder da banda. Esse cara aí tem uns 22 anos, por
isso pode acabar preso se transar com ela. Mas Jennifer disse que ele é ultrassalgado, então...
— Salgado? Vocês duas nunca vão parar com essa linguagem secreta?
— Salgado quer dizer “lindo” - expliquei, enquanto Chip me agarrava pela cintura e me
puxava para a cama. Ele acariciou minha orelha com o nariz.
— Então você deve ser molho shoyu, baby - disse ele. Depois me beijou. Seus lábios eram
macios e eu retribuí o beijo. O cabelo castanho dele fez cócegas em meu nariz. Ele o usava
meio comprido, mas não demais. Só o bastante para eu ter de afastá-lo dos olhos dele às vezes.
Sinto falta de transar com Chip. Era o paraíso. Pelo menos a melhor coisa que senti na vida, já
que nunca beijei ninguém nem antes nem depois. Ele mordiscou meu lábio e começou a
desafivelar o cinto.
Culpada por ter de deixá-lo sozinho, tentei falar enquanto ele me mordiscava.
— Tem certeza de que não quer ir ao Melody Lane com a gente? Agora eles dão pipoca de
graça. Tem um carrinho de pipoca lá.
O cinto já estava desafivelado e agora ele estava às voltas com o zíper.
— Você prometeu que a gente ia ficar junto hoje - balbuciou. - Aluguei Orca, a baleia
assassina. É tipo Tubarão, só que com uma baleia inofensiva.
— A gente fica junto em casa o tempo todo. No quesito ficar juntos, estamos extremamente
bem... Peraí,
Parei e o empurrei para longe, para que eu pudesse me sentar. Eu era como um perdigueiro
farejando uma raposa.
— Jennifer tá aqui - falei.
— Como você sabe? - perguntou ele, tentando me agarrar de novo. Então nós dois a
escutamos lá embaixo.
— Needy, pare de brincar com o absorvente interno e desça agora mesmo!
Chip pareceu assustado.
— Isso é muito estranho - murmurou para si mesmo. Eu me levantei e terminei de escovar o
cabelo. Chip nunca entendeu a ligação que existia entre mim e Jennifer. Éramos uma
irmandade sagrada, - Você sempre faz o que Jennifer te diz pra fazer - reclamou, enquanto
ajeitava as calças. Bom, talvez ele entendesse nossa relação mais do que eu achava que
entendia. É um caso a se pensar.
— Não faço, não - retruquei, negando o óbvio. - Só gosto de fazer as mesmas coisas que ela, só
isso. A gente tem coisas em comum. É por isso que a gente é BFF.
Puxei a corrente com pingente em forma de coração de baixo da camiseta e a ergui para que ele a visse. Tinha gravado BFF e tinha um brilhantezinho falso. Para ser sincera, eu achava
mesmo que tinha vontade de fazer as mesmas coisas que ela.
Ele simplesmente bufou:
— Vocês duas não têm nada em comum.
Agora fiquei puta da vida.
— Tá, tudo bem, Chip. Deixa pra lá.
Coloquei os óculos e saí do quarto pisando forte. Desci as escadas e vi Jennifer esperando na
porta da frente.
Estava usando uma tonelada de maquiagem e quase nada além disso. Uma roupa padrão para
uma saída ao Melody Lane. Bem, tá certo: além da baby look roxa rasgada e da minissaia jeans,
estava também com a jaqueta branca acolchoada que tinha gola de pelo falso. Era uma graça!
Sempre quis aquela jaqueta... Pelo menos até ela ficar coberta de sangue. Jennifer havia
arrematado o visual com um cinto que trazia escrita com tachas a palavra LOVE.
Ela balançou as chaves do carro na minha frente:
— Adivinhe só quem vai ser dona de um carrão até as 23h30? Um Chrysler Sebring 2003, e ele
é todinho meu! Você tem sorte de poder sair comigo em grande estilo!
Ela deu um meio giro com o quadril. Aí parou quando Chip desceu as escadas atrás de mim.
— Ah, oi, Chip - cumprimentou ela. - Gosta de filhotinhos?
Jennifer agarrou seus próprios peitos e os atirou na direção de Chip com uma risadinha.
