Não fui ao funeral de Chip. Não conseguiria ficar perto daqueles falsos que nunca o
conheceram e nem se importaram com ele. Tudo o que eles sabiam era que ele tocava bateria.
Não sabiam que ele possuía o maior coração de toda aquela cidade.
Não voltei à escola. Tinha outras tarefas e apenas algumas semanas de estudo para o exame
final. Enquanto minha mãe estava no trabalho ou tirando um cochilo no sofá sob o seu
quadro bordado com “Deus abençoe este cafofo”, eu me preparava para o confronto. Havia
perdido uma oportunidade na piscina, que me custara muito caro. Da próxima vez, estaria
preparada.
Na garagem, encontrei uma caixa de ferramentas que meu pai havia abandonado. Procurei a
melhor arma possível entre as disponíveis. Queria uma machadinha, mas me contentei com
um machado e um estilete. Pensei em comprar uma nova lâmina para ele na loja de
ferramentas, mas decidi que a enferrujada era melhor.
Fui ao centro esportivo todos os dias. Não possuíamos uma academia supermoderna em
Devil’s Kettle. Apenas uma área coberta com carpete cinza desgastado, luz fluorescente e um
monte de pesos doados que não tinham par. Comecei com um halter de dois quilos e meio na
mão esquerda e um de três na direita, depois troquei. Minha única companheira no
levantamento de peso era uma mulher idosa usando um conjunto de moletom roxo. Ela devia
ter pelo menos uns 70 anos. Não mexia muito com os pesos; levantar as próprias pernas já era
difícil o suficiente para ela.
À noite, depois que minha mãe saía para trabalhar, eu ia até a casa de Jennifer. Mas não como
antigamente, para passar o tempo. Desta vez eu ia para vigiar dos arbustos e espiar pelas
janelas. Eu a observava, esperando o momento em que ficasse fraca e boba. Esperava que ela
queimas¬se toda a energia vital que roubara de Chip. Eu precisava atacá-la antes que ela se
alimentasse de outra pessoa.
Após algumas semanas, decidi que estava pronta. Decidi que ela estava pronta. Calcei meus
novos coturnos e prendi o cabelo em tranças. Vesti moletom cinza com capuz e luvas sem
dedos. Embora fosse maio, fazia um pouco de frio, especialmente após o anoitecer. Escondi o
estilete na cintura da calça e peguei o machado. Olhei uma última vez o meu quarto. Eu sabia
que provavelmente não o veria novamente.
Fui até o quarto da minha mãe, no final do corredor. A pilha de bilhetes de loteria riscados e o
frasco de calmante ao lado de sua cama me deixaram triste. Eu estava a ponto de tornar as
coisas ainda piores para ela, mas tinha de ser assim. Era hora. Eu precisava sustar aquela
Jennifer Check.
Ao chegar em sua casa, sentei-me sobre a pilha de lenha embaixo da janela do quarto dela por
alguns minutos. O vento balançava os galhos das árvores. Eu podia ver o luar difuso através
das nuvens. O céu estava inquieto. Não vou mentir; eu estava nervosa. Mesmo fraca, Jennifer
era uma espécie de animal demoníaco com poderes estranhos. Quem sabe o que mais ela
poderia fazer? Eu só contava com o elemento-surpresa, e este dura apenas um instante.
Espiei pela janela para confirmar se ela estava lá. Podia vê-la estirada na sua cama de dossel
com teto rosa. Ela vestia regata e shorts cortados de uma calça. A pele estava acinzentada e o
cabelo, seco. Vendo seu quarto sob a luz, percebi como era bobo. Era um quarto para uma
princesa de 5 anos. Papel de parede rosa com florzinhas, móveis brancos, máscaras de
carnaval brilhantes nas paredes. Sua mãe havia decorado o quarto assim para seu aniversário
quando ela era pequena e ele nunca foi mudado. Sempre tive tanta inveja do quarto de contos
de fada de Jen. Sempre a vi como princesa e eu, o ogro.
Eu a vi levantar e apagar a luz. Estava escuro. Eu podia ouvir o bater do meu coração e o vento
passando pelos arbustos. Subi na pilha de madeira e levantei a janela. Agachei, respirando tão
alto que podia jurar que ela me escutaria. Era o momento.
Preparar, apontar, já.
Lancei-me pela janela, gritando com todas as forças. Jennifer só teve tempo de se erguer sobre
um cotovelo e soltar uma exclamação de surpresa antes que eu entrasse no quarto, levando o
machado em direção à sua cabeça. Errei o alvo e fiz um buraco na parede. O machado ficou
preso no gesso. Hora do Plano B. Joguei meu corpo sobre o dela, sentando em suas coxas para
mantê-la no lugar, e comecei a enforcá-la com as mãos. A adrenalina corria no meu sangue, e
eu não conseguia evitar berrar.
