Quando cheguei em casa, soltei Spector da sua jaula e o levei até a cozinha. Nem dava para perceber que alguém havia vomitado meleca preta em tudo ontem à noite.
— Quer um sanduíche de mortadela frita, Spector?
Ele simplesmente correu pelo chão para perseguir uma bola. Acho que não estava com fome.
Tirei o pão e a mortadela da geladeira e coloquei uma frigideira no fogão. Quando o
sanduíche estava chiando com um pouco de manteiga, liguei o rádio da cozinha.
Adivinhe que música estava tocando?
Curar os destroços que restaram em você.
Coloquei a espátula de lado e me afastei do fogão. Não tinha certeza do que fazer. Ouvir aquela música de novo... me senti encurralada. Por sorte terminou, e o DJ começou a falar.
— Vocês acabaram de ouvir o Low Shoulder, os caras da banda local que se tornaram os heróis improváveis da tragédia que aconteceu em Devil’s Kettle ontem à noite.
Quê? Heróis? Não. Desliguei o fogão e apanhei um prato do escorredor, enquanto ouvia.
— Testemunhas oculares afirmam que os garotos ajudaram inúmeras pessoas a escaparem do inferno, arriscando suas próprias vidas. Isso é que é rock’n’roll com consciência, senhoras e senhores.
Aí está. Foi por isso que eu insistira tanto antes em contar aquela parte da história. Aqueles canalhas não pensaram em ninguém além de si mesmos!
Coloquei o sanduíche no prato e cortei-o na diagonal devagar. Será que todo mundo nessa cidade enlouqueceu? Será que eu era a única que realmente se lembrava do que aconteceu ontem à noite?
— Tivemos muitos pedidos desta música. E adivinhem quem temos a honra de ter no estúdio agora? Low Shoulder! E aí, como estão, rapazes?
Ah, isso seria bom. Dei uma mordida na mortadela e mastiguei devagar, enquanto Nikolai respondia.
— Estamos indo, cara. Não é fácil. Mas os verdadeiros heróis são o povo de Devil’s Kettle. Espero que a gente consiga reunir um décimo de sua coragem e atitude no nosso próximo álbum...
Desliguei o rádio. Não conseguia escutar mais nada. Sentei-me e deixei o resto do meu
sanduíche cair no chão. Spector tornou a aparecer e começou a mordiscá-lo. De repente eu não me sentia nada bem. Estava meio enjoada. Talvez estivesse com gripe.
Minha mãe entrou na cozinha de pijama.
— Mãe! Não sabia que você tava acordada!
— Tive um daqueles meus pesadelos noturnos.
Ela olhou ao redor da cozinha, piscando.
— São quatro da tarde, então tecnicamente você teve um pesadelo diurno.
— Certo, certo. Estou toda confusa depois que comecei a trabalhar no turno da noite de novo.
Minha mãe se sentou à mesa em uma cadeira de vinil laranja e verde. Parecia tão cansada. Seu cabelo com bobs estava desgrenhado, e havia mais grisalho naquele loiro claro do que o normal.
— O que você sonhou? - perguntei.
— Sonhei que algumas pessoas más estavam tentando pregar você em uma árvore com martelos e estacas grandes. Como Jesus Cristo. - Ela se benzeu. Minha mãe ain¬da
freqüentava a igreja. - Mas eu não os deixei pegarem minha filha! Sou uma mamãe ursa durona!
Sorri para ela. Era a melhor mãe do mundo, que me protegia até em sonho.
— Eu sei cuidar de mim mesma - garanti.
Desde que meu pai nos abandonara, eu meio que cuidava de mim. Sabia que já era difícil o suficiente para ela conseguir dar conta de ir trabalhar.
— Espere só - disse minha mãe. - Um dia desses você vai gritar por mim e eu não estarei lá.
Ela agarrou uma de minhas mãos e a apertou. Odiava ter de fazer isso quando ela estava tão cansada, mas ela precisava saber.
— Ei, mãe, você ouviu o noticiário antes de ir dormir hoje de manhã?
Ela observou Spector tirar a mortadela de dentro do sanduíche e levá-la até um canto,
enquanto eu lhe contava tudo. Bem, contei do incêndio e que pessoas morreram. Não
precisava preocupá-la com todos os detalhes.
Naquela noite, depois que minha mãe saiu para trabalhar, eu me sentei no quarto e tentei ler uma história em quadrinhos que Chip tinha me emprestado. Mas na maior parte do tempo só enfiei um biscoito atrás do outro na boca. Depois de ter passado mal mais cedo, eu agora me sentia muito melhor e estava morta de fome. Comia tão rápido que mal mastigava. Podia comer chips sabor cedro do jardim que não veria a menor diferença. Acabei com o saco de biscoitos e o sacudi na minha escrivaninha, procurando por algum pedacinho de chocolate que talvez tivesse escapado, meu celular tocou. Era Jennifer, e o rádio dela tocava tão alto aquela Top 40 repugnante que
eu mal conseguia escutar o que ela estava dizendo.
— Eu me sinto tããão bem!
— Que bom pra você.
— Sabe quando você beija um cara pela primeira vez e todo o seu corpo parece vibrar?
— Sei.
— É bom assim.
Era inacreditável.
— Que legal. Eu... ainda tô meio deprimida com tudo o que aconteceu. Sabe, a pira funerária gigantesca ardendo no meio da cidade?
— Sai-dessa-ponto-com, Needy! Já era. A vida é muito curta pra ficar triste com um churrasco de porcos pobretões imundos.
— Que legal da sua parte, Jen - retruquei, áspera.