— Acho que você esqueceu, tipo, uns dois botões - disse Chip, corajosamente tentando não
olhar, mas sem conseguir se conter.
— Acho que ela se lembrou de dois botões - retruquei, enquanto me metia na frente de
Jennifer para barrar a visão dele.
Ela cheirou o ar ao meu redor.
— Vocês dois estavam transando?
— Você é nojenta! - gritei. Empurrei-a para longe e ela me empurrou de volta. Lutamos um
pouco, e os peitos de Jennifer quase saíram da blusa. Quando vi Chip olhando, parei na hora.
— Tá bom, vamos logo pra boate - disse ela, depois de restabelecer sua superioridade como
ímã de garotos.
Enquanto eu trancava a porta da frente, Chip tentou arrumar briga.
— Melody Lane não é uma boate, é um bar - disse ele. - Na verdade, nem chega a ser bar. É
tipo um bingo com serpentina de chope.
— Dá um tempo, Chip. Você só tá com ciuminho porque não foi convidado - disse Jennifer.
Sou Needy. Quer dizer, é assim que as pessoas me chamam. É só um apelido, tipo Barbie ou
Betty. Meu nome mesmo é Anita, mas faz anos que ninguém me chama assim. Jennifer
sempre me chamou de Needy para facilitar as coisas e todo mundo foi na onda.
Ser chamada de Needy, “necessitada” não diz muito nem sobre o meu destino, nem sobre o
que aconteceu, como se poderia achar. Eu não acredito que necessito de alguma coisa... a não
ser de vingança. É, um pouco mais de vingança seria ótimo.
Porém, por enquanto, só estou aqui sentada no meu quarto - minha cela -, enrolando dois
galhos em lã laranja, fazendo um daqueles amuletos Olho de Deus, como no jardim de
infância. Minhas habilidades com artesanato obviamente melhoraram muito em 17 anos.
Mas não há muito mais o que fazer por aqui. Só tem uma cama com um travesseiro e um
cobertor que dá coceira, uma coisa meio cômoda, meio escrivaninha com duas gavetas, e uma
janela gradeada. Não faz sentido olhar por ela; já sei que em frente existe uma cerca de três
metros de altura com arame farpado por cima. Aqui não é bem como uma prisão... é quase
um reformatório, uma lata de segurança mínima para lunáticos. Eles dopam a gente com
medicamentos e, se alguma garota fizer qualquer coisa bem louca, eles a atiram na solitária.
Como dizem os jornais, estou na Casa de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Feminina de
Leech Lake, que quer dizer “lago de sanguessugas”. E é verdade, o lago está mesmo cheio de
sanguessugas. Nojo total.
Quando não consigo mais suportar meus próprios pensamentos, leio a correspondência.
Recebo um monte: cartas, pacotes, fotos, calcinhas. Acho que recebo mais carta do que o
Papai Noel e o Zac Efron juntos.
Bem... eu sou demais.Às vezes as cartas são de gente que diz estar rezando por mim. Dizem que tudo vai ficar bem
se eu simplesmente aceitar Jesus Cristo no meu coração. Tento rezar em voz alta, mas nunca
acontece nada. Ninguém volta. Ninguém sai da cruz. Não sei... Acho que talvez eu devesse ter
frequentado a igreja antes.
De vez em quando recebo presentes de fracassados que viram minha foto no jornal e querem
se casar comigo, ou algo assim. Acham que podem me libertar de todo esse sofrimento. Como
se eu fosse sair com algum pervertido que sente tesão só de pensar em corromper menores!
Dá um tempo! Posso ser maluca, mas desesperada eu não sou.
Coloquei a foto de Chip na cômoda. Você poderia achar que eu nem aguentaria olhar para ela.
Mas não: é o contrário. Olho para ela todos os dias, tentando esquecer a última vez em que o
vi, com as costelas à mostra, o braço arrancado e os intestinos caídos pelo chão...
Alguém bate à porta. Raymundo enfia a cabeça para dentro e diz que o horário da recreação
começou há cinco minutos. Se liga, Raymundo. Ele põe meus comprimidos sobre a cômoda e
fecha a porta. Não tenho necessidade de sentir nada, por isso sempre tomo meus remedirmos.
