sábado, 7 de maio de 2011

Capítulo 4 - Além da Imaginação

Esfreguei e limpei e vomitei a noite inteira. Aquele cheiro era ruim demais. A gente não tinha em casa nenhuma daquelas máscaras que todo mundo começara a comprar para o caso de um ataque terrorista. Minha mãe sempre achou que, até pegar a máscara do armário e colocá-la, você já teria respirado o que quer que fosse e morrido mesmo. Tentei usar um esfregão, mas ele não era páreo para a gosma. Desisti e passei para os panos de chão. Aquilo levou a noite inteira. O que eu precisava mesmo era de um aspirador industrial. Vi um desses na TV a cabo certa vez. Pelo menos aquela meleca não estava mais se mexendo, se é que já tinha se mexido alguma vez. Quem me dera se tudo aquilo tivesse sido só um produto de uma imaginação hiperativa... mas o saco de lixo cheio de retalhos de esfregão e panos de chão encardidos provavam o contrário.
No dia seguinte, estava no piloto automático ao me sentar na aula de biologia. Além de dolorida, minhas costelas estavam cobertas de hematomas; não sei se da saída pela janelinha ou se do abraço esmagador de Jennifer. Provavelmente dos dois. Mesmo com meus óculos tudo parecia embaçado.
A história do incêndio já tinha se espalhado. Só que nem mesmo o respeito pelos mortos era capaz de manter as garotas da minha sala em silêncio. E eu não tinha forças para virar e encerá-las.
— Ouvi dizer que Needy e Jennifer estavam lá e que tiveram de abrir caminho com uma
machadinha – sussurrou uma loira atrás de mim.
— Olhe, ela não ta nem se mexendo! – respondeu a outra.
— Isso se chama estresse pós-traumático – disse a loira, um pouco mais alto. – Meu pai
participou da Operação Liberdade Duradoura e...
— E aí, Vodol?
Era ela. Era Jennifer, de pé na minha frente. Na frente da minha mesa de laboratório, sorrindo faceira, com jeito de quem não tinha preocupação alguma nessa vida. Por um instante, só olhei para ela. Quer dizer, eu basicamente achava que ela havia fugido de encontro à morte.
Achei que nunca mais a veria de novo. Que ela estava morta.
No entanto, ali estava ela: cabelos brilhantes, capuz fofo listrado de amarelo e branco, minijeans com cinto de plástico branco. Para arrematar, um chaveiro fofíssimo de patinho de borracha pendurado no zíper.
— Você... tá tudo bem?
— Claro, por que não estaria? – perguntou ela.
— Mas ontem à noite, lá em casa, você...
Ela fez um gesto impaciente para mim.
— Needy, você adora alucinar. Fiquei meio detonada quando você me arrastou por aquela janela, mas to legal.
Arrastei? Eu salvei a vida dela!
— A gente tinha de sair pela janela! O bar tava tomado pelo fogo!
Ela se sentou ao meu lado e revirou os olhos.
— Ai, como você tem tendência a aumentar as coisas. Lembra no acampamento, quando você achou que havia um terremoto e eram só dois caras com um minisystem?
As duas vadias atrás de mim deram um risinho abafado, e Jennifer recompensou sua atenção com um sorriso.
— Um monte de gente morreu, Jennifer – sibilei, acordada o bastante para lançar um olhar mortífero para as vadias. – Morreram queimadas, ou sufocadas, ou pisoteadas. Mais da
metade de quem estava lá não conseguiu sair. Tá em todas as manchetes. Do país! As. Pessoas. Morreram.
— Tinha alguém que a gente conhecia?
— A gente conhecia todo mundo!
Ela deu de ombros.
— que droga pra eles, acho.
Ela começou a revirar sua bolsa pregueada que era cópia de alguma marca e tirou de lá um
gloss. Aplicou-o e apertou os lábios para espalhá-lo.
— Qual o seu problema?
— Qual o seu problema? – rebateu ela. – Quer dizer, além das óbvias imperfeições superficiais.
Esfreguei os olhos e depois reparei em minhas mãos. Havia sangue e gosma preta embaixo das minhas unhas. Eu sabia que tinha sido real. Passei a noite inteira esfregando a carnificina do linóleo. Não conseguia entender por que ela estava fingindo que nada havia acontecido.
— Merda. Sem perceber, falei em voz alta.
— Não fale sozinha – repreendeu Jennifer. – É outra daquelas manias pavorosas de Needy, e faz a gente parecer duas babacas.
Eu me virei para ela e ergui as unhas, querendo fazê-la enxergar o sangue seco. Antes de ter a chance de implorar que ela agisse como um ser humano, ela torceu o nariz.
