quinta-feira, 26 de maio de 2011

Capítulo 12 - Quando Tudo Está Perdido

Primeiro corri até a casa de Chip. Eu tinha um último fiozinho esfiapado de esperança de que

ele só tivesse se atrasado. Caí de joelhos na frente da varanda, ofegando ao apoiar todo o peso

do corpo na campainha.

A irmãzinha de Chip, Camille, veio atender. Era uma menina fofa, de franjão e rosto redondo.

Estava chupando um pirulito, que deixava manchas vermelhas grudentas no seu rosto.

— Oi, Camille! Chipper tá em casa?

Fiz o melhor que pude para não assustar a criança, mas acho que o meu visual em uma bola

rosa-choque bufante, caída na varanda, acabou entregando o jogo. Ela me olhou como se eu

fosse uma estranha oferecendo gilete no Halloween. Voltou a lamber o pirulito. Estávamos

diante de um impasse.

Graças aos céus, a mãe dele veio até a porta e mandou Camille para dentro.

— Needy! Está tudo bem? - perguntou ela, tentando entender meu estado desgrenhado.

— Cadê o Chip? - implorei. Por favor, esteja em casa, por favor, esteja em casa, por favor,

esteja em casa.

— Ele saiu para o baile há pelo menos uns vinte minutos - respondeu ela, confusa. - Com

certeza já deveria estar lá a essa altura.

Merda.

— Ele foi andando? Sra. Dove, a senhora está me dizendo que nesses tempos perigosos e

estranhos deixou seu único filho sair andando à noite sozinho?

Tentava me equilibrar em meus pés.

— Bem, são só cinco quarteirões! - protestou ela, olhando-me mais de perto. - Meu Deus, seu

cabelo está...

— Para que lado ele foi? - interrompi. Não havia tempo para explicar sobre o topete.

— Ele costuma cortar caminho pelo parque. Por que você não tenta...

Mas eu já tinha saído correndo na direção do Parque McCullum.

Ouvi a Sra. Dover gritar atrás de mim, atordoada:

— Anita?

Cheguei ao parque suada e com os pés sangrando. Ou talvez estivessem só manchados pela

tinta do sapato. Difícil dizer. Ofeguei por um segundo, correndo os olhos pelo parque atrás de

Chip, mas não vi nada.

— CHIP! - gritei. Esperei e ouvi um grito à direita. Ergui a saia e tornei a sair correndo na

direção da Piscina Murphy.

A Murphy era uma piscina comunitária que haviam fechado há um tempo porque na maior

parte do ano era frio demais para nadar em Minnesota, e ninguém nunca a usava. Agora as

pessoas só iam lá andar de skate, pichar ou se drogar. Tinha uma cerca ao redor, mas todo

mundo simplesmente a pulava. Era o lugar perfeito para assassinar alguém.

Eu estava indo rápido demais para parar e bati de cara na cerca, fazendo as correntes

chacoalharem. Enfiei freneticamente os pés descalços nos buracos em forma de losango e subi.

Cortei a mão em um elo quebrado, mas continuei subindo. A cerca idiota era realmente alta.

Ouvi Chip gritar de novo.

— Estou indo! - engasguei.

Perto do topo me atirei para o outro lado e caí de forma bem doída sobre o concreto. Meu

braço sangrava e doía como se nada mais importasse, mas nem aquilo me parou. Achei um

caminho ao redor do lixo e da mobília de sala de estar mofada e virada de ponta-cabeça que

cobria o deque.

Lutei para chegar até a piscina, olhando a escuridão. Havia um brilho ao redor da água turva.

Em um dos lados da piscina estava pichado INÚTIL. Era um sinal, e não muito bom. Ouvi o

gemido de Chip antes de vê-lo e cobri a boca com uma das mãos para não vomitar.

A piscina estava semicheia de água imunda e espumosa, provavelmente neve derretida e chuva

ácida, e Jennifer segurava Chip contra as escadas. A camisa e o peito dele estavam abertos,

dava para ver suas costelas. Mesmo em meio a toda aquela carnificina, ainda consegui ver que,

Deus me ajude, ele usava uma gravata rosa-choque e trazia uma orquídea na lapela. Seu rosto

estava contorcido de dor quando ele ergueu os olhos e me viu. Ele mexeu a boca para falar

meu nome, mas nada saiu.

— Minha nossa! - disse eu.

Jennifer nem notou que eu estava lá. Ela estava ocupada demais roendo Chip. Subi no

trampolim e me benzi: achei que valia a pena tentar.

— São Judas, santo padroeiro das causas impossíveis, por favor me dê o poder de detonar essa

vadia.

Aí pulei do trampolim bem na hora em que Jennifer olhou para cima. Na mosca! Voei pelos

ares e aterrissei nos ombros dela com um borrifo. Arranquei-a de cima de Chip com todo o

meu peso, enrosquei as pernas em volta do pescoço de Jennifer e a puxei para baixo da água -

que estava congelante.