— Você matou Chip! Sua monstra! Zumbiranha! - gritei.
Suas unhas eram afiadas como garras e se cravaram em meus braços enquanto ela tentava me
tirar de cima dela.
Mantendo uma das mãos em sua garganta, usei a outra para puxar o estilete da cintura da
calça e deslizar a lâmina para fora. As pernas dela pedalavam, e seus joelhos me acertavam as
costas.
— Você compra todas as suas armas mortíferas no Home Depot? - grasnou Jennifer. - Como
você é macho.
Ela engasgou quando apertei sua garganta com mais força. Tinha um comentário espertinho
para tudo. Aquilo sempre me irritava. Levantei o estilete, preparando-me para cortá-la, mas ao
abaixar o braço com a lâmina, em desespero ela se levantou e me mordeu no pescoço. Apoiei
todo o meu peso em sua garganta e a forcei novamente para baixo. Endireitei-me e a cortei
com o estilete, talhando um grande X sobre seu tronco. Sangue começou a brotar dos cortes.
— JENNIFER RISCADA! - gritei para ela.
Ela gemeu de dor e olhou em choque para seu corpo, depois para mim. Senti-me vitoriosa. Ela
não era invulnerável.
De repente me senti fora de eixo, como se estivesse num brinquedo de parque de diversões e o
chão tivesse sumido. Balancei a cabeça e então percebi que estávamos flutuando! Aquela
garota-demônio idiota estava levitando novamente e me levando com ela. Instintivamente
apertei meus joelhos em seu quadril e prendi uma das mãos em seu cabelo, enquanto tentava
apunhalá-la de novo com o estilete.
Ela mais uma vez tentou escapar, e quase conseguiu, mas segurei firme. Minha cabeça bateu
no teto e eu o empurrei para tentar nos abaixar. Continuamos a brigar no ar, lutando por
controle, quando o vento afastou as nuvens e o luar reluziu pela janela. Algo brilhou em sua
garganta e eu vi a corrente com o coração de ouro onde estava escrito BFF. Não o havia
sentido, mas eu a pressionara contra sua garganta com tanta força que surgiram marcas
vermelhas no formato da corrente ao redor de seu pescoço. Vê-las me deixou furiosa. Fingida!
Enraivecida, arranquei a corrente e a joguei do outro lado do quarto.
Ela bateu no espelho e por um momento nossos olhares se encontraram. Por um segundo, que
pareceu uma eternidade, nós nos lembramos de que já havíamos sido amigas. Já tínhamos
sido duas garotinhas, uma loira, outra morena, que juraram ficar juntas para sempre. Acho
que a eternidade não é mais o que costumava ser, não? O rosto de Chip surgiu em minha
mente e ofeguei. Por um momento, relaxei o aperto.
Subitamente caí e quebrei a cama na queda. Ela mergulhou do teto para cima de mim,
tentando me esmagar, mas eu estava preparada para isso. Eu a virei de costas e pulei sobre ela
novamente. Dessa vez, eu não deixaria a oportunidade passar.
Nada de últimas palavras, bordões ou adeus. Eu estava possuída por um propósito e
acreditava completamente que era justo. Simplesmente ergui o braço e a apunhalei de novo -
desta vez, no coração. Sangue jorrou por todos os lados, atingindo as colunas brancas da cama
e o lençol de cachorrinhos. Foi uma bagunça. Sentei-me ali, olhando para o corpo dela que
estremecia. Não tinha mais certeza do que fazer naquele momento.
De repente, uma luz forte me cegou.
— Jennifer? Querida? Meu Deus!
Era a Sra. Check. Ela havia acendido a luz e me encontrado sobre o corpo de sua filha,
segurando um estilete sangrento. Acho que não posso culpá-la por ficar histérica. Ela não
sabia que a filha tinha se tornado cria de demônio.
— Needy?
Ela me agarrou, puxando-me da cama e jogando-me no chão para que pudesse voltar e
abraçar Jennifer. A respiração de Jennifer estava fraca, mas ela ainda respirava.
Deixei o estile cair sobre uma cópia do Flag Team Quarterly que estava no chão, e me
aproximei da encenação de Pietà que acontecia ali ao lado.
— Sra. Check? - perguntei com educação. - Ela morreu? Consegui acertar?
Jennifer inspirou e vomitou sangue em cima de sua mãe. Depois morreu, finalmente. Sua
cabeça caiu para trás e um filete de líquido preto escorreu da sua boca.
Sua mãe uivou, mas eu sorri. Conseguira. Sentia-me livre. Sentia-me triunfante. Sentia-me
orgulhosa. Tinha salvado o mundo.