— Ecaaa! Você precisa de uma manicure urgente! Se eu fosse você, arrumava alguém pra dar um jeito nessa situação.
Bem nessa hora, o Sr. Wroblewski entrou na sala, farfalhando até a frente. Ele tinha uma mão robótica que era simplesmente horripilante. Ninguém sabia direito o que havia acontecido com sua mão verdadeira.
— Tenho certeza de que vocês que estão aqui hoje já ouviram as noticias sobre o incêndio
devastador – começou ele. – Hoje é um dia negro, muito negro para Devil’s Kettle, e
acreditem, eu já passei por coisas pesadas. – Ele ergueu um pouco mão de garra no ar. Todos nós a olhamos.
Ouviu-se um soluço nos fundos da sala. Ao me virar, vi Jonas Kozelle chorando como um bebê, ensopando de lágrimas seu caderno que na capa trazia uma modelo de biquíni. Jonas, o maior brutamontes do futebol americano de Kettle hogh, não era nada privilegiado no quesito cérebro. Eu o conhecia, mas só um pouco. Ele era vizinho de Chip.
Jennifer bufou, tentando conter a risada. Olhei para ela.
— A direção da escola decidiu que hoje será um dia improvisado de apoio e consideração.
Perdemos oito alunos inestimáveis, incluindo Ahmet, da Índia; além de vários pais e de nossa amada professora de espanhol, Señorita O’Halloran.
Ele engasgou um pouco no final. Pisquei para afastar algumas lágrimas, por Ahmet.
— Fala sério! – disse Jennifer. – O’Halloran foi pro saco?
— Shhhh! – interrompi-a.
O Sr. Wroblewski se recobrou o suficiente para prosseguir:
— Essa tragédia é obviamente inevitável. Mais do que nunca, precisamos nos unir e apoiar uns ao outros. Deixem de lado suas preocupações adolescentes sobre quem é um cara descolado ou quem é uma galinha. Precisamos nos unir e funcionar com uma grande unidade.
Ao meu lado, Jennifer começou a dar risadinhas e tentou disfarçar com um acesso de tosse.
Realmente essa era uma escolha infeliz de termos, Sr. W. Alguns minutos se passaram e em silêncio, enquanto ele tirava um lenço de papel do bolso com a garra e o passava sobre os olhos. De repente ele gritou:
— Não podemos deixar esse maldito incêndio nos derrotar!
Esperei pelo que sabia que estava a caminho.
— Já derrotou! – gritou Jennifer.
— Que Deus os abençoe, filhos.
O professor sorriu e sentou-se, soluçando.
Jonas agora chorava descontroladamante. Um nerd minúsculo se inclinou e o abraçou. Provavelmente aquela era a única vez que eu veria aquilo acontecer.
— Ah, olhe só, eles se uniram na dor – comentou aquela ao meu lado com o coração de pedra.
O sinal tocou e eu saí correndo dali. Precisava conversar com alguém normal, que fosse capaz de me dizer que eu não tinha enlouquecido. Corri pelo corredor e virei a esquina até o armário de Chip. Graças a Deus, ele estava ali, enfiando umas baquetas na mochila.
Ele olhou para cima quando eu parei, quase a tempo de esbarrar nele.
— Hoje não vai ter ensaio da banda – avisou ele.
— Não vai ter nada.
— É surreal, né? – Ele balançou a cabeça. – Quer dizer, quando uma única pessoa morre em Devil’s Kettle, é como se o tempo parasse.
Eu me apoiei nele.
— Eu me sinto culpada pelo simples fato de estar respirando – disse, com um suspiro.
— Falou tudo.
Chip fechou o armário e pôs a mochila por cima do ombro. Era bom ter alguém que me entendia. Mas eu precisava que ele entendesse tudo.
Caminhei com ele pelo corredor.
— Chip, preciso contar uma coisa meio estranha. É Jennifer.
— O quê?
Eu interrompi e o puxei para a parede, para poder falar mais baixo.
— Sabe a noite passada, quando a gente tava falando ao telefone e alguém chegar na minha casa? Era Jennifer. Mas ela não disse nada. Só ficou ali parada, sorrindo, um sorriso meio maligno. Dava a impressão de que ela tinha sido espancada ou algo assim. Estava toda coberta de sangue! Aí ela vomitou a gosma mais nojenta do mundo, algo como uma mistura de bicho morto de estrada e agulhas de costura. – Estremeci um pouco. Só de me lembrar daquele cheiro, a bile subiu pela minha garganta.
— Eca. Como aquelas almôndegas de porco-espinho que minha mãe faz? Com arroz meio pra fora?
— É! Quase tão ruim quanto isso!