Ela me atirou para longe e nós duas subimos à superfície ao mesmo tempo, engasgando com o

frio. Agarrei seu cabelo e comecei a estapeá-la. Olhei para o deque da piscina e vi uma lata

rosa de spray de pimenta. Perfeito! Agarrei a lata e borrifei o spray nos olhos dela, que

guinchou e vomitou, fazendo aquela gosma preta cheia de espinhos voar em cima de mim e de

Chip.

— Chega dessa coisa de calouro! - gritou ela, depois subiu como um foguete pelos ares e

pairou a uns cinco metros da piscina, como uma espécie de bruxa. Eu finalmente consegui ver

seu vestido. Era branco com tirinhas nos ombros e faixas de renda preta embaixo dos peitos e

na bunda. Provavelmente tinha sido bonito antes de ser coberto pelas tripas do meu

namorado. Ela usava luvas brancas até o cotovelo, que agora estavam vermelhas.

À parte a produção de festa, Jennifer não estava muito bem. Parecia um cadáver. Obviamente

precisava se alimentar. Os olhos estavam de uma cor estranha, mais pálidos do que o normal,

e na sua boca haviam nascido inúmeros dentes nojentos pontiagudos.

— Ela voa? - grasnou Chip.

— Ela só tá flutuando, Chip. Não é assim tão impressionante.

Eu o ajudei a deslizar, de forma que ele ficou sentado no degrau que estava embaixo d'água.

Quando Jennifer falava, não era mais a voz dela. Tinha um som metálico. Demoníaco, acho.

— Meu Deus, você precisa estragar tudo o que eu faço? - reclamou ela. - Você é tão invejosa.

Ergui a cabeça e olhei para ela:

— Você é bastante canalha.

— Oooh, belo insulto, Poliana. Mais algum comentário duro pra me atingir?

Algo dentro de mim finalmente clicou. Eu sei, eu sei, demorou, mas expliquei que o amor que

se sela na caixa de areia nunca morre. Pelo menos não até um demônio co¬medor de

namorado e cuspidor de gosma preta o matar.

— Sabe do que mais? Você nunca foi uma boa amiga, nunca. Mesmo quando a gente era

pequena você roubava os meus brinquedos, derramava limonada na minha cama e me fazia

ser Ana, a Feia quando a gente brincava de boneca.

— E agora estou comendo seu namorado! - gargalhou ela. - Viu? Pelo menos sou coerente.

— Por que você precisava dele, hein? - Não consegui me conter. Olhei para Chip e comecei a

chorar. - Por que você precisa do único cara que já gostou de mim? Você pode ter qualquer

um, Jennifer! O cara mais lindo da escola, o carteiro, um professor. Você provavelmente

poderia ter até um astro famoso como Chad Michael Murray! Então por que Chip? Por que

logo ele? É só pra me provocar?

Nadei até a borda da piscina:

— Ou é porque você é insegura?

Jennifer flutuou para baixo e aterrissou no deque, enquanto eu me impulsionava para fora da

água para encará-la.

— Eu não sou insegura! - sibilou ela. - Que piada! Como eu poderia ser insegura? Eu fui a

Rainha da Formatura!

— Ah, é mesmo - desdenhei. - Há dois anos. Quando você ainda era socialmente relevante.

Cruzei os braços, fazendo a água espumosa pingar do meu corpo.

— EU AINDA SOU SOCIALMENTE RELEVANTE!

Ela gritou tão alto que fechei os olhos com força para protegê-los da bile dela. Mas eu sabia

que a tinha atingido. Então parti para a jugular.

— Naquela época você era magra, também!

Jennifer pareceu horrorizada. Encostou-se contra a cerca, fazendo as correntes chiarem em

protesto. Seus olhos estavam em chamas.

— Vou comer sua alma e depois cagá-la, Lesnicki - rosnou. E quando eu digo rosnou, é

porque ela rosnou mesmo. Como um animal. Ouvi o som de arranhões atrás de mim e

rapidamente olhei: era Chip. Ele tinha dado um jeito de se arrastar dos degraus da piscina

para sair da água e estava dolorosa e vagarosamente puxando um limpador de piscina para

perto de si. Um de seus braços parecia roído.

Eu me virei para minha ex-BFF, para que ela não notasse.

— Achei que você só matasse garotos - observei.

— Eu atiro pros dois lados - respondeu ela, e sorriu aquele sorriso horrendo de dentes

pontiagudos para mim. Então deu um bote, rugindo com as mandíbulas monstruosas abertas

para me pegar. Seus olhos brilhavam, brancos. Achei que seria meu fim.

Mas Chip se atirou na minha frente, segurando o cabo comprido do limpador de piscina

como uma estaca. Jen fez o resto do trabalho sozinha. Ao voar para a frente, ela se empalou e

estabacou-se de cara no deque. Gritei, e Chip caiu por causa do esforço.

Eu me agachei para abraçá-lo. Era difícil olhar para ele, com aquele buraco aberto no peito.

Chip era o meu herói. Eu viera para salvá-lo, e quem acabou me salvando foi ele! Minha troca

de papéis não deu muito certo.

Jennifer se levantou devagar, e centímetro a centímetro retirou o cabo de metal do corpo.

— Ai, ai, ai - reclamou.

— Nós machucamos você! - compreendi, espantada.