Eles meio que dão uma aliviada.
Ao tirar as calças do pijama para vestir a roupa de ginástica, vejo as cicatrizes. Eu meio que
gosto da aparência... Elas me dão um quê de perigosa. Por um minuto, passo o dedo e sinto as linhas inchadas que marcam minhas coxas. Foi uma briga daquelas.
Ponho o short de ginástica, depois minhas pantufas de coelhinho. Não ria! Acho que elas são
bonitinhas. E, seja como for, eles dão uma levantada na camiseta laranja e nas calças
paraquedista que são a última moda por aqui.
Eles realmente deixam a gente sair para correr e soltar nossas loucuras. Tocam ópera no
sistema de alto-falantes nas quadras de badminton. As garotas mais estranhas daqui são as que
jogam badminton. No meio de uma partida, uma beldade desdentada me dá um sorriso que é
só gengivas, antes de acertar uma raquetada na perna da colega. Do outro lado da rede, outra
mulher de dar pena e que obviamente não sabe como se joga aquilo, está batendo a raquete na
parede. Os monitores só observam, sorrindo como idiotas.
Bem-vindos às Olimpíadas de Dementes. Aqui em Leech Lake eles são ótimos em recreação.
Supostamente isso ajuda nós, os pacientes, a liberar a agressividade. Trocamos as
machadinhas pelas raquetes. Aquelas fracassadas no canto trocaram as bombas caseiras por
pular corda. Até as adeptas de automutilação entram na onda quando estão conscientes. Os
curativos de uma garota tremulam no ar a cada vez que ela pula a corda.
Eu, pessoalmente, acho que esses caras estão só tentando cansar a gente. Se nos deixarem
sempre letárgicas, não vai haver revolta. Só que comigo não funcionam essas táticas de
calouros. Sou uma atacante. É o que está escrito na minha ficha com caneta vermelha e depois
destacado com marca-texto: ATACANTE. Quando fui ao médico, dei uma olhada em
algumas das outras coisas que estão na minha ficha. Embaixo de ANITA “NEEDY” LESNICK
está escrito: alucinações e ideias de grandeza. Pelo jeito, sou maluca. O assassinato na verdade
não foi minha culpa. Foi o que minha mãe disse. E enfim, se eu tivesse mesmo ideias de
grandeza, não estaria então tentando arrumar umas fãs por aqui? E me tornar a líder de um
culto? Eu bem que poderia, sabe. É só contar certas coisas que eu já vi, o banho de sangue que
vivi... Elas me idolatrariam em um piscar de olhos. Mas eu busco só ficar invisível. Nem
sempre funciona.
Na hora do almoço, todo mundo tem uma amiga com quem se sentar. Até Desdentada tem
uma amiga. Mas eu, eu agarro uma bandeja de metal e vou me sentar sozinha com meu
sanduíche de micro-ondas.
Por mais que eu me esforce, nunca consigo ficar invisível. Nunca me deixam em paz. Hoje é a
vez da nutricionista, Ela vem direto até mim, como se estivesse esperando eu comer meu
sanduíche sozinha.
— Só um, hein? - diz ela.
— Eu gosto disso.
Essa sou eu, sendo invisível e sem provocar discussão. Só esperando a outra ir embora.
— Que bom - diz ela -, mas não sei se só um sanduíche será capaz de fornecer energia
suficiente para o seu dia. Eu recomendaria mais carboidratos complexos.
Não sei por quê, talvez porque ela esteja me dizendo o que fazer, ou porque ela é feia, ou
porque sua voz parece um prego riscando um quadro-negro, mas, seja lá o que for, eu surto.
Piro. Ultimamente acontece bastante,
— EU RECOMENDARIA QUE VOCÊ CALASSE A BOCA! - grito, enquanto me levanto de
repente, viro a perna e acerto um chute circular rápido no rosto dela. Ainda me surpreendo ao ver o quanto sou rápida.
