
sábado, 28 de maio de 2011
GTA San Andreas
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Dicas (MANHAS) de GTA Vice City
Energia Completa:
R1, R2, L1, CÍRCULO, Esquerda, Baixo, Direita, Cima, Esquerda, Baixo, Direita, Cima
Colete Intacto:
R1, R2, L1, X, Esquerda, Baixo, Direita, Cima, Esquerda, Baixo, Direita, Cima
Todas as Armas:
R1, R2, L1, R2, Esquerda, Baixo, Direita, Cima, Esquerda, Baixo, Direita, Cima
Todas as Armas 2:
R1, R2, L1, R2 Esquerda, Baixo, Direita, Cima, Esquerda, Baixo, Baixo, Esquerda
Todas as Armas 3:
R1, R2, L1, R2, Esquerda, Baixo, Direita, Cima, Esquerda, Baixo, Baixo, Baixo
Aumentar Nível de Perseguição:
R1, R1, CÍRCULO, R2, Esquerda, Direita, Esquerda, Direita, Esquerda, Direita
Diminuir Nível de Perseguição:
R1, R1, CÍRCULO, R2, Cima, Baixo, Cima, Baixo, Cima, Baixo,
Motoristas Agressivos:
R2, CÍRCULO, R1, L2, Esquerda, R1, L1, R2, L2
Pedestres Violentos:
Baixo, Esquerda, Cima, Esquerda, X, R2, R1, L2, L1
Pedestres Armados:
R2, R1, X, Triangulo, X, Triangulo, Cima, Baixo
Todos Contra você:
Baixo, Cima, Cima, Cima, X, R2, R1, L2, L2
Mulheres Armadas e de Biquini:
Direita, L1, CÍRCULO, L2, Esquerda, X, R1, L1, L1, X
Mulheres aos seus pés:
CÍRCULO, X, L1,L1, R2, X, X, CÍRCULO, Triangulo
Explodir todos os carros:
R2, L2, R1, L1, L2, R2, Quadrado, Triangulo, CÍRCULO, Triangulo, L2, L1
Cometer suicídio:
Direita, L2, Baixo, R1, Esquerda, Esquerda, R1, L1, L2,
Direção Perfeita:
Triangulo, R1, R1, Esquerda, R1, L1, R2, L1
Carros Voadores:
Direita, R2, Circulo, R1, L2, Baixo, L1, R1
Carros Andam na água:
Direita, R2, CÍRCULO, R1, L2, Quadrado, R1, R2
Rodas Deformadas:
R1, X, Triangulo, Direita, R2, Quadrado, Cima, Baixo, Quadrado
Câmera Lenta:
Triangulo, Cima, Direita, Baixo, Quadrado, R2, R1
Acelerar o Tempo:
CÍRCULO, CÍRCULO, L1, Quadrado, L1, Quadrado, Quadrado, Quadrado, L1, Triangulo, CÍRCULO, Triangulo
Retardar o Tempo:
Triangulo, Cima, Direita, Baixo, Quadrado, R2, R1
Trocar de Personagem:
Com essas dicas você troca o seu personagem o Tommy por outro a sua escolha. Procure não salvar o jogo após fazer uma troca, pois ela não pode ser desfeita.
Personagens Aleatórios:
Direita, Direita, Esquerda, Cima, L1, L2, Esquerda, Cima, Baixo, Direita
Candy Suxxx:
CÍRCULO, R2, Baixo, R1, Esquerda, Direita, R1, L1, X, L2
Guitarrista do Love Fist:
R1, L2, R2, L1, Direita, R2, Esquerda, X, Quadrado,
Hilary King:
R1, CÍRCULO, R2, L1, Direita, R1, L1, X, R2
Ken Rosenberg:
Direita, L1, Cima, L2, L1, Direita, L1, R1, X, R1
Lance Vance:
CÍRCULO, L2, Esquerda, X, R1, L1, X, R1
Mercedes:
R2, L1, Cima, L1, Direita, R1, Direita, Cima, CÍRCULO, Triangulo
Phil Cassady:
Direita, R1, Cima, R2, L1, Direita, R1, L1, Direita, CÍRCULO
Ricardo Diaz:
L1, L2, R1, R2, Baixo, L1, R2, L2
Sonny Forelli:
CÍRCULO, L1, CÍRCULO, L2, Esquerda, X, L1, R1, X, X
Vocalista do Love Fist:
Baixo, L1, Baixo, L2, Esquerda, X, R1, L1, X, X
Veículo sob encomenda:
Rhino (Tanque de Guerra)
CÍRCULO,CÍRCULO, L1, CÍRCULO, CÍRCULO, CÍRCULO, L1, L2, R1, Triangulo, CÍRCULO, Triangulo
Bloodring Racer:
Baixo, R1, CÍRCULO, L2, L2, X, R1, L1, Esquerda, Esquerda,
Bloodring Banger:
Cima, Direita, Direita, L1, Direita, Cima, Quadrado, L2
Hotring Racer 1:
R1, CÍRCULO, R2, Direita, L1, L2, X, X Quadrado, R1
Hotring Racer 2:
R2, L1, CÍRCULO, Direita, L1, R1, Direita, Cima, CÍRCULO, R2
Romero´s Hearse:
Baixo, R2, Baixo, R1, L2, Esquerda, R1, L1, Esquerda, Direita
Love Fist:
R2, Cima, L2, Esquerda, Esquerda, R1, L1, CÍRCULO, Direita
Trashmaster:
CÍRCULO, R1, CÍRCULO, R1, Esquerda, Esquerda, R1, L1, CÍRCULO, Direita
Sabre Turbo:
Direita, L2, Baixo, L2, L2, X, R1, L1, CÍRCULO, Esquerda
Caddie:
CÍRCULO, L1, Cima, R1, L2, X, R1, L1, CÍRCULO, X
Serviços Comuns:
Pegue os veículos indicados abaixo e aperte o botão analógico R3 para começar a trabalhar.
Bombeiro (firefighter)
Veículo:Caminhão de Bombeiro(firetruck)
Função: Apagar incêndios em automóveis e pessoas.
Segredo: Alcance o nível 12 de salvamento para ficar imune a ferimentos por fogo. Cada serviço completo corresponde a um nível.
Paramédico (paramedic)
Veículo: Ambulância
Função: Resgatar feridos e levá-los ao hospital
Segredo: Alcance o nível 12 de salvamento para liberar a habilidade corrida infinita para o seu personagem.
Entregador de Pizza (Pizza boy)
Veículo: Motocicleta encontrada ao lado das pizzarias Well-stacked Pizza.
Função: Entregar Pizza, para isso passe ao lado do cliente e aperte R2 ou L2 e depois O para arremessar a pizza.
Segredo: Complete a missão para aumentar sua energia para 150.
Justiceiro (vigilante)
Veículo: Qualquer viatura policial.
Função: Perseguir e acabar com os criminosos.
Segredo: Alcance o nível 12 de perseguição para aumentar a pontuação do seu colete para 150.
Taxista (Taxi driver)
Veículo: Qualquer táxi.
Função: Pegar passageiros e levá-los ao seu destino.