E eu que já pensava que ela era a Senhorita Indestrutível. O limpador de piscina deixou um

buraco em seu abdômen, de onde escorria sangue. Ela olhou para mim.

— Tem um absorvente por aí? - perguntou.

Fiz que não.

— Achei melhor perguntar. Parece que você tá naqueles dias.

Ela começou a escalar a cerca, estremecendo de dor.

— Aonde você vai? - berrei.

— Pare com essa gritaria. Tô fora - respondeu ela, por cima do ombro, depois nos olhou

novamente. - Vocês, perdedores, não valem o trabalho que dão.

— Vai desistir agora, é? - gritei, histérica. - Ele já tá quase morto! Volte aqui, bulímica, e acabe

logo com a gente!

— Tsc, tsc - retrucou ela. - Você vive dizendo que tenho sido uma péssima amiga todos esses

anos. Acho que vou te dar essa chance agora.

Então ela sorriu com ironia e passou para o outro lado da cerca. Eu a vi pela grade enquanto

se afastava cambaleando e a odiei com todas as minhas forças.

Chip gemeu novamente e eu saí do estupor. Segurei-o nos braços, banhando meu corpo em

sangue e aquele líquido preto. Os ferimentos dele eram terríveis. Além das costelas expostas,

seu braço tinha sido destroçado. Seu pescoço sangrava onde ela havia tentado comê-lo.

Pressionei com a mão, na vã tentativa de estancar o sangue.

— Ah, Chip - suspirei, desesperada.

Era tarde, tarde demais.

— Needy – sussurrou le. - Você sempre tem razão.

— Não cheguei a tempo. É tudo culpa minha! - Lágrimas quentes rolavam pelas minhas

bochechas. - Deixei ela te pegar.

— Não - perdoou-me ele. - Eu não devia ter seguido Jennifer.

Ele a seguira até aqui? Deus, que mentiras ela havia lhe contado?

— Vou pedir ajuda - disse.

Por que não? Quem sabe a polícia pudesse fazer alguma coisa, para variar. Alcancei o bolso

dele e encontrei seu celular. Limpei-o no vestido, removendo a meleca preta, embora isso

provavelmente o tenha deixado ainda mais sujo.

— Ah, não - reclamou Chip. - Estou sem créditos!

Sorri para ele.

— Acho que a ligação pro serviço de emergência é sempre gratuita.

Ele devolveu o sorriso.

— Ah, é. Você tá certa de novo.

Liguei, mas nada aconteceu. Balancei o celular e o bati contra o concreto. Tentei novamente.

Nada. Sem barulho, luz, nada. Estava morto.

— Não funciona. Tá cheio daquela... gosma de Jennifer.

Maldita.

Chip tossiu e se afogou em seu próprio sangue. Seus olhos piscaram.

— Ei, tô indo pra algum lugar...

A voz dele começava a fraquejar. Segurei-o bem apertado e sussurrei com força em seu

ouvido:

— Não! Você não vai pra lugar nenhum!

Estado de negação, conheça Needy. Needy, este é o estado de negação.

Ele tentou sorrir novamente, mas seu rosto se contorceu de dor.

— Tô frito, Needy. Com certeza vou morrer. Ácho que já tava até morto antes de você chegar

aqui, mas acordei quando ouvi sua voz.

Solucei, chorando. Nunca ouviria palavras tão doces outra vez na vida. Por que isso estava

acontecendo comigo?

— Eu te amo - falei, com a voz apertada.

Espalhei catarro em cima dele quando falei. Eu sei, nada romântico, mas essa é a vida real, não

um conto de fadas com final feliz. Esse era praticamente o pior final que eu poderia imaginar.

— É, eu também - respondeu ele. - E você tá uma gata nesse vestido.

Soltei uma gargalhada.

— Você com certeza tá delirando.

Ele levantou seu braço bom e tocou meu rosto. Olhou bem nos meus olhos, íris na íris.

— Não. Quando você tá morrendo, pode ver as coisas com mais clareza. Pode ver o que é

verdade e o que não é. As coisas de verdade têm essa luz ao redor delas, que nem você, agora.

E tenho certeza de que você está totalmente gata.

Voltei a chorar, com vontade. A essa altura as lágrimas já deveriam ter se esgotado, mas

parecia que naquela noite o meu estoque era infinito. Eu tinha levado muito tempo para

chegar a esse momento. Meu namorado precisou morrer em meus braços para eu me

convencer de que tenho valor. Não precisava de Jennifer para me desta¬car; eu sempre tivera

valor.

— Acho melhor você dar o fora daqui - falou Chip. - A polícia vai chegar e não quero que eles

pensem besteira, sabe.

Apertei-o mais ainda.

— Nunca vou te deixar.

— Mas eu tenho de ir - sussurrou ele.

— Não! - gritei, com voz rouca.

Mas seus olhos se fecharam. Seu corpo estava mole. Meu amor tinha ido embora.

Uivei. Pressionei meu rosto contra seu peito; seu peito aberto e mutilado. Banhei-me com seu

sangue e jurei que sua morte teria troco.

Meu Deus, Chip. Perdão. Perdão.


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