A vadia da nutricionista cai de joelhos e seu nariz quebrado sangra. Todo mundo começa a
dar gritinhos. Dois enfermeiros vêm e me agarram pelos braços. Luto com eles por tempo o
bastante para conseguir dar uma escarrada no olho da nutricionista. É tudo culpa dessa
maldita. São necessários mais dois enfermeiros para me arrastar pelo corredor, gritando -
quatro armários para derrotar essa baixinha aqui. Olho pra trás, para ela, uma única vez, bem
a tempo de vê-la cuspir fora um dente.
Acabo na solitária, claro. Chorando. Acho que é melhor mesmo para mim ficar aqui. Já não
me reconheço mais. Eu não era assim maluca, juro. Nunca machucaria ninguém. Eu
costumava ser normal.. Bem, tão normal quanto qualquer garota sob a influência dos
hormônios da adolescência. Mas, depois que os assassinatos começaram, passei a me sentir,
não sei, meio desparafusada ou algo do tipo. Desmanchando como aquela calça jeans que fiz
na aula de economia doméstica. Despedaçada como frango xadrez. Morta por dentro.
É, na minha escola ainda dão aula de economia doméstica.
Essa não é a primeira vez que vou parar na solitária. Nem a solitária é tão ruim quanto se
imagina. A cela de concreto tem na verdade um tamanho decente; posso ficar deitada de
costas e me esticar, se eu quiser. Bem lá em cima, perto do teto, existe uma janelinha. Daria
para sair engatinhando por ela, se alguém fosse capaz de magicamente dar um salto de cinco
metros de altura.
Quando estou presa aqui, tento dormir, mas é pior do que ficar acordada. Meus sonhos não
são uma fuga. Vejo formas esquisitas, caveiras sorridentes, rostos carcomidos. E o tempo
inteiro ouço aquela música, em uma repetição infinita. Assim que fecho os olhos, aquele
sucesso idiota do Top 40 começa a tocar e a bateria tatua uma batida no meu cérebro.
Através das árvores vou achar você,
Curar os destroços que restaram em você.
E as estrelas irão lembrar a você
Que nós vamos nos reencontrar...
Essa música é muito mala.
Para matar o tempo, repasso os acontecimentos na minha cabeça. Uma, duas, três, mil vezes.
A história toda faz sentido? Não. Aconteceu de verdade? Sim. Alguém um dia vai acreditar em
mim? Ao que tudo indica, não.
Acho que você quer ouvir a história. Acho que eu quero contá-la, senão não estaria aqui
matraqueando por tanto tempo. Contar vai me impedir de ficar sonhando acordada.
Mas, primeiro, quero deixar uma coisa bem clara. Muita gente pergunta se eu me arrependo
de ter feito o que eu fiz.
A única coisa de que me arrependo é de não ter feito antes.
Betty. Meu nome mesmo é Anita, mas faz anos que ninguém me chama assim. Jennifer
sempre me chamou de Needy para facilitar as coisas e todo mundo foi na onda.
Ser chamada de Needy, “necessitada” não diz muito nem sobre o meu destino, nem sobre o
que aconteceu, como se poderia achar. Eu não acredito que necessito de alguma coisa... a não
ser de vingança. É, um pouco mais de vingança seria ótimo.
Porém, por enquanto, só estou aqui sentada no meu quarto - minha cela -, enrolando dois
galhos em lã laranja, fazendo um daqueles amuletos Olho de Deus, como no jardim de
infância. Minhas habilidades com artesanato obviamente melhoraram muito em 17 anos.
Mas não há muito mais o que fazer por aqui. Só tem uma cama com um travesseiro e um
cobertor que dá coceira, uma coisa meio cômoda, meio escrivaninha com duas gavetas, e uma
janela gradeada. Não faz sentido olhar por ela; já sei que em frente existe uma cerca de três
metros de altura com arame farpado por cima. Aqui não é bem como uma prisão... é quase
um reformatório, uma lata de segurança mínima para lunáticos. Eles dopam a gente com
medicamentos e, se alguma garota fizer qualquer coisa bem louca, eles a atiram na solitária.
Como dizem os jornais, estou na Casa de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Feminina de
Leech Lake, que quer dizer “lago de sanguessugas”. E é verdade, o lago está mesmo cheio de
sanguessugas. Nojo total.
