sábado, 7 de maio de 2011

Capítulo 6 - Encontra às Escuras

Na semana seguinte houve uma vigília à luz de velas nos escombros do Melody Tavern. A cidade em peso apareceu, segurando velas espetadas em copos de plástico. A cerca laranja que a policia colocou em volta dos entulhos esturricados virou um quadro de recados para um santuário. Cruzes brancas, baldes de flores, ursinhos de pelúcia e fotos foram empilhados contra o plástico. Era como se a princesa Diana tivesse estado dentro do bar.
Jennifer não deu as caras e minha mãe teve de ir trabalhar. Chip e eu ficamos afastados da multidão, e, sinceramente, não ficamos muito tempo. As pessoas começaram a cantar aquela música maldita e simplesmente não dava para ouvir aquilo sem ter vontade de vomitar.
E as estrelas irão lembrar de você.
Também fizeram um funeral para Jonas. Eu nem iria; não era como se eu tivesse sido amiga dele e não queria ser uma daquelas groupies de enterro que ficam chorando por alguém com quem elas nem falavam quando era vivo. Mas Chip era vizinho de Jonas e queria que eu fosse com ele para dar apoio moral.
Eu nem devia ter me preocupado, porque praticamente a escola inteira apareceu. Não foi um evento do tipo intimo. Ouvimos dizer que quem achou o corpo de Jonas foi o Sr. Wroblewski.
Ele estava sentado lá na frente, chorando como um bebê. Coitado do Sr. W. Era um cara bastante sensível.
Daí todo mundo voltou para a escola. A vida voltou ao normal, mas a maioria de nós estava anestesiada demais para se divertir. A maioria. Jennifer ainda se pavoneava pelos corredores de Kettle High como uma rainha. Era como alguém em Technicolor, em comparação com o nosso cinza. Imagine a garota de capuz rosa e um chaveiro fofo com uma Barbie Jennifer. Só que, claro, uma versão morena da Barbie. Aquela que eles nunca fabricam em grande escala, e então vira uma raridade.
O povo da escola enfiou flores pelas aberturas do armário de Jonas e deixou mais ursinhos de pelúcia no chão. As flores acabaram morrendo, mas ninguém as tirou dali. Os botões murchos simplesmente continuaram lá, apodrecendo. Já estávamos quase no fim de março e a policia não tinha encontrado ninguém para pender pelo assassinato.
O resto da turma tinha virado superfã daqueles nojentos da noite para o dia. Chasttity, que estava sentada na minha frente com uma camiseta do Low Shoulder, se empertigou para chamar a atenção, como se fosse participar do exército de reserva da banda ou algo do tipo.
— Como vocês sabem, a música “Through the Trees” do Low Shoulder se tornou nosso hino não oficial de união e cura. Por isso, eles irão lançá-la como im single beneficiente. Três por cento dos lucros serão destinados às famílias que foram afetadas pela perda.
Os outros babacas da sala já estavam sussurrando entre si, como se o próprio Papai Noel estivesse vindo visitar a cidade. Eu não estava nem um pouco impressionada.
— E os outros 97 por cento? – perguntei.
O Sr. W. me olhou com expressão vazia:
— Perdão?
— Os outros 97 por cento. Quer dizer, isso é inescrupuloso, certo? – Olhei em volta, mas ninguém estava entendendo. – Inescrupuloso? Quer dizer “mau-caráter, explorador, sem-vergonha”. Será que eu sou a única que faz os exercícios de vocabulário?
— Sim – respondeu o Sr. Wroblewski.
Chastity se virou para fazer pouco caso de mim.
— Os caras do Low Shoulder são heróis nacionais, Needy.
— Não. Não são. Eu tava lá, Chastity. Eles não ajudaram ninguém a fugir no incêndio. Nem sei como foi que esse boato começou!
— Boato? – gritou ela. – Boato? É a pura verdade! Tá na Wikipédia!
Olhei para Jennifer em busca de apoio, mas ela já havia apoiado a cabeça na mesa e estava totalmente em outra.
— Não... bom, é. Como é que você sabia? – Ele ficou remexendo seu bracelete de couro preto.
Não dava para acreditar que aquela conversa estava acontecendo. Eu devia estar sonhando. A
única coisa que eu conseguia fazer era olhar de um para o outro, sem acreditar.
— Vai, pode soltar o verbo – incentivou Jennifer.
Ele respirou fundo para se acalmar e depois começou:
— Bom, a gente anda se divertindo muito na aula, você e eu, por isso achei que a gente podia sair para ir ao cinema ou algo assim. Fim de semana que vem vai ter uma sessão de meia-noite do Rocky Horror.
— Não curto filmes de boxe – respondeu Jennifer.
— Esse não é um... – começou a corrigir Colin. – ah, deixa pra lá.
Ele se recompôs bem na hora e recuou. Começou a andar apressado pelo corredor, todo rejeitado.
