No fim, percebi que Chip tinha razão. Ele foi bem esperto nos últimos momentos. Se eu
ficasse ali, a polícia certamente me prenderia, e eu não podia deixar isso acontecer. Eu tinha
coisas a fazer.
Beijei-o uma última vez e o deitei com cuidado no chão. Fiquei ao lado dele por um segundo,
memorizando seu rosto, depois o deixei. Consegui pular a cerca, mas deixei que a gravidade
fizesse a parte mais complicada. Então fui mancando até o ginásio da escola. Não havia mais
pressa. Chip já tivera sua última dança.
A vizinhança estava completamente escura. Não tínhamos muitos postes de luz em Devil’s
Kettle. Cheguei no início do estacionamento da escola, que estava banha¬do em uma luz
amarela forte meio borrada. Perto das vagas para deficientes, vi dois idiotas se agarrando.
Parei e fiquei encarando. Era incompreensível para mim que qualquer pessoa na face da Terra
pudesse se divertir naquele momento. A garota finalmente me notou ali.
— Tá olhando o quê, desajeitada?
— Só vendo se ele consegue chupar a feiúra da sua cara - respondi. Era pura maldade. A
amargura já começava a se espalhar do meu coração para o resto da minha alma.
— O que foi que você disse? - perguntou o garoto.
Olhei para baixo e meu cérebro lentamente resolveu a equação; dei-me conta da minha
aparência. Meu vestido estava rasgado e sujo - não que fosse assim tão lindo antes - e meu
cabelo, desarrumado. Estava coberta de sangue e tinha manchas pretas de uma espécie de
lama nos joelhos, pernas, rosto e braços. Engasguei e quase vomitei.
Inclinei-me para a frente, pressionei um dedo sobre uma de minhas narinas e espirrei um
pedaço de muco sangrento do outro lado. Pude respirar novamente.
O rapaz me olhou mais de perto.
— Você é, tipo, gótica ou algo assim? - quis saber ele.
Ajeitei-me e inclinei a cabeça para o lado.
— Sabia que os góticos originais eram uma tribo germânica que se fixou em Roma? Eles não
usavam preto, apenas túnicas comuns de linho. Não entendo por que ninguém mais sabe isso.
Eles me encararam por um segundo e voltaram a se agarrar. As pessoas nunca aprendem.
Continuei mancando em direção ao ginásio.
Tentei primeiro ser discreta ao entrar, mas depois deixei que a porta batesse ao se fechar. Não
havia mais necessidade de ter cuidado. Caminhei pelo ginásio, deixando pegadas sangrentas
pelo chão encerado que logo eram tão borradas pela cauda do meu vestido. Eu era uma
princesa viajando por uma floresta encantada, escura e sombria, como nos contos de fadas
originais, sem edição. Antes de os estúdios cinematográficos descobrirem essas histórias, os
irmãos Grimm escreveram coisas bem perturbadoras.
Ninguém parou de rir ou dançar. Ninguém nem ao menos piscou ao me ver passar pela
multidão. Era como se estivéssemos nas ruas de Nova York. Eu tinha ido lá uma vez. Todos os
tipos de maluco podem andar por aquelas ruas que ninguém presta a menor atenção.
Meu olhar estava fixo na banda. O Low Shoulder tocava uma música instrumental
ridiculamente longa, cheia de distorções e batidas de bateria por todos os lados. Era
absolutamente ruim. Nikolai me viu primeiro. Estava usando gravata vermelha e blazer preto.
Camisa dourada. Era o próprio rei do submundo glam. Não havia grandes melhoras em
relação às roupas que usaram no Melody Lane. Ao me ver, Nikolai cutucou Dirk. O baixista
vestia uma camisa vermelha desabotoada no pescoço, onde tinha pendurado uma gravata
preta meio solta. Seu cabelo estava arrumado em um daqueles falsos moicanos.
Alcancei o palco e olhei para cima, na direção de Nikolai. Apontei dois dedos para meus
próprios olhos, depois para ele, como De Niro naquele filme. Ele se assustou e pegou o
microfone.
— Valeu, galera! Vocês são ótimos!
Ele se inclinou para Dirk e sussurrou:
— Temos de dar o fora daqui.
O pobrezinho do Dirk ficou confuso, olhando para seu companheiro de banda como se não
entendesse. Nikolai apontou em minha direção. Fiquei contente por ter bastado apenas
olharem para mim. Dirk removeu seu baixo e eles gesticularam para os dois outros integrantes
saírem do palco. As pessoas ao meu redor começaram a reclamar que a música tinha parado.
Enquanto a banda deixava o palco, Nikolai sustentou meu olhar. Eu me aproximei e ele
estremeceu.
— Por que vocês não tocam de novo aquela música de que todos gostam? - sorri ao perguntar.
Eles fugiram como criancinhas. Girei o corpo e encarei as pessoas no ginásio. Ninguém disse
uma palavra sequer. Eu simplesmente manquei até a saída e voltei para casa.
Pela primeira vez na vida não tive problemas com minhas chaves. Apenas quebrei a janela
com um soco e atravessei a mão pelo vidro quebrado, destrancando a porta por dentro. Na
cozinha escura, distraidamente, peguei um pano de prato com estampa de galinhas miúdas e
alegres e o pressionei contra o corte no braço. Então me arrastei escada acima até o meu
quarto e deitei na cama. Fiquei deitada de costas por alguns momentos, tentando processar o
que havia acontecido, mas não adiantou. Os neurônios tinham parado de funcionar. Eu havia
entrado, com certeza, em um estágio pós-traumático. Virei de lado e me encolhi, mas graças à
luz vinda do meu relógio, pude ver a foto que estava no porta-retrato em cima do meu
criado-mudo. Eu, Chip e Jennifer. Sorrindo. Felizes.
Quem disse que eu conseguiria dormir?
Fiquei olhando a foto até o nascer do sol. Quando minha mãe chegou em casa, tentou me tirar
do transe, mas eu estava catatônica e desejando aquela sensação de indiferença. Ela usou uma
toalha para remover a maior parte dos restos que estavam grudados em mim e fez um
curativo no meu braço. Beijou minha testa e me deixou sozinha. Ela sabia sobre Chip; tinha
saído no jornal da manhã.
Duda, recém-nomeado policial, o havia encontrado. Belo dia para se tornar policial, não?
Creio que eles não souberam identificar a meleca preta e fedida deixada por Jennifer, já que
não mencionaram nada no noticiário. Não queriam correr o risco de causar uma histeria
coletiva. Três corpos e nenhuma prisão; não se podia culpá-los.
Quando finalmente saí da cama, não falei muito. E ninguém mandou os policiais virem me
questionar, também. Acho que alguém tocou a campainha uma vez, mas minha mãe não os
deixou entrar. Ela é bem forte quando precisa ser. E, embora a cidade inteira tivesse me visto
coberta de sangue durante o baile, também tinha me visto no começo da festa de bobeira por
uns quinze minutos - então, eu possuía uma espécie de álibi. Todos acreditavam que eu havia
encontrado Chip e ficado meio esquizofrênica. O que de fato era parcialmente verdade.

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