Quando não consigo mais suportar meus próprios pensamentos, leio a correspondência.
Recebo um monte: cartas, pacotes, fotos, calcinhas. Acho que recebo mais carta do que o
Papai Noel e o Zac Efron juntos.
Bem... eu sou demais.Às vezes as cartas são de gente que diz estar rezando por mim. Dizem que tudo vai ficar bem
se eu simplesmente aceitar Jesus Cristo no meu coração. Tento rezar em voz alta, mas nunca
acontece nada. Ninguém volta. Ninguém sai da cruz. Não sei... Acho que talvez eu devesse ter
frequentado a igreja antes.
De vez em quando recebo presentes de fracassados que viram minha foto no jornal e querem
se casar comigo, ou algo assim. Acham que podem me libertar de todo esse sofrimento. Como
se eu fosse sair com algum pervertido que sente tesão só de pensar em corromper menores!
Dá um tempo! Posso ser maluca, mas desesperada eu não sou.
Coloquei a foto de Chip na cômoda. Você poderia achar que eu nem aguentaria olhar para ela.
Mas não: é o contrário. Olho para ela todos os dias, tentando esquecer a última vez em que o
vi, com as costelas à mostra, o braço arrancado e os intestinos caídos pelo chão...
Alguém bate à porta. Raymundo enfia a cabeça para dentro e diz que o horário da recreação
começou há cinco minutos. Se liga, Raymundo. Ele põe meus comprimidos sobre a cômoda e
fecha a porta. Não tenho necessidade de sentir nada, por isso sempre tomo meus remedirmos.
Eles meio que dão uma aliviada.
Ao tirar as calças do pijama para vestir a roupa de ginástica, vejo as cicatrizes. Eu meio que
gosto da aparência... Elas me dão um quê de perigosa. Por um minuto, passo o dedo e sinto as linhas inchadas que marcam minhas coxas. Foi uma briga daquelas.
Ponho o short de ginástica, depois minhas pantufas de coelhinho. Não ria! Acho que elas são
bonitinhas. E, seja como for, eles dão uma levantada na camiseta laranja e nas calças
paraquedista que são a última moda por aqui.
Eles realmente deixam a gente sair para correr e soltar nossas loucuras. Tocam ópera no
sistema de alto-falantes nas quadras de badminton. As garotas mais estranhas daqui são as que
jogam badminton. No meio de uma partida, uma beldade desdentada me dá um sorriso que é
só gengivas, antes de acertar uma raquetada na perna da colega. Do outro lado da rede, outra
mulher de dar pena e que obviamente não sabe como se joga aquilo, está batendo a raquete na
parede. Os monitores só observam, sorrindo como idiotas.
Bem-vindos às Olimpíadas de Dementes. Aqui em Leech Lake eles são ótimos em recreação.
Supostamente isso ajuda nós, os pacientes, a liberar a agressividade. Trocamos as
machadinhas pelas raquetes. Aquelas fracassadas no canto trocaram as bombas caseiras por
pular corda. Até as adeptas de automutilação entram na onda quando estão conscientes. Os
curativos de uma garota tremulam no ar a cada vez que ela pula a corda.
Eu, pessoalmente, acho que esses caras estão só tentando cansar a gente. Se nos deixarem
sempre letárgicas, não vai haver revolta. Só que comigo não funcionam essas táticas de
calouros. Sou uma atacante. É o que está escrito na minha ficha com caneta vermelha e depois
destacado com marca-texto: ATACANTE. Quando fui ao médico, dei uma olhada em
algumas das outras coisas que estão na minha ficha. Embaixo de ANITA “NEEDY” LESNICK
está escrito: alucinações e ideias de grandeza. Pelo jeito, sou maluca. O assassinato na verdade
não foi minha culpa. Foi o que minha mãe disse. E enfim, se eu tivesse mesmo ideias de
grandeza, não estaria então tentando arrumar umas fãs por aqui? E me tornar a líder de um
culto? Eu bem que poderia, sabe. É só contar certas coisas que eu já vi, o banho de sangue que
vivi... Elas me idolatrariam em um piscar de olhos. Mas eu busco só ficar invisível. Nem
sempre funciona.