— Hum, isso foi inesperado – comecei.
— Ah, sei lá, to acostumada com os caras me chamando pra sair – respondeu ela, dando de ombros. Isso era óbvio, mas mesmo assim eu ainda estava chocada pelo fato de Colin tê-la convidado para sair. Para ser sincera, sempre achei que ele era meio afim de mim. E desde quando um gótico reúne coragem para convidar a líder de torcida para sair?
— Colin é um cara muito legal – falei com cuidado.
— Ele curte Slipknot. Usa esmalte de unha. Minhas bolas são maiores que as dele – disse ela, fazendo pouco caso.
— Bom, eu acho que ele é bem legal – afirmei, defendendo-o sem pensar. Ela me olhou, subitamente interessada.
— acha, é? – perguntou ela. Olhou pelo corredor para a figura dele, que se afastava. De repente Jennifer gritou:
— Colin! Espere aí!
— Ei, por que você não dá um pulo lá em casa hoje à noite? – gritou ele. – Acabei de alugar Aquamarine em DVD. É sobre uma garota que é meio sushi ou algo assim.
O rosto dele se iluminou. Era um pouco esquisito vê-lo sorri.
— Legal! – respondeu Colin. – Falou!
— Te mando uma mensagem de texto com meu endereço – avisou ela.
— Beleza!
Daí saiu correndo, antes de ela ter tempo de mudar de ideia. Eu estava fora de mim. Não dava para acreditar na audácia dessa garota. Ela não estava nem aí para Colin! Só queria mostrar que ele já pertencia a ela!
Não queria que eu o tivesse!
Chip apareceu por trás de mim e pôs o braço ao redor dos meus ombros. Pulei de susto.
Estava tão concentrada na historinha que se desenrolava na minha frente que nem vi quando chegou.
— E aí?
— Oi, Chip – disse Jennifer, ainda no modo sedutor.
Abracei a cintura de Chip e o puxei para mais perto.
— Eca, arrumem um quarto – disse ela, depois se afastou. Meus ombros se afundaram de alivio.
— Batendo papo com seu “amigo” Colin Gray de novo? – perguntou Chip.
— Não, ele só tava convidando Jennifer pra sair.
Chip pareceu aliviado, o que fez meu coração dar um salto. Ele me amava de verdade. Jennifer não conseguiria roubar Chip de mim. Eu o apertei.
— Você vem hoje à noite? – quis saber ele.
— Com certeza, vai ser legal.
— Comprei camisinhas no SuperTarget – sussurrou ele, todo orgulhoso.
Ergui a sobrancelha.
– Hã... não que isso tenha alguma coisa a ver com o fato de você vir hoje à noite.
Lóóóógico, Chip. Mas tudo bem. Desde que ele só as comprasse para mim.
Naquela noite eu me balançava no colchão de água de Chip, rolando suavemente com as ondas. O quarto dele era muito aconchegante. Eu me sentia segura ali. As paredes tinham revestimento de madeira... bom, revestimento de madeira falso. Ele havia pendurado pôsteres de bandas de rock em todo canto. Eu me recostei na cabeceira de veludo cotelê marrom e atirei languidamente um dardo na mira. Chip inclinou-se na direção da parede e pôs um daqueles aromatizadores na tomada.
— É pra criar um clima - explicou ele. - O nome é Joia de Jasmim.
Depois ele se aproximou e me beijou, fazendo o colchão me balançar tanto que atingi seu nariz. Ajeitei a posição e voltei a beijá-lo.
— Minha mãe tem uns aromas especiais, também, se você estiver interessada.
— Não - respondi. - Esse tá bom.
Não demorou muito para Chip ficar sem camiseta e eu só com meu sutiã branco simples. Ele sacou uma camisinha laranja fluorescente. Olhei para a embalagem.
— Turbilhão de Sensação? - li no invólucro.
— Diz aí que faz a garota sentir mais prazer - respondeu ele, acanhado. Ele era um doce...
— Legal - disse eu, e voltei a beijá-lo.
À medida que as coisas foram avançando (não vou contar todos os detalhes! Isso é
particular!), comecei a me sentir muito esquisita. Era como se eu sentisse fome dele, mas não era uma fome boa, sensual. Era uma coisa meio feroz; eu me senti meio violenta, algo assim.
Era como se eu estivesse possuída por outra pessoa. Eu o agarrei com tanta força que meus dedos afundaram na sua pele e comecei a chorar. Eu me sentia completamente controlada por outra pessoa.
Do nada, puxei Chip para perto e mordi-lhe o ombro. Com força, Ele estremeceu e se afastou.— Que foi? Tô te machucando? - perguntou ele, preocupado.
Comecei a soluçar. Depois a gemer. Era como uma experiência fora do corpo. Eu não fazia idéia do que estava acontecendo comigo e não conseguia me controlar. Comecei a ver coisas.