Segredo: Transporte 100 passageiros para ganhar uma habilidade de super pulo para todos os táxis (use L3)
Packages Perdidos
Há 100 itens ocultos e Vice City, chamados packages. São pequenas estátuas esverdeadas que você deverá encontrar para habilitar armas e veículos secretos em sua mansão ou no hotel Ocean View. Veja abaixo quantos packages são necessários para habilitar cada segredo:
10: Colete
20: Serra Elétrica
30: Pistola Colt Python
40: Lança-Chamas
50: Rifle com mira telescópica
60: Metralhadora minigun
70: Lança-mísseis
80: Helicóptero Sea Sparrow
90: Tanque de guerra (Rhino)
100: Helicóptero Hunter (Apache)
Dicas (MANHAS) de GTA San Andreas
Saúde e Munição máximas e dinheiro: R1, R2, L1, X, Esquerda, Baixo, Direita, Cima, Esquerda, Baixo, Direita, Cima
Armas 1: R1, R2, L1, R2, Esquerda, Baixo, Direita, Cima, Esquerda, Baixo, Direita, Cima
Armas 2: R1, R2, L1, R2, Esquerda, Baixo, Direita, Cima, Esquerda, Baixo, Baixo, Baixo
Armas 3: R1, R2, L1, R2, Esquerda, Baixo, Direita, Cima, Esquerda, Baixo, Baixo, Esquerda
Aumentar o nível de procurado: R1, R1, Bola, R2, Esquerda, Direita, Esquerda, Direita, Esquerda, Direita
Diminuir o nível de procurado: R1, R1, Bola, R2, Cima, Baixo, Cima, Baixo, Cima, Baixo
Nunca ser procurado: Bola, Direita, Bola, Direita, Esquerda, Quadrado, Triângulo, Cima
Nível 6 de procurado: Bola, Direita, Bola, Direita, Esquerda, Quadrado, X, Baixo
Todos vestidos com roupas de praia, inclusive CJ: Cima, Cima, Baixo, Baixo, Quadrado, Círculo, L1, R1, Triângulo,
Baixo
Barra Muscle (músculos) no máximo: Triângulo, Cima, Cima, Esquerda, Direita, Quadrado, Círculo, Esquerda
Barra Muscle (músculos) no mínimo: Triângulo, Cima, Cima, Esquerda, Direita, Quadrado, Círculo, Direita
Barra Fat (gordo) no máximo: Triângulo, Cima, Cima, Esquerda, Direita, Quadrado, Círculo, Baixo
Você ganha um pára-quedas: Esquerda, Direita, L1, L2, R1, R2, R2, Cima, Baixo, Direita, L1
CJ pula mais alto: Cima, Cima, Triângulo, Triângulo, Cima, Cima, Esquerda, Direita, Quadrado, R2, R2
Munição infinita enquanto estiver dirigindo: Cima, Cima, Quadrado, L2, Direita, X, R1, Baixo, R2, Bola
Fôlego infinito de baixo d'água: Baixo, Esquerda, L1, Baixo, Baixo, R2, Baixo, L2, Baixo
Super soco: Cima, Esquerda, X, Triângulo, R1, Bola, Bola, Bola, L2
Modo Adrenalina (câmera lenta e CJ mais forte): X, X, Quadrado, R1, L1, X, Baixo, Esquerda, X
Nunca ter fome: Quadrado, L2, R1, Triângulo.gif, Cima, Quadrado, L2, Cima, X
Slut Magnet (atrai mulheres com brinquedos eróticos e ganha um gimp suit): Quadrado, Direita, Quadrado, Quadrado, L2, X, Triângulo, X, Triângulo
VEÍCULOS
Veículos flutuam quando tocados por outro veículo: Quadrado, R2, Baixo, Baixo, Esquerda, Baixo, Esquerda, Esquerda, L2, X
Todos os semáfaros abertos (verdes): Direita, R1, Cima, L2, L2, Esquerda, R1, L1, R1, R1
Todos os taxis com nitro: Cima, X, Triângulo, X, Triângulo, X, Quadrado, R2, Direita
Carros rápidos e raros aparecem regularmente: Cima, L1, R1, Cima, Direita, Cima, X, L2, X, L1
Carros voam como aviões: Quadrado, Baixo, L2, Cima, L1, Bola, Cima, X, Esquerda
Pular bem mais alto com a bicicleta: Triângulo, Quadrado, Círculo, Círculo, Quadrado, Círculo,Círculo, L1, L2, L2, R1, R2
Explodir os carros: R2, L2, R1, L1, L2, R2, Quadrado, Triângulo, Bola, Triângulo, L2, L1
Dirigir na água: Direita, R2, Bola, R1, L2, Quadrado, R1, R2
Carro pula com L3: Triângulo, R1, R1, Esquerda, R1, L1, R2, L1
Carros mais velozes: Direita, R1, Cima, L2, L2, Esquerda, R1, L1, R1, R1
Carros ficam rosa: Bola, L1, Baixo, L2, Esqueda, X, R1, L1, Direita, Bola
Carros ficam preto: Bola, L2, Cima, R1, Esquerda, X, R1, L1, Esquerda, Bola
Barcos Dodo: R2, Bola, Cima, L1, Direita, R1, Direita, Cima, Quadrado, Triângulo
APARECER VEÍCULOS
Dozer: R2, L1, L1, Direita, Direita, Cima, Cima, X, L1 Esquerda
Monster (big-foot): Direita, Cima, R1, R1, R1, Baixo, Triângulo, Triângulo, X, Círculo, L1, L1
Stuntplane (avião de manobras): Círculo, Cima, L1, L2, Baixo, R1, L1, L1, Esquerda, Esquerda, X, Triângulo
Quadricículo: Esquerda, Esquerda, Baixo, Baixo, Cima, Cima, Quadrado, Círculo, Triângulo, R1, R2
Hydra (jato): Triângulo, Triângulo, Quadrado, Círculo, X, L1, L1, Baixo, Cima
Vortex (barco que também anda de terra): Triângulo, Triângulo, Quadrado, Círculo, X, L1, L2, Baixo, Baixo
JetPack (funciona como um helicóptero): L1, L2, R1, R2, Cima, Baixo, Esquerda, Direita, L1, L2, R1, R2, Cima, Baixo,
Esquerda, Direita
Rhino (tanque): Bola, Bola, L1, Bola, Bola, Bola, L1, L2, R1, Triângulo, Bola, Triângulo
Bloodring Banger: Baixo, R1, Bola, L2, L2, X, R1, L1, Esquerda, Esquerda
Ranger: Cima, Direita, Direita, L1, Direita, Cima, Quadrado, L2
Hotring Racer 1: R1, Bola, R2, Direita, L1, L2, X, X, Quadrado, R1
Hotring Racer 2: R2, L1, Bola, Direita, L1, R1, direita, Cima, Bola, R2
Romero: Baixo, R2, Baixo, R1, L2, Esquerda, R1, L1, Esquerda, Direita
Stretch: R2, Cima, L2, Esquerda, Esquerda, R1, L1, Bola, Direita
Trashmaster: Bola, R1, Bola, R1, Esquerda, Esquerda, R1, L1, Bola, Direita
Caddy: Bola, L1, Up, R1, L2, X, R1, L1, Bola, X
CIDADE
Recrute qualquer um (e ele ganha um lança-míssil se não tiver armas): R2, R2, R2, X, L2, L1, R2, L1, Baixo, X
Tema Ninja (pedestres de preto com Katana, motos e carros pretos, e CJ ganha uma Katana):
X, X, Baixo, R2, L2, Bola, R1, Bola, Quadrado
Recrute qualquer um: Baixo, Quadrado, Cima, R2, R2, Cima, Direita, Direita, Cima
Somente carros da zona rural na cidade: L1, L1, R1, R1, L2, L1, R2, Baixo, Esquerda, Cima
Hotknifes, baggages, pizzaboys, e quadricículos aparecem na cidade. Todos os carros ficam com suspensão a ar, e os
pedestres estão vestidos de palhaço: Triângulo, Triângulo, L1, Quadrado, Quadrado, Bola, Quadrado, Baixo, Bola
Gangs em todos os lugares (inclusive fora de LS): Esquerda, Direita, Direita, Direita, Esquerda, X, Baixo, Cima, Quadrado, Direita
Tráfego reduzido: X, Baixo, Cima, R2, Baixo, Triângulo, L1, Triângulo, Esquerda
Gangs controlam as ruas: L2, Cima, R1, R1, Esquerda, R1, R1, R2, Direita, Baixo
Pedestres malucos: Baixo, Esquerda, Cima, Esquerda, X, R2, R1, L2, L1
Pedestres com armas: R2, R1, X, Triângulo, X, Triângulo, Cima, Baixo
Motoristas agressivos: R2, Bola, R1, L2, Esquerda, R1, L1, R2, L2
TEMPO
Sempre meia-noite (se você se matar, passa para meio-dia): Quadrado, L1, R1, Direita, X, Cima, L1, Esquerda,
Esquerda
Tempestade de areia: Cima, Baixo, L1, L1, L2, L2, L1, L2, R1, R2
Céu laranja: Esquerda, Esquerda, L2, R1, Direita, Quadrado, Quadrado, L1, L2, X
Hora mais rápida: Bola, Bola, L1, Quadrado, L1, Quadrado, Quadrado, Quadrado, L1, Triângulo, Bola, Triângulo
Ações mais rápidas: Triângulo, Cima, Direita, Baixo, L2, L1, Quadrado
Ações mais lentas: Triângulo, Cima, Direita, Baixo, Quadrado, R2, R1
Manhã: R2, X, L1, L1, L2, L2, L2, Quadrado
Meio dia: R2, X, L1, L1, L2, L2, L2, Baixo
Noite: R2, X, L1, L1, L2, L2, L2, Triângulo
Trovões: R2, X, L1, L1, L2, L2, L2, Bola
Neblina: R2, X, L1, L1, L2, L2, L2, X
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Joe Jonas leva seu bulldog Winston para passear pelas ruas de West Hollywood

Tatuagem que Miley Cyrus fez no Brasil é mesmo uma âncora!