Na hora do almoço, todo mundo tem uma amiga com quem se sentar. Até Desdentada tem
uma amiga. Mas eu, eu agarro uma bandeja de metal e vou me sentar sozinha com meu
sanduíche de micro-ondas.
Por mais que eu me esforce, nunca consigo ficar invisível. Nunca me deixam em paz. Hoje é a
vez da nutricionista, Ela vem direto até mim, como se estivesse esperando eu comer meu
sanduíche sozinha.
— Só um, hein? - diz ela.
— Eu gosto disso.
Essa sou eu, sendo invisível e sem provocar discussão. Só esperando a outra ir embora.
— Que bom - diz ela -, mas não sei se só um sanduíche será capaz de fornecer energia
suficiente para o seu dia. Eu recomendaria mais carboidratos complexos.
Não sei por quê, talvez porque ela esteja me dizendo o que fazer, ou porque ela é feia, ou
porque sua voz parece um prego riscando um quadro-negro, mas, seja lá o que for, eu surto.
Piro. Ultimamente acontece bastante,
— EU RECOMENDARIA QUE VOCÊ CALASSE A BOCA! - grito, enquanto me levanto de
repente, viro a perna e acerto um chute circular rápido no rosto dela. Ainda me surpreendo ao ver o quanto sou rápida.
A vadia da nutricionista cai de joelhos e seu nariz quebrado sangra. Todo mundo começa a
dar gritinhos. Dois enfermeiros vêm e me agarram pelos braços. Luto com eles por tempo o
bastante para conseguir dar uma escarrada no olho da nutricionista. É tudo culpa dessa
maldita. São necessários mais dois enfermeiros para me arrastar pelo corredor, gritando -
quatro armários para derrotar essa baixinha aqui. Olho pra trás, para ela, uma única vez, bem
a tempo de vê-la cuspir fora um dente.
Acabo na solitária, claro. Chorando. Acho que é melhor mesmo para mim ficar aqui. Já não
me reconheço mais. Eu não era assim maluca, juro. Nunca machucaria ninguém. Eu
costumava ser normal.. Bem, tão normal quanto qualquer garota sob a influência dos
hormônios da adolescência. Mas, depois que os assassinatos começaram, passei a me sentir,
não sei, meio desparafusada ou algo do tipo. Desmanchando como aquela calça jeans que fiz
na aula de economia doméstica. Despedaçada como frango xadrez. Morta por dentro.
É, na minha escola ainda dão aula de economia doméstica.
Essa não é a primeira vez que vou parar na solitária. Nem a solitária é tão ruim quanto se
imagina. A cela de concreto tem na verdade um tamanho decente; posso ficar deitada de
costas e me esticar, se eu quiser. Bem lá em cima, perto do teto, existe uma janelinha. Daria
para sair engatinhando por ela, se alguém fosse capaz de magicamente dar um salto de cinco
metros de altura.
Quando estou presa aqui, tento dormir, mas é pior do que ficar acordada. Meus sonhos não
são uma fuga. Vejo formas esquisitas, caveiras sorridentes, rostos carcomidos. E o tempo
inteiro ouço aquela música, em uma repetição infinita. Assim que fecho os olhos, aquele
sucesso idiota do Top 40 começa a tocar e a bateria tatua uma batida no meu cérebro.
Através das árvores vou achar você,
Curar os destroços que restaram em você.
E as estrelas irão lembrar a você
Que nós vamos nos reencontrar...
Essa música é muito mala.
Para matar o tempo, repasso os acontecimentos na minha cabeça. Uma, duas, três, mil vezes.
A história toda faz sentido? Não. Aconteceu de verdade? Sim. Alguém um dia vai acreditar em
mim? Ao que tudo indica, não.
Acho que você quer ouvir a história. Acho que eu quero contá-la, senão não estaria aqui
matraqueando por tanto tempo. Contar vai me impedir de ficar sonhando acordada.
Mas, primeiro, quero deixar uma coisa bem clara. Muita gente pergunta se eu me arrependo
de ter feito o que eu fiz.
A única coisa de que me arrependo é de não ter feito antes.
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