Sério, você nunca vai saber o que é ter vontade de vomitar até ser obrigado a comer as
almôndegas da mãe dele.
— Provavelmente foi porque ela inalou muita fumaça – arriscou Chip, tentando ser
compreensivo.
— Não – balancei a cabeça. – Era algo do mal.
Eu sabia que era. O fedor daquela coisa preta era pior do que gambá, ou cocô, ou qualquer coisa natural. Era realmente algo mais podre.
— Acho melhor você ir conversar com p psicólogo da escola, Needy. Não to dizendo isso pra ser um mala, mas tô meio preocupado.
Ele deu um tapinha no meu braço.
— Chip, eu não invento histórias e não tô maluca.
— Não disse que você ta maluca, mas tá todo mundo meio abalado com o que aconteceu. Não tem problema nenhum se sentir...
— Sem chão?
Olhei para cima e vi Colin Gray andando na minha direção. Colin era um cara bacana, mas era adepto do lance gótico, com lápis de olho, esmalte preto e um monte de braceletes cheios de tachas. Ele tinha até um piercing no lábio inferior, mas sempre desconfiei que era falso.
Quer dizer, aqui é Devil’s Kettle, a mãe dele iria matá-lo.
— Oi, Needy – cumprimentou.
— Ah, oi, Colin.
Senti Chip se aproximar de mim possessivamente.
Colin se inclinou e sussurrou de forma teatral:
— Ouvi dizer que você tava lá ontem à noite. Nas trincheiras cruéis.
Certo. O gótico queria saber das mortes e tudo o mais. Bom, eu não ia entrar nesse jogo.
— Ah, é – respondi.
Ele esperou, mas eu simplesmente fiquei encarando-o.
— Bom, que bom que você não morreu. Sério.
Ah, isso foi fofo! Ele estava mesmo sendo sincero.
— Valeu!
Enquanto ele se afastava, Chip olhou para ele desconfiado.
— E desde quando você é amiga de Colin Gray? Achei que Colin Gray só falasse com as Garotas Mortas.
Não consegui evitar olhar ara as garotas no corredor, todas vestidas de preto, com tachas, couro e o pacote completo. Os góticos formavam seu próprio clube ou algo do gênero. Só que um dia as garotas piraram com alguma coisa e todas viraram feministas, declarando que agora eram as Garotas Mortas. Fizeram leituras de poesia na lanchonete da escola e uma delas até tocou acordeão para acompanhar a leitura. Acho que se chamava Trish.
— É, sou – disse eu. – a gente ta na mesma aula de redação de não ficção. Ele escreve muito bem. Você sabe, ele é todo dark, sensível e tal.
— Ah. Entendi. Eu também sou, mesmo que não fique aí fazendo tipo desse jeito óbvio.
Sorri para Chip e ajeitei seu cabelo, colocando-o atrás das orelhas. Era tão bonitinho que ele sentisse ciúmes.
— Me leva em casa?
— Nem precisa pedir, baby.
Ele pôs o braço ao meu redor e andamos até a saída.
Estava absurdamente quente para o mês de fevereiro em Devil’s Kettle, mas era o aquecimento global, certo? A neve já tinha derretido, deixando à mostra as folhas que ninguém limpara do chão no outono passado. Enquanto andávamos pela cidade, fazendo estalar as folhas molhadas, Chip procurava me fazer sentir melhor.
— O negócio é que eu não tô confundindo nada! Nem de leve. Eu me lembro de tudo em detalhes de altíssima precisão. Da banda, do incêndio, tudo. Principalmente do que rolou depois.
— Esse “depois” é a parte que eu não tô entendendo.
— Por favor, preciso que alguém acredite em mim. Jennifer tava... destruída. Morrendo na minha porta de entrada, Chip. Eu vi. Usei meu treinamento de RCP pra checar o pulso dela. E eu senti que ela estava morrendo – por dentro, quero dizer. Eu a conheço há tanto tempo que é como se às vezes eu fosse capaz de sentir o que ela sente. Como E.T. e Elliott.
— Acredito em você – disse ele e apertou minha mão. Era o que eu precisava ouvir.
— Valeu, Chippe.
— Nossa – falou ele, olhando para baixo –, sua mão ta quente pra caramba!
Olhei para a minha mão. Eu realmente me sentia cansada, talvez meio acalorada. Ficar de pé a noite toda não tinha me feito bem.
— Hã... acho que talvez eu esteja ficando doente.
— Você vai ficar bem – disse Chip. Ele me deu um abraço grande e eu o apertei de volta com toda a força. Era bom ouvir alguém dizer isso.
Mesmo que fosse uma mentira total e completa.

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