Nina Dobrev e Ian Somerhalder abraçadinhos e fofos em Paris!

Lucas Till conquista demais em première de "X-Men"!

MEGAN E BRIAN COMPRANDO GAMES NA BEST BUY

Capítulo 14 - Briga de Mulheres
Não fui ao funeral de Chip. Não conseguiria ficar perto daqueles falsos que nunca o
conheceram e nem se importaram com ele. Tudo o que eles sabiam era que ele tocava bateria.
Não sabiam que ele possuía o maior coração de toda aquela cidade.
Não voltei à escola. Tinha outras tarefas e apenas algumas semanas de estudo para o exame
final. Enquanto minha mãe estava no trabalho ou tirando um cochilo no sofá sob o seu
quadro bordado com “Deus abençoe este cafofo”, eu me preparava para o confronto. Havia
perdido uma oportunidade na piscina, que me custara muito caro. Da próxima vez, estaria
preparada.
Na garagem, encontrei uma caixa de ferramentas que meu pai havia abandonado. Procurei a
melhor arma possível entre as disponíveis. Queria uma machadinha, mas me contentei com
um machado e um estilete. Pensei em comprar uma nova lâmina para ele na loja de
ferramentas, mas decidi que a enferrujada era melhor.
Fui ao centro esportivo todos os dias. Não possuíamos uma academia supermoderna em
Devil’s Kettle. Apenas uma área coberta com carpete cinza desgastado, luz fluorescente e um
monte de pesos doados que não tinham par. Comecei com um halter de dois quilos e meio na
mão esquerda e um de três na direita, depois troquei. Minha única companheira no
levantamento de peso era uma mulher idosa usando um conjunto de moletom roxo. Ela devia
ter pelo menos uns 70 anos. Não mexia muito com os pesos; levantar as próprias pernas já era
difícil o suficiente para ela.
À noite, depois que minha mãe saía para trabalhar, eu ia até a casa de Jennifer. Mas não como
antigamente, para passar o tempo. Desta vez eu ia para vigiar dos arbustos e espiar pelas
janelas. Eu a observava, esperando o momento em que ficasse fraca e boba. Esperava que ela
queimas¬se toda a energia vital que roubara de Chip. Eu precisava atacá-la antes que ela se
alimentasse de outra pessoa.
Após algumas semanas, decidi que estava pronta. Decidi que ela estava pronta. Calcei meus
novos coturnos e prendi o cabelo em tranças. Vesti moletom cinza com capuz e luvas sem
dedos. Embora fosse maio, fazia um pouco de frio, especialmente após o anoitecer. Escondi o
estilete na cintura da calça e peguei o machado. Olhei uma última vez o meu quarto. Eu sabia
que provavelmente não o veria novamente.
Fui até o quarto da minha mãe, no final do corredor. A pilha de bilhetes de loteria riscados e o
frasco de calmante ao lado de sua cama me deixaram triste. Eu estava a ponto de tornar as
coisas ainda piores para ela, mas tinha de ser assim. Era hora. Eu precisava sustar aquela
Jennifer Check.
Ao chegar em sua casa, sentei-me sobre a pilha de lenha embaixo da janela do quarto dela por
alguns minutos. O vento balançava os galhos das árvores. Eu podia ver o luar difuso através
das nuvens. O céu estava inquieto. Não vou mentir; eu estava nervosa. Mesmo fraca, Jennifer
era uma espécie de animal demoníaco com poderes estranhos. Quem sabe o que mais ela
poderia fazer? Eu só contava com o elemento-surpresa, e este dura apenas um instante.
Espiei pela janela para confirmar se ela estava lá. Podia vê-la estirada na sua cama de dossel
com teto rosa. Ela vestia regata e shorts cortados de uma calça. A pele estava acinzentada e o
cabelo, seco. Vendo seu quarto sob a luz, percebi como era bobo. Era um quarto para uma
princesa de 5 anos. Papel de parede rosa com florzinhas, móveis brancos, máscaras de
carnaval brilhantes nas paredes. Sua mãe havia decorado o quarto assim para seu aniversário
quando ela era pequena e ele nunca foi mudado. Sempre tive tanta inveja do quarto de contos
de fada de Jen. Sempre a vi como princesa e eu, o ogro.
Eu a vi levantar e apagar a luz. Estava escuro. Eu podia ouvir o bater do meu coração e o vento
passando pelos arbustos. Subi na pilha de madeira e levantei a janela. Agachei, respirando tão
alto que podia jurar que ela me escutaria. Era o momento.
Preparar, apontar, já.
Lancei-me pela janela, gritando com todas as forças. Jennifer só teve tempo de se erguer sobre
um cotovelo e soltar uma exclamação de surpresa antes que eu entrasse no quarto, levando o
machado em direção à sua cabeça. Errei o alvo e fiz um buraco na parede. O machado ficou
preso no gesso. Hora do Plano B. Joguei meu corpo sobre o dela, sentando em suas coxas para
mantê-la no lugar, e comecei a enforcá-la com as mãos. A adrenalina corria no meu sangue, e
eu não conseguia evitar berrar.
— Você matou Chip! Sua monstra! Zumbiranha! - gritei.
Suas unhas eram afiadas como garras e se cravaram em meus braços enquanto ela tentava me
tirar de cima dela.
Mantendo uma das mãos em sua garganta, usei a outra para puxar o estilete da cintura da
calça e deslizar a lâmina para fora. As pernas dela pedalavam, e seus joelhos me acertavam as
costas.
— Você compra todas as suas armas mortíferas no Home Depot? - grasnou Jennifer. - Como
você é macho.
Ela engasgou quando apertei sua garganta com mais força. Tinha um comentário espertinho
para tudo. Aquilo sempre me irritava. Levantei o estilete, preparando-me para cortá-la, mas ao
abaixar o braço com a lâmina, em desespero ela se levantou e me mordeu no pescoço. Apoiei
todo o meu peso em sua garganta e a forcei novamente para baixo. Endireitei-me e a cortei
com o estilete, talhando um grande X sobre seu tronco. Sangue começou a brotar dos cortes.
— JENNIFER RISCADA! - gritei para ela.
Ela gemeu de dor e olhou em choque para seu corpo, depois para mim. Senti-me vitoriosa. Ela
não era invulnerável.
De repente me senti fora de eixo, como se estivesse num brinquedo de parque de diversões e o
chão tivesse sumido. Balancei a cabeça e então percebi que estávamos flutuando! Aquela
garota-demônio idiota estava levitando novamente e me levando com ela. Instintivamente
apertei meus joelhos em seu quadril e prendi uma das mãos em seu cabelo, enquanto tentava
apunhalá-la de novo com o estilete.
Ela mais uma vez tentou escapar, e quase conseguiu, mas segurei firme. Minha cabeça bateu
no teto e eu o empurrei para tentar nos abaixar. Continuamos a brigar no ar, lutando por
controle, quando o vento afastou as nuvens e o luar reluziu pela janela. Algo brilhou em sua
garganta e eu vi a corrente com o coração de ouro onde estava escrito BFF. Não o havia
sentido, mas eu a pressionara contra sua garganta com tanta força que surgiram marcas
vermelhas no formato da corrente ao redor de seu pescoço. Vê-las me deixou furiosa. Fingida!
Enraivecida, arranquei a corrente e a joguei do outro lado do quarto.
Ela bateu no espelho e por um momento nossos olhares se encontraram. Por um segundo, que
pareceu uma eternidade, nós nos lembramos de que já havíamos sido amigas. Já tínhamos
sido duas garotinhas, uma loira, outra morena, que juraram ficar juntas para sempre. Acho
que a eternidade não é mais o que costumava ser, não? O rosto de Chip surgiu em minha
mente e ofeguei. Por um momento, relaxei o aperto.
Subitamente caí e quebrei a cama na queda. Ela mergulhou do teto para cima de mim,
tentando me esmagar, mas eu estava preparada para isso. Eu a virei de costas e pulei sobre ela
novamente. Dessa vez, eu não deixaria a oportunidade passar.
