O tema do baile era a canção “Através das árvores”. Todo mundo continuava adorando aquela música maldita. O comitê da festa levou a coisa bem literalmente e passou as primeiras duas semanas de abril fazendo árvores de papel machê, a fim de transformar o ginásio em uma floresta. Como se a gente precisasse de mais mato ao redor.
O dia chegou rápido. Fazia um mês desde a morte de Colin, que morreu um mês depois de Jonas, portanto eu tinha certeza de que Jennifer precisava se alimentar. Achei que ela apostaria alto e tentaria agarrar alguém no baile. E achei que seria Chip exatamente porque eu não queria que ela o pegasse. Primeiro um atleta, depois um gótico. Eu sabia que agora ela comeria um nerd.
Eu me vesti no meu quarto. Na semana anterior, minha mãe havia trazido um vestido
maravilhoso para casa, uma versão remix dos anos 1980 que ela conseguiu com uma mulher do trabalho. Era de todas as tonalidades de rosa-choque e tinha montes de detalhes: mangas bufantes, uma flor enorme no quadril, renda nas costas, saia babada curta na frente com tule e uma cauda enorme. Chip iria adorar. Pena que ele não iria me levar para a festa. Spector corria pelos meus pés, mordiscando o tule. Mamãe estava atrás de mim com um baby liss superquente.
— Você está linda - disse ela.
Eu me olhei no espelho.
— Pareço uma porca idiota.
— Não - censurou ela. - Você tem a cinturinha de uma modelo. Sempre achei que você se parecia com a Cindy Crawford.
— Quem?
— Uma das maiores beldades de nossa época! Ela tem até uma pinta como você, só que a dela é no rosto.
Senti uma quentura no pescoço.
— Ai! Esse treco tá muito perto.
— Bom, se Chip der um chupão no seu pescoço, você pode dizer para todo mundo que fui eu que te queimei.
— Mãe, eu já disse. Chip e eu terminamos.
— Mais motivo ainda para ficar glamourosa. Fique quieta.
Ela enrolou outra mecha de meu cabelo loiro cinzento com aquele modelador quente.
— O que você tá fazendo com meu cabelo?
— Um topete maneiro - respondeu ela.
— Mãe!
— Bom, se você tem esse material gigantesco aí na frente, precisa ter um cabelão também!
Quando ela terminou, eu parecia um poodle, ou talvez a noiva do Frankenstein. Ela tirou meus óculos, o que foi quase um alivio. Eu não podia mais suportar me olhar, nem à corrente dourada de BFF que eu continuava usando. De algum jeito, parecia apropriado usá-la até o fim.
Minha mãe sacou a câmera digital e me fotografou na sala, com nossa poltrona xadrez como cenário. Depois ela veio para o meu lado e estendeu o braço para a frente, para nos fotografar juntas. Quando olhamos as fotos na tela, minha mãe estava com os olhos fechados e eu parecia arrasada. Acho que porque eu estava mesmo. É uma pena que aquelas sejam as últimas fotos que ela terá de mim.
A decoração do ginásio era uma agressão para a vista. As árvores que fizeram pareciam hematomas roxos e verdes, e a impressão é que uma loja de enfeites de festa havia explodido, deixando balões e restos de fitas por todos os lados. Em uma faixa enorme, lia-se: ATRAVÉS DAS ÁRVORES — BAILE DE PRIMAVERA.
Havia um DJ tocando muito mal. Sempre que uma música acabava, acontecia um salto gigante. O cara não tinha a menor destreza.
Vi as Garotas Mortas andando em bando. Chloe estourava balões com um alfinete. Sempre que furava um, dizia algo como: “Este é meu coração” pop!, “minha alma” pop!, “tudo em que um dia acreditei”. Pop!
Alguns idiotas riram do meu vestido quando eu atravessei a multidão, procurando Jennifer. Nem liguei para aquilo. Estava ali em uma missão. Não vi nem Jennifer, nem Chip, por isso servi um pouco de suco em um copo de plástico e me encostei à parede para esperar. Seria capaz de aguardar a noite inteira, se fosse preciso. Eu me perguntava se Jennifer iria para a festa com alguém.
Os casais se esfregavam na pista enquanto os minutos passavam lentamente. Olhei o relógio de pulso. Os braços de Mickey Mouse me informaram que os dois estavam atrasados.
O Sr. Wroblewski andou até o DJ e agarrou o microfone. Estava vestido com seu smoking dos anos 1970 e uma camisa azul cheia de babados. Sua mão-garra cinti- lou quando o globo de luz lançou um raio sobre ela. O volume da música foi abaixado para que ele pudesse falar.
— Gostaria de ter a atenção de todos, por favor - começou ele. A multidão se aquietou, mas pareceu chateada com a intromissão. - Sejam bem-vindos ao baile da primavera. Espero que todos tenham tido a chance de consumir os biscoitos e o suco que foram generosamente doados pelo Clube dos Pais.
Houve alguns aplausos, na maioria dos pais monitores.
— Mas a verdadeira surpresa ainda está por vir. Temos convidados muito especiais esta noite. Estes cavalheiros gentis tiveram a bondade de dar uma pausa em sua turnê nacional de ingressos esgotados para tocar em nossa festa de graça!
Um burburinho ondulou pela multidão, e ouvi Chastity gritar de alegria. Já eu engasguei com o suco de fruta generosamente doado.
O Sr. W. fez uma pausa dramática de efeito. Depois ergueu sua garra de metal e gritou
alegremente:
— Garotos e garotas, por favor, deem as boas vindas ao Low Shoulder!
As meninas correram até o palco dando gritinhos, enquanto as luzes se acendiam para revelar aqueles idiotas completos que começavam a tocar uma nova versão daquela mesma música maldita. O logo da banda estava pendurado em uma cortina atrás deles. Finalmente entendi que o carro inclinado era a placa de trânsito que sinalizava “low shoulder” - ou seja, acostamento baixo. Como uma coisa podia ser tão idiota?
Continuava não vendo nem Jennifer nem Chip em parte alguma. Por fim uma lampadinha se acendeu na minha cabeça e eu quase borrei as minhas calcinhas brancas de algodão.
— Chip! - gritei alto. Lutei para chegar até as portas do ginásio, mancando com os saltos altos estúpidos que minha mãe mandara tingir da mesma cor do meu vestido.
Saí como um furacão no ar frio. Havia um pouco de névoa, e os poucos postes de luz ao redor do estacionamento brilhavam de um jeito meio aterrorizante. Chutei os saltos de cetim rosa-choque para um lado e comecei a correr na direção do Parque McCullum.
Uma coisa que ninguém sabe é que sou rápida. Nunca quis entrar no time de atletismo porque fico feia de short, só isso. Além disso, Jennifer disse que corrida era coisa de lésbica. Mas eu sou. Rápida, quero dizer. Mesmo naquele vestido cor de placenta, destruí o asfalto. Eu precisava fazer isso. Estava correndo pela vida dele.
sábado, 7 de maio de 2011
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