Gosma preta descendo pelas paredes, entrando pelas janelas, com espinhos crescendo.
Caveiras, demônios... era como a pior espécie de viagem de ácido que se poderia ter. Quer dizer, acho que era. Nunca tomei ácido. Enfim, eu estava assistindo ao meu próprio filme de terror. Vi gente queimando viva. Então gritei. Esfreguei os olhos freneticamente e Chip começou a me sacudir.
— Needy, o que tá acontecendo?
Eu continuava gritando. Estava ficando sem voz, e meus gritos, roucos e falhos. Saí com
dificuldade da cama e comecei a vestir minhas roupas. Tive a sensação de que estava tendo um derrame e pus as mãos na minha garganta.
A essa altura Chip já estava bem preocupado.
— Foi algo que eu fiz? - perguntou ele, - Você precisa de mais preliminares?
O pobre rapaz achava que era ele que estava me fazendo mal. Então a verdade me atingiu de uma só vez: era ela.
Andei até a porta.
— Needy! - gritou ele.
— Preciso ir - falei com voz áspera. Parecia a voz de uma fumante de oitenta anos que morava em uma casa com vinte gatos. - Desculpe, tô sentindo que alguma coisa... alguma coisa horrível...
— Sentindo...? - Chip parecia completamente perdido, - O que isso quer dizer, afinal? A gente não precisa continuar. Ei, tô preocupado com você!
Ele se inclinou na minha direção e começou a sair da cama. Ergui a mão para interrompê-lo.
— Foi mal, Chip. Desculpe mesmo. Tá tudo errado.
Saí do quarto, deixando o pobre rapaz nu.
Pulei para dentro do carrinho importado minúsculo da minha mãe e bati a porta. Minha mão tremia tanto que era difícil conseguir dar a partida. Finalmente consegui fazer o motor funcionar e o rádio ganhou vida, bem alto. Aquela música maldita estava tocando de novo!
Que nós vamos nos reencontrar...
Bati no painel com os punhos fechados.
— Meleca! Meleca e mais meleca! - gritei.
Estava histérica e não deveria dirigir para lugar nenhum, mas engatei a primeira, pisei no acelerador e saí guinchando do meio-fio.
A rua estava completamente escura. As árvores se iluminavam com os faróis do meu carro à medida que eu seguia a toda, descuidadamente, pela estrada. Enxuguei as lágrimas dos olhos e respirei fundo. Tentei me concentrar nas faixas de sinalização da estrada e ficar entre elas. Algo brilhante de repente surgiu das sombras e a imagem se cauterizou em meu cérebro, À direita, sob as árvores, saiu uma figura que andou até o meio-fio. Era Jennifer, pálida, de blusinha branca e jeans... com sangue descendo pelo queixo e pelo peito. Ela me deu um sorriso vampiresco. Gritei e virei o volante para a esquerda, fazendo o carro derrapar para fora da estrada. A parte de trás rodopiou e caiu em um buraco. Pisei no acelerador, tentando sair, e me arrisquei a olhar pelo espelho do pára-brisa para a estrada. Nem sinal dela.
Comecei a suar de pânico, Que diabo eu tinha acabado de ver? Era real? Pisei de novo no acelerador. O motor acelerou, mas os pneus rodaram em falso na terra. Mudei para o ponto morto, lembrando que alguém tinha me dito para fazer isso no caso de alguma emergência com o carro, mas nada aconteceu. Voltei a engatar a primeira e olhei para cima, bem na hora de ter o maior ataque do coração na minha vida.
A estrada vazia cintilava ao luar. Tudo estava meio úmido e enevoado. Um borrão apareceu do nada, era Jennifer voando na direção do parabrisa como uma espécie de morcego gigante maluco ou de criatura metade mariposa, metade mulher. Os braços dela estavam abertos e sua boca escancarada em um grito. Com um tum sísmico, ela bateu no para-brisa, despedaçando o vidro. Então se agachou ali, apoiada sobre as mãos, e sorriu para mim através da teia de aranha formada pelas rachaduras. Sorriu com os dentes ensangüentados. Ela era um espírito maligno, uma harpia, um morcego saído do inferno. Era qualquer coisa, menos uma garota de 17 anos.
Ouvi um alarme soar a distância... então percebi que era a minha própria voz, gritando de terror. Os pneus finalmente tocaram o chão com um sobressalto e o carro foi lançado para fora do buraco. Jennifer caiu sobre a estrada. Saí a toda velocidade, sem olhar para trás.
Tremia tanto que o carro não parava de chacoalhar para a frente e para trás.
O rádio tinha ficado ligado o tempo inteiro.
— Isso foi, é claro, Low Shoulder. Eles vão tocar em um show beneficente em Devil’s Kettle no
mês que vem. Isso é que é retribuir à comunidade! Rapazes generosos, vou contar para vocês.
Alguém precisava assassinar aquele DJ. Sério.

Nenhum comentário:

Postar um comentário