Nada de últimas palavras, bordões ou adeus. Eu estava possuída por um propósito e
acreditava completamente que era justo. Simplesmente ergui o braço e a apunhalei de novo -
desta vez, no coração. Sangue jorrou por todos os lados, atingindo as colunas brancas da cama
e o lençol de cachorrinhos. Foi uma bagunça. Sentei-me ali, olhando para o corpo dela que
estremecia. Não tinha mais certeza do que fazer naquele momento.
De repente, uma luz forte me cegou.
— Jennifer? Querida? Meu Deus!
Era a Sra. Check. Ela havia acendido a luz e me encontrado sobre o corpo de sua filha,
segurando um estilete sangrento. Acho que não posso culpá-la por ficar histérica. Ela não
sabia que a filha tinha se tornado cria de demônio.
— Needy?
Ela me agarrou, puxando-me da cama e jogando-me no chão para que pudesse voltar e
abraçar Jennifer. A respiração de Jennifer estava fraca, mas ela ainda respirava.
Deixei o estile cair sobre uma cópia do Flag Team Quarterly que estava no chão, e me
aproximei da encenação de Pietà que acontecia ali ao lado.
— Sra. Check? - perguntei com educação. - Ela morreu? Consegui acertar?
Jennifer inspirou e vomitou sangue em cima de sua mãe. Depois morreu, finalmente. Sua
cabeça caiu para trás e um filete de líquido preto escorreu da sua boca.
Sua mãe uivou, mas eu sorri. Conseguira. Sentia-me livre. Sentia-me triunfante. Sentia-me
orgulhosa. Tinha salvado o mundo.
A parte mais estranha, no entanto, era que ela parecia não ter lutado muito. Digo, ela se
debateu e tal, mas, quando eu estava a ponto de desferir o golpe mortal, ela me olhou e sorriu
ironicamente. Como se estivesse me provocando. Mesmo em seus últimos momentos de vida,
a verdade é que eu faria o que quer que ela me pedisse. E tive a impressão de que ela queria
que eu a matasse. Pela primeira vez, nós duas realmente queríamos a mesma coisa.
Devo confessar, morrer fez maravilhas para a aparência dela. Ela voltar a ser a gostosona de
sempre.
Agora que você já sabe...
Claro, dessa vez a polícia apareceu e me prendeu, depois que a Sra. Check ligou para a
emergência. Não fugi; apenas esperei por eles perto de Jennifer, caso ela voltasse dos mortos.
Já assisti a muitos desses filmes em que a heroína se ferra por causa de um corpo reanimado.
Mas ela não se mexeu.
Enquanto me algemavam e colocavam na viatura, eu me sentia elétrica pelo sucesso,
tagarelando que havia salvado todo mundo e falando como era poderosa. Minha culpa não
estava nem em questão. Convenientemente, no entanto, minha sanidade era duvidosa.
Na realidade, não sei mas quem é Needy Lesnicki. Sou uma pessoa completamente diferente
agora. Alguém que xinga, chuta enfermeiros no rosto e vê coisas que não estão lá. Sou uma
pessoa muito estragada.
Algumas vezes, porém, mudar pode ser algo bom. Pode ensinar algo novo sobre você mesmo.
Por exemplo, nenhum dos livros de ocultismo ou sites que eu li me informaram que, se você é
mordido por um demônio e sobrevive para contar a história, pode talvez absorver um pouco
das habilidades deste capeta. Você pode dar sorte, pelo menos uma vez na sua existência
miserável.
Empurram uma carne estranha pela abertura na porta, que é meu jantar. Torço o nariz ao
sentir o cheiro, distraidamente coçando o pescoço. Ele coça bastante onde Jennifer me
mordeu. Parece infectado, também, e os antibióticos que me deram não têm ajudado.
Levanto-me e sento-me, cruzando as pernas. Fecho os olhos e me concentro. Tenho praticado
isso bastante e já vejo progresso. Sinto o chão de cimento se afastar; estou subindo pelo ar.
Alcanço a estreitíssima janela no topo da parede e a quebro. Sim, com certeza aprendi uns
truques novos.
Lá fora, a lua brilha. Não aperfeiçoei a aterrissagem ainda, então caio mais do que pouso no
chão. Rolo na terra e me levanto. Hora de começar o show. Ando calmamente até a grade de
segurança, com todo aquele arame farpado por cima. Abro um buraco exatamente do meu
tamanho na grade e a atravesso. Começo a caminhar pela estrada em minhas confortáveis
pantufas de coelhinho, levantando despreocupadamente o polegar para pedir carona. Não há
quase tráfego hoje à noite.
Após alguns quilômetros, ouço um barulho de água correndo ao lado da estrada. Aqui é onde
o riacho deságua depois da cachoeira. Todo o lixo que os cientistas jogaram pelo buraco
deveria tecnicamente aparecer aqui, mas isso nunca acontece.
Vejo algo brilhar sob a luz da lua. Deixo a estrada, corro pela beira do riacho e agacho para
pegá-lo na água. É uma faca de caça. Acho que a “chaleira” não cozinha tudo, afinal. Prendo-a
na cintura da calça e continuo andando.
Por fim uma caminhonete se aproxima e torno a levantar meu polegar. O motorista reduz a
velocidade e para, abaixando a janela. É um pervertido que fica me secando de cima a baixo.
Acho que se excitou com as minhas pantufas de coelho.
— Querendo ir pra onde, mocinha?
— Leste. Na direção de Madison - respondo.
— Leste, é? Pelo jeito vou pra lá também. Mas tem de me pagar em grana, cana ou xana.
Sacou?
— Não tenho dinheiro nem bebida, então vai ter de ser xana - devolvo.
— Tá bom, então - completa o pervertido. - Sobe aí na carruagem.
Dou a volta e sento-me no lado do passageiro. Enquanto ele dirige, eu aumento o volume do
rádio. Aquela música estava tocando novamente. Eu acompanho a letra desta vez.
Através das árvores vou achar você.
Curar os destroços que restaram em você.
E as estrelas irão lembrar a você,
Que nós vamos nos reecontrar...
— Por que você tá indo pro leste, mesmo? - pergunta ele.
— Tô seguindo essa banda de rock - explico.
— Esse deve ser um grupo bom como o diabo - completa o motorista.
A música termina e o DJ concorda:
— Que música! Pensei em tocar esta em homenagem ao Low Shoulder, que toca hoje à noite
em Madison. Será uma noite inesquecível, com certeza.
— Sim - respondo - Hoje será o último show deles.
Sorrio e recosto no assento. Estou pronta.
FIM
* * *
Capítulo 13 - Dança Macabra
No fim, percebi que Chip tinha razão. Ele foi bem esperto nos últimos momentos. Se eu
ficasse ali, a polícia certamente me prenderia, e eu não podia deixar isso acontecer. Eu tinha
coisas a fazer.
Beijei-o uma última vez e o deitei com cuidado no chão. Fiquei ao lado dele por um segundo,
memorizando seu rosto, depois o deixei. Consegui pular a cerca, mas deixei que a gravidade
fizesse a parte mais complicada. Então fui mancando até o ginásio da escola. Não havia mais
pressa. Chip já tivera sua última dança.
A vizinhança estava completamente escura. Não tínhamos muitos postes de luz em Devil’s
Kettle. Cheguei no início do estacionamento da escola, que estava banha¬do em uma luz
amarela forte meio borrada. Perto das vagas para deficientes, vi dois idiotas se agarrando.
Parei e fiquei encarando. Era incompreensível para mim que qualquer pessoa na face da Terra
pudesse se divertir naquele momento. A garota finalmente me notou ali.
— Tá olhando o quê, desajeitada?
— Só vendo se ele consegue chupar a feiúra da sua cara - respondi. Era pura maldade. A
amargura já começava a se espalhar do meu coração para o resto da minha alma.
— O que foi que você disse? - perguntou o garoto.
Olhei para baixo e meu cérebro lentamente resolveu a equação; dei-me conta da minha
aparência. Meu vestido estava rasgado e sujo - não que fosse assim tão lindo antes - e meu
cabelo, desarrumado. Estava coberta de sangue e tinha manchas pretas de uma espécie de
lama nos joelhos, pernas, rosto e braços. Engasguei e quase vomitei.
Inclinei-me para a frente, pressionei um dedo sobre uma de minhas narinas e espirrei um
pedaço de muco sangrento do outro lado. Pude respirar novamente.