— Só estou explicando como as coisas são. Além do mais, você devia estar contente por mim. Esse é o melhor dia da minha vida desde que inventaram o calendário. - Então ela riu como uma pessoa insana. Havia algo seriamente errado com ela. Alguém tinha levado a minha melhor amiga embora e deixado um andróide no lugar.
O bipe da chamada em espera tocou. Salva pelo gongo.
— Tem alguém na espera - falei.
— Deixe pra lá! - disse ela. Em qualquer outro dia era o que eu provavelmente faria, mas ela estava me tirando do sério.
— Só um segundo.
— Buuu, vou riscar você da minha lista.
Eu a ignorei e cliquei para atender a outra chamada. Era Chip, e parecia muito assustado.
— Preciso ver você agora mesmo! - gritou ele, em meio ao som de várias teclas tocadas no piano com força, em desarmonia. Devia ser a irmãzinha dele, Camille. Às vezes ela era um saco.
— Não tô conseguindo escutar direito! - gritei
— Camille tá tocando piano - explicou ele.
Ahá! Eu tinha razão. Depois eu o ouvi mandar ela parar com aquilo, então a menina disse para ele parar com aquilo.
— Pode me encontrar no McCullum daqui a dez minutos? - perguntou ele ao telefone.
— Quinze - respondi.
Depois apertei a tecla para voltar para a outra ligação, enquanto a irmã dele continuava a gritar.
— Jen, tenho de ir.
— Sou uma deusa - disse ela, satisfeita.
Eu não tinha tempo para esse tipo de maluquice.
— Hum, tá, mas preciso ir encontrar Chip no Parque McCullum.
— Sabe que Chip anda uma graça ultimamente? Me diga uma coisa, ele anda malhando ou algo assim? Qual é a jogada, hein?
Ai. Meu. Deus. Eu absolutamente não podia lidar com Jennifer se interessando por Chip. Ele era a única coisa que era minha, não dela.
— Preciso ir - disse e desliguei.
Fiquei sentada um minuto, rezando para ela esquecer do Chip e deixá-lo em paz. Depois me levantei e peguei um suéter.
Dez minutos depois eu estava no parque. Havia uma quadra de vôlei e um gramado, além de um estacionamento com chão de cascalho. O mato rodeava tudo, e as árvores faziam o lugar ficar bem escuro à noite. Era um ponto famoso de pegação, mas Chip não tinha parecido com tesão ao telefone.
Subi o morrinho nos fundos do gramado e lá de cima vi que estava acontecendo alguma coisa embaixo, perto das casas. Havia um monte de carros de polícia com as luzes rodando, e o local estava todo protegido com fita amarela de isolamento. Chip estava ali de pé, olhando os carros de polícia. De repente me dei conta do que eu estava vendo.
— Por que os policiais estão aqui na sua casa? - perguntei, agarrando o braço dele em pânico.
Seu braço era sólido. Eu disse ao meu cérebro: Chip está aqui, Chip está bem, não entre em pânico.
— Na minha, não. Na de Jonas Kozelle.
Ah, era o Jonas. Bom, isso era normal, na verdade. Relaxei um pouco.
— O que foi? Ele tentou vender peiote falso pros alunos do oitavo ano de novo?
— Não, Needy. - Chip engasgou um pouco. - Ele foi assassinado.
Apertei de novo seu braço.
— O quê?!
— Ai - murmurou Chip, tirando minha mão do seu braço e segurando-a. Ele respirou fundo para se controlar e me contou o que sabia.
Alguém destroçou o Jonas membro por membro no mato atrás da escola. E... comeu partes dele.
— Comeu partes dele? - repeti, chocada. Alguém comeu Jonas Kozelle? - Quem faria isso?
— Não sei - sussurrou Chip. - Aconteceu logo depois das aulas. Ninguém pode saber ainda, mas meu pai foi lá falar com os policiais. A mãe de Jonas ficou catatônica ou algo do tipo. Ela só consegue ficar olhando pela janela como uma estátua-robô-manequim-zumbi.
Agora que ele disse isso, eu consegui ver uma forma na janela da frente da casa dos Kozelles.
Isso estava além dos limites
— Não pode ser coincidência - falei, com firmeza.
Chip me encarou.
— Como assim, Needy?
— Uma armadilha mortal ontem à noite e agora um canibal maluco come o maior cara da
escola? Dá um tempo!
— Não me assuste, baby - disse Chip.
Ele realmente parecia assustado. Mas eu estava ficando irritada.
— Dá um tempo, Chip. Na maioria das cidadezinhas acontece uma tragédia a cada década, talvez. E em Devil’s Kettle dois pesadelos acontecem em 24 horas? Isso é de dar medo!
— Como assim? Você acha que é algo sobrenatural?
Fiz que não.
— Não sei. Sou extremamente inteligente, mas é claro que não sei tudo. - Sorri meio amarelo e dei de ombros.
— Bom, agora a maré de azar já deve ter passado, certo? Não pode piorar, né? É claro que não. Claro que não pode. Quer dizer, você concorda, né? Não vai mais ter nenhuma vítima.
Chip de repente estava seriamente surtando.
— Você tá tremendo! - repreendi.
— Hã, tô com frio - respondeu ele, controlando-se. - Tá muito frio aqui fora.
Tentando animá-lo um pouco, ofereci meu suéter.
— É rosa! - reclamou ele.
— Rosa é demais - argumentei. - Os rappers usam rosa.
Agora quem estava tremendo era eu. Não estávamos conseguindo consolar um ao outro. Estávamos apavorados. Chip me puxou para perto e me beijou. Enquanto ele me abraçava, tentei encontrar alívio em seus braços, mas não iria funcionar. Sentia nos ossos que algo muito, muito pior estava para acontecer.
sábado, 7 de maio de 2011
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