A parte mais estranha, no entanto, era que ela parecia não ter lutado muito. Digo, ela se
debateu e tal, mas, quando eu estava a ponto de desferir o golpe mortal, ela me olhou e sorriu
ironicamente. Como se estivesse me provocando. Mesmo em seus últimos momentos de vida,
a verdade é que eu faria o que quer que ela me pedisse. E tive a impressão de que ela queria
que eu a matasse. Pela primeira vez, nós duas realmente queríamos a mesma coisa.
Devo confessar, morrer fez maravilhas para a aparência dela. Ela voltar a ser a gostosona de
sempre.
Agora que você já sabe...
Claro, dessa vez a polícia apareceu e me prendeu, depois que a Sra. Check ligou para a
emergência. Não fugi; apenas esperei por eles perto de Jennifer, caso ela voltasse dos mortos.
Já assisti a muitos desses filmes em que a heroína se ferra por causa de um corpo reanimado.
Mas ela não se mexeu.
Enquanto me algemavam e colocavam na viatura, eu me sentia elétrica pelo sucesso,
tagarelando que havia salvado todo mundo e falando como era poderosa. Minha culpa não
estava nem em questão. Convenientemente, no entanto, minha sanidade era duvidosa.
Na realidade, não sei mas quem é Needy Lesnicki. Sou uma pessoa completamente diferente
agora. Alguém que xinga, chuta enfermeiros no rosto e vê coisas que não estão lá. Sou uma
pessoa muito estragada.
Algumas vezes, porém, mudar pode ser algo bom. Pode ensinar algo novo sobre você mesmo.
Por exemplo, nenhum dos livros de ocultismo ou sites que eu li me informaram que, se você é
mordido por um demônio e sobrevive para contar a história, pode talvez absorver um pouco
das habilidades deste capeta. Você pode dar sorte, pelo menos uma vez na sua existência
miserável.
Empurram uma carne estranha pela abertura na porta, que é meu jantar. Torço o nariz ao
sentir o cheiro, distraidamente coçando o pescoço. Ele coça bastante onde Jennifer me
mordeu. Parece infectado, também, e os antibióticos que me deram não têm ajudado.
Levanto-me e sento-me, cruzando as pernas. Fecho os olhos e me concentro. Tenho praticado
isso bastante e já vejo progresso. Sinto o chão de cimento se afastar; estou subindo pelo ar.
Alcanço a estreitíssima janela no topo da parede e a quebro. Sim, com certeza aprendi uns
truques novos.
Lá fora, a lua brilha. Não aperfeiçoei a aterrissagem ainda, então caio mais do que pouso no
chão. Rolo na terra e me levanto. Hora de começar o show. Ando calmamente até a grade de
segurança, com todo aquele arame farpado por cima. Abro um buraco exatamente do meu
tamanho na grade e a atravesso. Começo a caminhar pela estrada em minhas confortáveis
pantufas de coelhinho, levantando despreocupadamente o polegar para pedir carona. Não há
quase tráfego hoje à noite.
Após alguns quilômetros, ouço um barulho de água correndo ao lado da estrada. Aqui é onde
o riacho deságua depois da cachoeira. Todo o lixo que os cientistas jogaram pelo buraco
deveria tecnicamente aparecer aqui, mas isso nunca acontece.
Vejo algo brilhar sob a luz da lua. Deixo a estrada, corro pela beira do riacho e agacho para
pegá-lo na água. É uma faca de caça. Acho que a “chaleira” não cozinha tudo, afinal. Prendo-a
na cintura da calça e continuo andando.
Por fim uma caminhonete se aproxima e torno a levantar meu polegar. O motorista reduz a
velocidade e para, abaixando a janela. É um pervertido que fica me secando de cima a baixo.
Acho que se excitou com as minhas pantufas de coelho.
— Querendo ir pra onde, mocinha?
— Leste. Na direção de Madison - respondo.
— Leste, é? Pelo jeito vou pra lá também. Mas tem de me pagar em grana, cana ou xana.
Sacou?
— Não tenho dinheiro nem bebida, então vai ter de ser xana - devolvo.
— Tá bom, então - completa o pervertido. - Sobe aí na carruagem.
Dou a volta e sento-me no lado do passageiro. Enquanto ele dirige, eu aumento o volume do
rádio. Aquela música estava tocando novamente. Eu acompanho a letra desta vez.
Através das árvores vou achar você.
Curar os destroços que restaram em você.
E as estrelas irão lembrar a você,
Que nós vamos nos reecontrar...
— Por que você tá indo pro leste, mesmo? - pergunta ele.
— Tô seguindo essa banda de rock - explico.
— Esse deve ser um grupo bom como o diabo - completa o motorista.
A música termina e o DJ concorda:
— Que música! Pensei em tocar esta em homenagem ao Low Shoulder, que toca hoje à noite
em Madison. Será uma noite inesquecível, com certeza.
— Sim - respondo - Hoje será o último show deles.
Sorrio e recosto no assento. Estou pronta.
FIM
* * *

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