O rapaz me olhou mais de perto.
— Você é, tipo, gótica ou algo assim? - quis saber ele.
Ajeitei-me e inclinei a cabeça para o lado.
— Sabia que os góticos originais eram uma tribo germânica que se fixou em Roma? Eles não
usavam preto, apenas túnicas comuns de linho. Não entendo por que ninguém mais sabe isso.
Eles me encararam por um segundo e voltaram a se agarrar. As pessoas nunca aprendem.
Continuei mancando em direção ao ginásio.
Tentei primeiro ser discreta ao entrar, mas depois deixei que a porta batesse ao se fechar. Não
havia mais necessidade de ter cuidado. Caminhei pelo ginásio, deixando pegadas sangrentas
pelo chão encerado que logo eram tão borradas pela cauda do meu vestido. Eu era uma
princesa viajando por uma floresta encantada, escura e sombria, como nos contos de fadas
originais, sem edição. Antes de os estúdios cinematográficos descobrirem essas histórias, os
irmãos Grimm escreveram coisas bem perturbadoras.
Ninguém parou de rir ou dançar. Ninguém nem ao menos piscou ao me ver passar pela
multidão. Era como se estivéssemos nas ruas de Nova York. Eu tinha ido lá uma vez. Todos os
tipos de maluco podem andar por aquelas ruas que ninguém presta a menor atenção.
Meu olhar estava fixo na banda. O Low Shoulder tocava uma música instrumental
ridiculamente longa, cheia de distorções e batidas de bateria por todos os lados. Era
absolutamente ruim. Nikolai me viu primeiro. Estava usando gravata vermelha e blazer preto.
Camisa dourada. Era o próprio rei do submundo glam. Não havia grandes melhoras em
relação às roupas que usaram no Melody Lane. Ao me ver, Nikolai cutucou Dirk. O baixista
vestia uma camisa vermelha desabotoada no pescoço, onde tinha pendurado uma gravata
preta meio solta. Seu cabelo estava arrumado em um daqueles falsos moicanos.
Alcancei o palco e olhei para cima, na direção de Nikolai. Apontei dois dedos para meus
próprios olhos, depois para ele, como De Niro naquele filme. Ele se assustou e pegou o
microfone.
— Valeu, galera! Vocês são ótimos!
Ele se inclinou para Dirk e sussurrou:
— Temos de dar o fora daqui.
O pobrezinho do Dirk ficou confuso, olhando para seu companheiro de banda como se não
entendesse. Nikolai apontou em minha direção. Fiquei contente por ter bastado apenas
olharem para mim. Dirk removeu seu baixo e eles gesticularam para os dois outros integrantes
saírem do palco. As pessoas ao meu redor começaram a reclamar que a música tinha parado.
Enquanto a banda deixava o palco, Nikolai sustentou meu olhar. Eu me aproximei e ele
estremeceu.
— Por que vocês não tocam de novo aquela música de que todos gostam? - sorri ao perguntar.
Eles fugiram como criancinhas. Girei o corpo e encarei as pessoas no ginásio. Ninguém disse
uma palavra sequer. Eu simplesmente manquei até a saída e voltei para casa.
Pela primeira vez na vida não tive problemas com minhas chaves. Apenas quebrei a janela
com um soco e atravessei a mão pelo vidro quebrado, destrancando a porta por dentro. Na
cozinha escura, distraidamente, peguei um pano de prato com estampa de galinhas miúdas e
alegres e o pressionei contra o corte no braço. Então me arrastei escada acima até o meu
quarto e deitei na cama. Fiquei deitada de costas por alguns momentos, tentando processar o
que havia acontecido, mas não adiantou. Os neurônios tinham parado de funcionar. Eu havia
entrado, com certeza, em um estágio pós-traumático. Virei de lado e me encolhi, mas graças à
luz vinda do meu relógio, pude ver a foto que estava no porta-retrato em cima do meu
criado-mudo. Eu, Chip e Jennifer. Sorrindo. Felizes.
Quem disse que eu conseguiria dormir?
Fiquei olhando a foto até o nascer do sol. Quando minha mãe chegou em casa, tentou me tirar
do transe, mas eu estava catatônica e desejando aquela sensação de indiferença. Ela usou uma
toalha para remover a maior parte dos restos que estavam grudados em mim e fez um
curativo no meu braço. Beijou minha testa e me deixou sozinha. Ela sabia sobre Chip; tinha
saído no jornal da manhã.
Duda, recém-nomeado policial, o havia encontrado. Belo dia para se tornar policial, não?
Creio que eles não souberam identificar a meleca preta e fedida deixada por Jennifer, já que
não mencionaram nada no noticiário. Não queriam correr o risco de causar uma histeria
coletiva. Três corpos e nenhuma prisão; não se podia culpá-los.
Quando finalmente saí da cama, não falei muito. E ninguém mandou os policiais virem me
questionar, também. Acho que alguém tocou a campainha uma vez, mas minha mãe não os
deixou entrar. Ela é bem forte quando precisa ser. E, embora a cidade inteira tivesse me visto
coberta de sangue durante o baile, também tinha me visto no começo da festa de bobeira por
uns quinze minutos - então, eu possuía uma espécie de álibi. Todos acreditavam que eu havia
encontrado Chip e ficado meio esquizofrênica. O que de fato era parcialmente verdade.
Capítulo 12 - Quando Tudo Está Perdido
Primeiro corri até a casa de Chip. Eu tinha um último fiozinho esfiapado de esperança de que
ele só tivesse se atrasado. Caí de joelhos na frente da varanda, ofegando ao apoiar todo o peso
do corpo na campainha.
A irmãzinha de Chip, Camille, veio atender. Era uma menina fofa, de franjão e rosto redondo.
Estava chupando um pirulito, que deixava manchas vermelhas grudentas no seu rosto.
— Oi, Camille! Chipper tá em casa?
Fiz o melhor que pude para não assustar a criança, mas acho que o meu visual em uma bola
rosa-choque bufante, caída na varanda, acabou entregando o jogo. Ela me olhou como se eu
fosse uma estranha oferecendo gilete no Halloween. Voltou a lamber o pirulito. Estávamos
diante de um impasse.
Graças aos céus, a mãe dele veio até a porta e mandou Camille para dentro.
— Needy! Está tudo bem? - perguntou ela, tentando entender meu estado desgrenhado.
— Cadê o Chip? - implorei. Por favor, esteja em casa, por favor, esteja em casa, por favor,
esteja em casa.
— Ele saiu para o baile há pelo menos uns vinte minutos - respondeu ela, confusa. - Com
certeza já deveria estar lá a essa altura.
Merda.
— Ele foi andando? Sra. Dove, a senhora está me dizendo que nesses tempos perigosos e
estranhos deixou seu único filho sair andando à noite sozinho?
Tentava me equilibrar em meus pés.
— Bem, são só cinco quarteirões! - protestou ela, olhando-me mais de perto. - Meu Deus, seu
cabelo está...
— Para que lado ele foi? - interrompi. Não havia tempo para explicar sobre o topete.
— Ele costuma cortar caminho pelo parque. Por que você não tenta...
Mas eu já tinha saído correndo na direção do Parque McCullum.
Ouvi a Sra. Dover gritar atrás de mim, atordoada:
— Anita?
Cheguei ao parque suada e com os pés sangrando. Ou talvez estivessem só manchados pela
tinta do sapato. Difícil dizer. Ofeguei por um segundo, correndo os olhos pelo parque atrás de
Chip, mas não vi nada.
— CHIP! - gritei. Esperei e ouvi um grito à direita. Ergui a saia e tornei a sair correndo na
direção da Piscina Murphy.
A Murphy era uma piscina comunitária que haviam fechado há um tempo porque na maior
parte do ano era frio demais para nadar em Minnesota, e ninguém nunca a usava. Agora as
pessoas só iam lá andar de skate, pichar ou se drogar. Tinha uma cerca ao redor, mas todo
mundo simplesmente a pulava. Era o lugar perfeito para assassinar alguém.
Eu estava indo rápido demais para parar e bati de cara na cerca, fazendo as correntes
chacoalharem. Enfiei freneticamente os pés descalços nos buracos em forma de losango e subi.
Cortei a mão em um elo quebrado, mas continuei subindo. A cerca idiota era realmente alta.
Ouvi Chip gritar de novo.
— Estou indo! - engasguei.
