Li muito sobre história da antigüidade, tribos germânicas, assassinatos rituais na África e a Bíblia. Li todas as histórias de fantasmas que existiam ali e depois todas as histórias de bruxa da Nova Inglaterra e do Meio Oeste. Virei uma Wikipédia ambulante do ocultismo. Levou um bom tempo, porém, para eu descobrir exatamente o que havia acontecido com a minha melhor amiga e por que ela agora estava comendo nossos colegas de classe.
Finalmente eu abraçara a idéia de que Jennifer era uma serial killer canibal adolescente maluca. Devia ter sido ela que matou Jonas. Ela devia estar se sentindo pés¬sima como se estivesse gripada quando eu também estava, e, depois que ela o comeu, nós duas ficamos muito melhor. Deve ter matado Colin enquanto eu estava tendo um surto com Chip no quarto. Isso explica a fome que me atacou. Não sei por quê, mas eu também tinha certeza de que ela comera Ahmet. Eu sabia que ela odiava aquele garoto.
O problema era que, no fundo, eu não achava que ela estava possuída ou que havia sido transformada em um demônio. Ela tinha aqueles poderes estranhos e precisava alimentá-los, mas continuava sendo Jennifer Check. Ainda era a minha amiga... não era?
Março virou abril. Todo dia de manhã, abrigada com meu capuz a caminho da escola, eu passava pelo campo de futebol americano, onde havia uma faixa gigante na qual se lia BAILE DA PRIMAVERA, e via Jennifer e as outras animadoras de torcida conversando, como se ninguém houvesse sido eviscerado.
Se eu encarasse Jennifer na aula por muito tempo, começava a ter visões. Da caveira
sorridente de Jennifer. De Jennifer como um cadáver apodrecido. De Jennifer como um
monstro com fileiras e mais fileiras de dentes. Ouvia o sangue bombeando em minhas orelhas e o zumbido de moscas ao meu redor.
Eu estava perturbada.
Andava negligenciando até Chip, que corajosamente se esforçava para agir com naturalidade. Ele relacionou meu surto com a morte de Colin, mas achou que era porque Colin fora meu amigo, não porque minha BFF canalha o havia matado.
Eu andava pensando sobre Jennifer, Colin e Chip. Sabia que, quanto mais eu amasse Chip, mais devia ficar longe dele. Era como todas as histórias de amor estúpidas que já foram escritas. Eu precisava afastá-lo para protegê- lo. Na hora, nem me toquei que não era porque eu tinha superpoderes malucos e perigosos.
Certa manhã, Chip veio correndo atrás de mim e me distraiu dos meus pensamentos:
— Ei!
Ele me deu uma cotovelada.
— Acabei de comprar nossos ingressos pro baile da primavera. Você fez reservas na Cheesecake Factory?
Olhei para baixo e não respondi.
— Seu vestido é de que cor? - continuou ele. - Que tal rosa-shoching? Você é definitivamente uma garota do inverno. Minha mãe diz que as garotas do inverno deveriam usar tons nobres de jóias, como rosa-choque. Ou quem sabe azul-esverdeado.
— Certo. Esqueci que sua mãe é uma mulher da Avon.
— Bom, agora eles chamam de representante de vendas - corrigiu ele.
Isso ia ser difícil, mas eu sabia que precisava fazê-lo. Para salvá-lo.
— Não posso ir ao baile com você. Não posso mais ver você de jeito nenhum.
— O quê? Por quê?
— Porque ela quer tudo o que eu quero.
— Do que você tá falando? - perguntou Chip.
Olhei melancolicamente para seu cabelo castanho bagunçado e seus braços fortes. Acho que ele merecia uma explicação. Ele não iria gostar, mas merecia que contasse.
— Aqui não; venha.
Agarrei o braço de Chip e comecei a arrastá-lo para o pátio da escola.
— O que está acontecendo? Você não tá terminando comigo, né?! - perguntou ele em pânico.
Achei um banco escondido em um canto embaixo de uma figueira enorme. Eu o empurrei para baixo, para que se sentasse no banco, e me sentei ao lado dele.
— Certo - fiz uma pausa, sem saber como começar. Escolhi a simplicidade: - Jennifer é do mal.
— Eu sei - disse Chip, com um sinal de cabeça. Ele já tinha ouvido aquilo antes.
— Não, quero dizer que ela é do mal mesmo. Não mal tipo garota popular da escola. Aqui, preciso mostrar uma coisa.
— Ela está comendo garotos! Eles a deixam toda bonita, brilhante, com um cabelo sensacional. Além disso, ela fica... invencível. Sei lá. Só que, quando está com fome, fica fraca, mal-humorada e feia. Quer dizer, feia para ela. É porque precisa se alimentar! Ela precisa da força vital desses meninos!
— Você realmente acha que Jennifer matou Jonas e Colin? - perguntou ele, devagar.
Fiz que sim, vigorosamente:
— E talvez Ahmet, da índia. Sei que ela não é mais ela mesma. Você não entende o que eu vi. Ela me mostrou!
— Needy, acho que você precisa de ajuda.
Caí em silêncio. Ele não havia acreditado em uma palavra sequer. Droga.
— Acho mesmo que você devia ir conversar com o Dr. Feely ou algo assim. Só pra, sabe,
clarear as idéias. Sei que você passou por coisas difíceis - disse ele, com suavidade.
— Você não acredita em mim. Acha que sou uma louca varrida!
Ele pegou o fichário das minhas mãos e o fechou.
— Não é que eu não acredite em você; só não acredito nisso. - Ele deu um tapinha no fichário com o dedo.
Entendi por que ele não queria pegar minha loucura infecciosa. O problema é que eu não estava louca. O resto das pessoas é que estava. Mas, quando você é a única pessoa sã, talvez seja a louca. É subjetivo, entende?
— Isso não está acontecendo - sussurrei. - É um pesadelo. - Eu me virei para olhar dentro de seus olhos. - Não é seguro a gente continuar se vendo agora.
Ele franziu a testa.
— Peraí, você tá mesmo terminando comigo? Não sou mais seu namorado?
— Eu sei que você vai ser o próximo. Posso sentir.
— E o baile?
— Quem se importa com esse baile idiota? - explodi.
— Eu! - exclamou ele. - Já pedi seu buquê de pulso. É uma orquídea e custou 12 dólares!
Vacilei um pouco.
— Olhe, vou ao baile. Preciso ficar de olho em Jennifer. Só não se aproxime de mim.
Ele me olhou como um filhotinho abandonado num canto da rua. Minha barriga deu um nó. Fiquei mal, mas eu me amaldiçoaria se a deixasse enfiar os dentes nele.
— Acho que eu não iria querer, mesmo - disse ele.
Chip me devolveu o fichário e depois foi embora. Eu o vi se afastar com um peso enorme no coração. Estava tão apaixonada por ele, e estraguei tudo.
E, finalmente, eu começava a aceitar o fato de que Jennifer Check era uma completa vadia.
sábado, 7 de maio de 2011
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