Perto do topo me atirei para o outro lado e caí de forma bem doída sobre o concreto. Meu
braço sangrava e doía como se nada mais importasse, mas nem aquilo me parou. Achei um
caminho ao redor do lixo e da mobília de sala de estar mofada e virada de ponta-cabeça que
cobria o deque.
Lutei para chegar até a piscina, olhando a escuridão. Havia um brilho ao redor da água turva.
Em um dos lados da piscina estava pichado INÚTIL. Era um sinal, e não muito bom. Ouvi o
gemido de Chip antes de vê-lo e cobri a boca com uma das mãos para não vomitar.
A piscina estava semicheia de água imunda e espumosa, provavelmente neve derretida e chuva
ácida, e Jennifer segurava Chip contra as escadas. A camisa e o peito dele estavam abertos,
dava para ver suas costelas. Mesmo em meio a toda aquela carnificina, ainda consegui ver que,
Deus me ajude, ele usava uma gravata rosa-choque e trazia uma orquídea na lapela. Seu rosto
estava contorcido de dor quando ele ergueu os olhos e me viu. Ele mexeu a boca para falar
meu nome, mas nada saiu.
— Minha nossa! - disse eu.
Jennifer nem notou que eu estava lá. Ela estava ocupada demais roendo Chip. Subi no
trampolim e me benzi: achei que valia a pena tentar.
— São Judas, santo padroeiro das causas impossíveis, por favor me dê o poder de detonar essa
vadia.
Aí pulei do trampolim bem na hora em que Jennifer olhou para cima. Na mosca! Voei pelos
ares e aterrissei nos ombros dela com um borrifo. Arranquei-a de cima de Chip com todo o
meu peso, enrosquei as pernas em volta do pescoço de Jennifer e a puxei para baixo da água -
que estava congelante.
Ela me atirou para longe e nós duas subimos à superfície ao mesmo tempo, engasgando com o
frio. Agarrei seu cabelo e comecei a estapeá-la. Olhei para o deque da piscina e vi uma lata
rosa de spray de pimenta. Perfeito! Agarrei a lata e borrifei o spray nos olhos dela, que
guinchou e vomitou, fazendo aquela gosma preta cheia de espinhos voar em cima de mim e de
Chip.
— Chega dessa coisa de calouro! - gritou ela, depois subiu como um foguete pelos ares e
pairou a uns cinco metros da piscina, como uma espécie de bruxa. Eu finalmente consegui ver
seu vestido. Era branco com tirinhas nos ombros e faixas de renda preta embaixo dos peitos e
na bunda. Provavelmente tinha sido bonito antes de ser coberto pelas tripas do meu
namorado. Ela usava luvas brancas até o cotovelo, que agora estavam vermelhas.
À parte a produção de festa, Jennifer não estava muito bem. Parecia um cadáver. Obviamente
precisava se alimentar. Os olhos estavam de uma cor estranha, mais pálidos do que o normal,
e na sua boca haviam nascido inúmeros dentes nojentos pontiagudos.
— Ela voa? - grasnou Chip.
— Ela só tá flutuando, Chip. Não é assim tão impressionante.
Eu o ajudei a deslizar, de forma que ele ficou sentado no degrau que estava embaixo d'água.
Quando Jennifer falava, não era mais a voz dela. Tinha um som metálico. Demoníaco, acho.
— Meu Deus, você precisa estragar tudo o que eu faço? - reclamou ela. - Você é tão invejosa.
Ergui a cabeça e olhei para ela:
— Você é bastante canalha.
— Oooh, belo insulto, Poliana. Mais algum comentário duro pra me atingir?
Algo dentro de mim finalmente clicou. Eu sei, eu sei, demorou, mas expliquei que o amor que
se sela na caixa de areia nunca morre. Pelo menos não até um demônio co¬medor de
namorado e cuspidor de gosma preta o matar.
— Sabe do que mais? Você nunca foi uma boa amiga, nunca. Mesmo quando a gente era
pequena você roubava os meus brinquedos, derramava limonada na minha cama e me fazia
ser Ana, a Feia quando a gente brincava de boneca.
— E agora estou comendo seu namorado! - gargalhou ela. - Viu? Pelo menos sou coerente.
— Por que você precisava dele, hein? - Não consegui me conter. Olhei para Chip e comecei a
chorar. - Por que você precisa do único cara que já gostou de mim? Você pode ter qualquer
um, Jennifer! O cara mais lindo da escola, o carteiro, um professor. Você provavelmente
poderia ter até um astro famoso como Chad Michael Murray! Então por que Chip? Por que
logo ele? É só pra me provocar?
Nadei até a borda da piscina:
— Ou é porque você é insegura?
Jennifer flutuou para baixo e aterrissou no deque, enquanto eu me impulsionava para fora da
água para encará-la.
— Eu não sou insegura! - sibilou ela. - Que piada! Como eu poderia ser insegura? Eu fui a
Rainha da Formatura!
— Ah, é mesmo - desdenhei. - Há dois anos. Quando você ainda era socialmente relevante.
Cruzei os braços, fazendo a água espumosa pingar do meu corpo.
— EU AINDA SOU SOCIALMENTE RELEVANTE!
Ela gritou tão alto que fechei os olhos com força para protegê-los da bile dela. Mas eu sabia
que a tinha atingido. Então parti para a jugular.
— Naquela época você era magra, também!
Jennifer pareceu horrorizada. Encostou-se contra a cerca, fazendo as correntes chiarem em
protesto. Seus olhos estavam em chamas.
— Vou comer sua alma e depois cagá-la, Lesnicki - rosnou. E quando eu digo rosnou, é
porque ela rosnou mesmo. Como um animal. Ouvi o som de arranhões atrás de mim e
rapidamente olhei: era Chip. Ele tinha dado um jeito de se arrastar dos degraus da piscina
para sair da água e estava dolorosa e vagarosamente puxando um limpador de piscina para
perto de si. Um de seus braços parecia roído.
Eu me virei para minha ex-BFF, para que ela não notasse.
— Achei que você só matasse garotos - observei.
— Eu atiro pros dois lados - respondeu ela, e sorriu aquele sorriso horrendo de dentes
pontiagudos para mim. Então deu um bote, rugindo com as mandíbulas monstruosas abertas
para me pegar. Seus olhos brilhavam, brancos. Achei que seria meu fim.
Mas Chip se atirou na minha frente, segurando o cabo comprido do limpador de piscina
como uma estaca. Jen fez o resto do trabalho sozinha. Ao voar para a frente, ela se empalou e
estabacou-se de cara no deque. Gritei, e Chip caiu por causa do esforço.
Eu me agachei para abraçá-lo. Era difícil olhar para ele, com aquele buraco aberto no peito.
Chip era o meu herói. Eu viera para salvá-lo, e quem acabou me salvando foi ele! Minha troca
de papéis não deu muito certo.
Jennifer se levantou devagar, e centímetro a centímetro retirou o cabo de metal do corpo.
— Ai, ai, ai - reclamou.
— Nós machucamos você! - compreendi, espantada.
E eu que já pensava que ela era a Senhorita Indestrutível. O limpador de piscina deixou um
buraco em seu abdômen, de onde escorria sangue. Ela olhou para mim.
— Tem um absorvente por aí? - perguntou.
Fiz que não.
— Achei melhor perguntar. Parece que você tá naqueles dias.
Ela começou a escalar a cerca, estremecendo de dor.
— Aonde você vai? - berrei.
— Pare com essa gritaria. Tô fora - respondeu ela, por cima do ombro, depois nos olhou
novamente. - Vocês, perdedores, não valem o trabalho que dão.
— Vai desistir agora, é? - gritei, histérica. - Ele já tá quase morto! Volte aqui, bulímica, e acabe
logo com a gente!
— Tsc, tsc - retrucou ela. - Você vive dizendo que tenho sido uma péssima amiga todos esses
anos. Acho que vou te dar essa chance agora.
Então ela sorriu com ironia e passou para o outro lado da cerca. Eu a vi pela grade enquanto
se afastava cambaleando e a odiei com todas as minhas forças.
Chip gemeu novamente e eu saí do estupor. Segurei-o nos braços, banhando meu corpo em
sangue e aquele líquido preto. Os ferimentos dele eram terríveis. Além das costelas expostas,
seu braço tinha sido destroçado. Seu pescoço sangrava onde ela havia tentado comê-lo.
Pressionei com a mão, na vã tentativa de estancar o sangue.
— Ah, Chip - suspirei, desesperada.
Era tarde, tarde demais.
— Needy – sussurrou le. - Você sempre tem razão.
— Não cheguei a tempo. É tudo culpa minha! - Lágrimas quentes rolavam pelas minhas
bochechas. - Deixei ela te pegar.
— Não - perdoou-me ele. - Eu não devia ter seguido Jennifer.
Ele a seguira até aqui? Deus, que mentiras ela havia lhe contado?
— Vou pedir ajuda - disse.
Por que não? Quem sabe a polícia pudesse fazer alguma coisa, para variar. Alcancei o bolso
dele e encontrei seu celular. Limpei-o no vestido, removendo a meleca preta, embora isso
provavelmente o tenha deixado ainda mais sujo.
— Ah, não - reclamou Chip. - Estou sem créditos!
Sorri para ele.
— Acho que a ligação pro serviço de emergência é sempre gratuita.
Ele devolveu o sorriso.
— Ah, é. Você tá certa de novo.
Liguei, mas nada aconteceu. Balancei o celular e o bati contra o concreto. Tentei novamente.
Nada. Sem barulho, luz, nada. Estava morto.
— Não funciona. Tá cheio daquela... gosma de Jennifer.
Maldita.
Chip tossiu e se afogou em seu próprio sangue. Seus olhos piscaram.
— Ei, tô indo pra algum lugar...
A voz dele começava a fraquejar. Segurei-o bem apertado e sussurrei com força em seu
ouvido:
— Não! Você não vai pra lugar nenhum!
Estado de negação, conheça Needy. Needy, este é o estado de negação.
Ele tentou sorrir novamente, mas seu rosto se contorceu de dor.
— Tô frito, Needy. Com certeza vou morrer. Ácho que já tava até morto antes de você chegar
aqui, mas acordei quando ouvi sua voz.
Solucei, chorando. Nunca ouviria palavras tão doces outra vez na vida. Por que isso estava
acontecendo comigo?
— Eu te amo - falei, com a voz apertada.
Espalhei catarro em cima dele quando falei. Eu sei, nada romântico, mas essa é a vida real, não
um conto de fadas com final feliz. Esse era praticamente o pior final que eu poderia imaginar.
— É, eu também - respondeu ele. - E você tá uma gata nesse vestido.
Soltei uma gargalhada.
— Você com certeza tá delirando.
Ele levantou seu braço bom e tocou meu rosto. Olhou bem nos meus olhos, íris na íris.
— Não. Quando você tá morrendo, pode ver as coisas com mais clareza. Pode ver o que é
verdade e o que não é. As coisas de verdade têm essa luz ao redor delas, que nem você, agora.
E tenho certeza de que você está totalmente gata.
Voltei a chorar, com vontade. A essa altura as lágrimas já deveriam ter se esgotado, mas
parecia que naquela noite o meu estoque era infinito. Eu tinha levado muito tempo para
chegar a esse momento. Meu namorado precisou morrer em meus braços para eu me
convencer de que tenho valor. Não precisava de Jennifer para me desta¬car; eu sempre tivera
valor.
— Acho melhor você dar o fora daqui - falou Chip. - A polícia vai chegar e não quero que eles
pensem besteira, sabe.
Apertei-o mais ainda.
— Nunca vou te deixar.
— Mas eu tenho de ir - sussurrou ele.
— Não! - gritei, com voz rouca.
Mas seus olhos se fecharam. Seu corpo estava mole. Meu amor tinha ido embora.
Uivei. Pressionei meu rosto contra seu peito; seu peito aberto e mutilado. Banhei-me com seu
sangue e jurei que sua morte teria troco.
Meu Deus, Chip. Perdão. Perdão.
sábado, 7 de maio de 2011
Capítulo 11 - Produzir-se Não é Fácil
O dia chegou rápido. Fazia um mês desde a morte de Colin, que morreu um mês depois de Jonas, portanto eu tinha certeza de que Jennifer precisava se alimentar. Achei que ela apostaria alto e tentaria agarrar alguém no baile. E achei que seria Chip exatamente porque eu não queria que ela o pegasse. Primeiro um atleta, depois um gótico. Eu sabia que agora ela comeria um nerd.
Eu me vesti no meu quarto. Na semana anterior, minha mãe havia trazido um vestido
maravilhoso para casa, uma versão remix dos anos 1980 que ela conseguiu com uma mulher do trabalho. Era de todas as tonalidades de rosa-choque e tinha montes de detalhes: mangas bufantes, uma flor enorme no quadril, renda nas costas, saia babada curta na frente com tule e uma cauda enorme. Chip iria adorar. Pena que ele não iria me levar para a festa. Spector corria pelos meus pés, mordiscando o tule. Mamãe estava atrás de mim com um baby liss superquente.
— Você está linda - disse ela.
Eu me olhei no espelho.
— Pareço uma porca idiota.
— Não - censurou ela. - Você tem a cinturinha de uma modelo. Sempre achei que você se parecia com a Cindy Crawford.
— Quem?
— Uma das maiores beldades de nossa época! Ela tem até uma pinta como você, só que a dela é no rosto.
Senti uma quentura no pescoço.
— Ai! Esse treco tá muito perto.
— Bom, se Chip der um chupão no seu pescoço, você pode dizer para todo mundo que fui eu que te queimei.
— Mãe, eu já disse. Chip e eu terminamos.
— Mais motivo ainda para ficar glamourosa. Fique quieta.
Ela enrolou outra mecha de meu cabelo loiro cinzento com aquele modelador quente.
— O que você tá fazendo com meu cabelo?
— Um topete maneiro - respondeu ela.
— Mãe!
— Bom, se você tem esse material gigantesco aí na frente, precisa ter um cabelão também!
Quando ela terminou, eu parecia um poodle, ou talvez a noiva do Frankenstein. Ela tirou meus óculos, o que foi quase um alivio. Eu não podia mais suportar me olhar, nem à corrente dourada de BFF que eu continuava usando. De algum jeito, parecia apropriado usá-la até o fim.
Minha mãe sacou a câmera digital e me fotografou na sala, com nossa poltrona xadrez como cenário. Depois ela veio para o meu lado e estendeu o braço para a frente, para nos fotografar juntas. Quando olhamos as fotos na tela, minha mãe estava com os olhos fechados e eu parecia arrasada. Acho que porque eu estava mesmo. É uma pena que aquelas sejam as últimas fotos que ela terá de mim.
A decoração do ginásio era uma agressão para a vista. As árvores que fizeram pareciam hematomas roxos e verdes, e a impressão é que uma loja de enfeites de festa havia explodido, deixando balões e restos de fitas por todos os lados. Em uma faixa enorme, lia-se: ATRAVÉS DAS ÁRVORES — BAILE DE PRIMAVERA.
Havia um DJ tocando muito mal. Sempre que uma música acabava, acontecia um salto gigante. O cara não tinha a menor destreza.
Vi as Garotas Mortas andando em bando. Chloe estourava balões com um alfinete. Sempre que furava um, dizia algo como: “Este é meu coração” pop!, “minha alma” pop!, “tudo em que um dia acreditei”. Pop!
Alguns idiotas riram do meu vestido quando eu atravessei a multidão, procurando Jennifer. Nem liguei para aquilo. Estava ali em uma missão. Não vi nem Jennifer, nem Chip, por isso servi um pouco de suco em um copo de plástico e me encostei à parede para esperar. Seria capaz de aguardar a noite inteira, se fosse preciso. Eu me perguntava se Jennifer iria para a festa com alguém.
Os casais se esfregavam na pista enquanto os minutos passavam lentamente. Olhei o relógio de pulso. Os braços de Mickey Mouse me informaram que os dois estavam atrasados.
O Sr. Wroblewski andou até o DJ e agarrou o microfone. Estava vestido com seu smoking dos anos 1970 e uma camisa azul cheia de babados. Sua mão-garra cinti- lou quando o globo de luz lançou um raio sobre ela. O volume da música foi abaixado para que ele pudesse falar.
— Gostaria de ter a atenção de todos, por favor - começou ele. A multidão se aquietou, mas pareceu chateada com a intromissão. - Sejam bem-vindos ao baile da primavera. Espero que todos tenham tido a chance de consumir os biscoitos e o suco que foram generosamente doados pelo Clube dos Pais.
Houve alguns aplausos, na maioria dos pais monitores.
— Mas a verdadeira surpresa ainda está por vir. Temos convidados muito especiais esta noite. Estes cavalheiros gentis tiveram a bondade de dar uma pausa em sua turnê nacional de ingressos esgotados para tocar em nossa festa de graça!
Um burburinho ondulou pela multidão, e ouvi Chastity gritar de alegria. Já eu engasguei com o suco de fruta generosamente doado.
O Sr. W. fez uma pausa dramática de efeito. Depois ergueu sua garra de metal e gritou
alegremente:
— Garotos e garotas, por favor, deem as boas vindas ao Low Shoulder!
As meninas correram até o palco dando gritinhos, enquanto as luzes se acendiam para revelar aqueles idiotas completos que começavam a tocar uma nova versão daquela mesma música maldita. O logo da banda estava pendurado em uma cortina atrás deles. Finalmente entendi que o carro inclinado era a placa de trânsito que sinalizava “low shoulder” - ou seja, acostamento baixo. Como uma coisa podia ser tão idiota?
Continuava não vendo nem Jennifer nem Chip em parte alguma. Por fim uma lampadinha se acendeu na minha cabeça e eu quase borrei as minhas calcinhas brancas de algodão.
— Chip! - gritei alto. Lutei para chegar até as portas do ginásio, mancando com os saltos altos estúpidos que minha mãe mandara tingir da mesma cor do meu vestido.
Saí como um furacão no ar frio. Havia um pouco de névoa, e os poucos postes de luz ao redor do estacionamento brilhavam de um jeito meio aterrorizante. Chutei os saltos de cetim rosa-choque para um lado e comecei a correr na direção do Parque McCullum.
Uma coisa que ninguém sabe é que sou rápida. Nunca quis entrar no time de atletismo porque fico feia de short, só isso. Além disso, Jennifer disse que corrida era coisa de lésbica. Mas eu sou. Rápida, quero dizer. Mesmo naquele vestido cor de placenta, destruí o asfalto. Eu precisava fazer isso. Estava correndo pela vida dele.
Capítulo 10 - Lição do Inferno
Finalmente eu abraçara a idéia de que Jennifer era uma serial killer canibal adolescente maluca. Devia ter sido ela que matou Jonas. Ela devia estar se sentindo pés¬sima como se estivesse gripada quando eu também estava, e, depois que ela o comeu, nós duas ficamos muito melhor. Deve ter matado Colin enquanto eu estava tendo um surto com Chip no quarto. Isso explica a fome que me atacou. Não sei por quê, mas eu também tinha certeza de que ela comera Ahmet. Eu sabia que ela odiava aquele garoto.
O problema era que, no fundo, eu não achava que ela estava possuída ou que havia sido transformada em um demônio. Ela tinha aqueles poderes estranhos e precisava alimentá-los, mas continuava sendo Jennifer Check. Ainda era a minha amiga... não era?
Março virou abril. Todo dia de manhã, abrigada com meu capuz a caminho da escola, eu passava pelo campo de futebol americano, onde havia uma faixa gigante na qual se lia BAILE DA PRIMAVERA, e via Jennifer e as outras animadoras de torcida conversando, como se ninguém houvesse sido eviscerado.
Se eu encarasse Jennifer na aula por muito tempo, começava a ter visões. Da caveira
sorridente de Jennifer. De Jennifer como um cadáver apodrecido. De Jennifer como um
monstro com fileiras e mais fileiras de dentes. Ouvia o sangue bombeando em minhas orelhas e o zumbido de moscas ao meu redor.
Eu estava perturbada.
Andava negligenciando até Chip, que corajosamente se esforçava para agir com naturalidade. Ele relacionou meu surto com a morte de Colin, mas achou que era porque Colin fora meu amigo, não porque minha BFF canalha o havia matado.
Eu andava pensando sobre Jennifer, Colin e Chip. Sabia que, quanto mais eu amasse Chip, mais devia ficar longe dele. Era como todas as histórias de amor estúpidas que já foram escritas. Eu precisava afastá-lo para protegê- lo. Na hora, nem me toquei que não era porque eu tinha superpoderes malucos e perigosos.
Certa manhã, Chip veio correndo atrás de mim e me distraiu dos meus pensamentos:
— Ei!
Ele me deu uma cotovelada.
— Acabei de comprar nossos ingressos pro baile da primavera. Você fez reservas na Cheesecake Factory?
Olhei para baixo e não respondi.
— Seu vestido é de que cor? - continuou ele. - Que tal rosa-shoching? Você é definitivamente uma garota do inverno. Minha mãe diz que as garotas do inverno deveriam usar tons nobres de jóias, como rosa-choque. Ou quem sabe azul-esverdeado.
— Certo. Esqueci que sua mãe é uma mulher da Avon.
— Bom, agora eles chamam de representante de vendas - corrigiu ele.
Isso ia ser difícil, mas eu sabia que precisava fazê-lo. Para salvá-lo.
— Não posso ir ao baile com você. Não posso mais ver você de jeito nenhum.
— O quê? Por quê?
— Porque ela quer tudo o que eu quero.
— Do que você tá falando? - perguntou Chip.
Olhei melancolicamente para seu cabelo castanho bagunçado e seus braços fortes. Acho que ele merecia uma explicação. Ele não iria gostar, mas merecia que contasse.
— Aqui não; venha.
Agarrei o braço de Chip e comecei a arrastá-lo para o pátio da escola.
— O que está acontecendo? Você não tá terminando comigo, né?! - perguntou ele em pânico.
Achei um banco escondido em um canto embaixo de uma figueira enorme. Eu o empurrei para baixo, para que se sentasse no banco, e me sentei ao lado dele.
— Certo - fiz uma pausa, sem saber como começar. Escolhi a simplicidade: - Jennifer é do mal.
— Eu sei - disse Chip, com um sinal de cabeça. Ele já tinha ouvido aquilo antes.
— Não, quero dizer que ela é do mal mesmo. Não mal tipo garota popular da escola. Aqui, preciso mostrar uma coisa.
— Ela está comendo garotos! Eles a deixam toda bonita, brilhante, com um cabelo sensacional. Além disso, ela fica... invencível. Sei lá. Só que, quando está com fome, fica fraca, mal-humorada e feia. Quer dizer, feia para ela. É porque precisa se alimentar! Ela precisa da força vital desses meninos!
— Você realmente acha que Jennifer matou Jonas e Colin? - perguntou ele, devagar.
Fiz que sim, vigorosamente:
— E talvez Ahmet, da índia. Sei que ela não é mais ela mesma. Você não entende o que eu vi. Ela me mostrou!
— Needy, acho que você precisa de ajuda.
Caí em silêncio. Ele não havia acreditado em uma palavra sequer. Droga.
— Acho mesmo que você devia ir conversar com o Dr. Feely ou algo assim. Só pra, sabe,
clarear as idéias. Sei que você passou por coisas difíceis - disse ele, com suavidade.
— Você não acredita em mim. Acha que sou uma louca varrida!
Ele pegou o fichário das minhas mãos e o fechou.
— Não é que eu não acredite em você; só não acredito nisso. - Ele deu um tapinha no fichário com o dedo.
Entendi por que ele não queria pegar minha loucura infecciosa. O problema é que eu não estava louca. O resto das pessoas é que estava. Mas, quando você é a única pessoa sã, talvez seja a louca. É subjetivo, entende?
— Isso não está acontecendo - sussurrei. - É um pesadelo. - Eu me virei para olhar dentro de seus olhos. - Não é seguro a gente continuar se vendo agora.
Ele franziu a testa.
— Peraí, você tá mesmo terminando comigo? Não sou mais seu namorado?
— Eu sei que você vai ser o próximo. Posso sentir.
— E o baile?
— Quem se importa com esse baile idiota? - explodi.
— Eu! - exclamou ele. - Já pedi seu buquê de pulso. É uma orquídea e custou 12 dólares!
Vacilei um pouco.
— Olhe, vou ao baile. Preciso ficar de olho em Jennifer. Só não se aproxime de mim.
Ele me olhou como um filhotinho abandonado num canto da rua. Minha barriga deu um nó. Fiquei mal, mas eu me amaldiçoaria se a deixasse enfiar os dentes nele.
— Acho que eu não iria querer, mesmo - disse ele.
Chip me devolveu o fichário e depois foi embora. Eu o vi se afastar com um peso enorme no coração. Estava tão apaixonada por ele, e estraguei tudo.
E, finalmente, eu começava a aceitar o fato de que Jennifer Check era uma completa vadia.
