Sou Needy. Quer dizer, é assim que as pessoas me chamam. É só um apelido, tipo Barbie ou
Betty. Meu nome mesmo é Anita, mas faz anos que ninguém me chama assim. Jennifer
sempre me chamou de Needy para facilitar as coisas e todo mundo foi na onda.
Ser chamada de Needy, “necessitada” não diz muito nem sobre o meu destino, nem sobre o
que aconteceu, como se poderia achar. Eu não acredito que necessito de alguma coisa... a não
ser de vingança. É, um pouco mais de vingança seria ótimo.
Porém, por enquanto, só estou aqui sentada no meu quarto - minha cela -, enrolando dois
galhos em lã laranja, fazendo um daqueles amuletos Olho de Deus, como no jardim de
infância. Minhas habilidades com artesanato obviamente melhoraram muito em 17 anos.
Mas não há muito mais o que fazer por aqui. Só tem uma cama com um travesseiro e um
cobertor que dá coceira, uma coisa meio cômoda, meio escrivaninha com duas gavetas, e uma
janela gradeada. Não faz sentido olhar por ela; já sei que em frente existe uma cerca de três
metros de altura com arame farpado por cima. Aqui não é bem como uma prisão... é quase
um reformatório, uma lata de segurança mínima para lunáticos. Eles dopam a gente com
medicamentos e, se alguma garota fizer qualquer coisa bem louca, eles a atiram na solitária.
Como dizem os jornais, estou na Casa de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Feminina de
Leech Lake, que quer dizer “lago de sanguessugas”. E é verdade, o lago está mesmo cheio de
sanguessugas. Nojo total.
Quando não consigo mais suportar meus próprios pensamentos, leio a correspondência.
Recebo um monte: cartas, pacotes, fotos, calcinhas. Acho que recebo mais carta do que o
Papai Noel e o Zac Efron juntos.
Bem... eu sou demais.Às vezes as cartas são de gente que diz estar rezando por mim. Dizem que tudo vai ficar bem
se eu simplesmente aceitar Jesus Cristo no meu coração. Tento rezar em voz alta, mas nunca
acontece nada. Ninguém volta. Ninguém sai da cruz. Não sei... Acho que talvez eu devesse ter
frequentado a igreja antes.
De vez em quando recebo presentes de fracassados que viram minha foto no jornal e querem
se casar comigo, ou algo assim. Acham que podem me libertar de todo esse sofrimento. Como
se eu fosse sair com algum pervertido que sente tesão só de pensar em corromper menores!
Dá um tempo! Posso ser maluca, mas desesperada eu não sou.
Coloquei a foto de Chip na cômoda. Você poderia achar que eu nem aguentaria olhar para ela.
Mas não: é o contrário. Olho para ela todos os dias, tentando esquecer a última vez em que o
vi, com as costelas à mostra, o braço arrancado e os intestinos caídos pelo chão...
Alguém bate à porta. Raymundo enfia a cabeça para dentro e diz que o horário da recreação
começou há cinco minutos. Se liga, Raymundo. Ele põe meus comprimidos sobre a cômoda e
fecha a porta. Não tenho necessidade de sentir nada, por isso sempre tomo meus remedirmos.
Eles meio que dão uma aliviada.
Ao tirar as calças do pijama para vestir a roupa de ginástica, vejo as cicatrizes. Eu meio que
gosto da aparência... Elas me dão um quê de perigosa. Por um minuto, passo o dedo e sinto as linhas inchadas que marcam minhas coxas. Foi uma briga daquelas.
Ponho o short de ginástica, depois minhas pantufas de coelhinho. Não ria! Acho que elas são
bonitinhas. E, seja como for, eles dão uma levantada na camiseta laranja e nas calças
paraquedista que são a última moda por aqui.
Eles realmente deixam a gente sair para correr e soltar nossas loucuras. Tocam ópera no
sistema de alto-falantes nas quadras de badminton. As garotas mais estranhas daqui são as que
jogam badminton. No meio de uma partida, uma beldade desdentada me dá um sorriso que é
só gengivas, antes de acertar uma raquetada na perna da colega. Do outro lado da rede, outra
mulher de dar pena e que obviamente não sabe como se joga aquilo, está batendo a raquete na
parede. Os monitores só observam, sorrindo como idiotas.
Bem-vindos às Olimpíadas de Dementes. Aqui em Leech Lake eles são ótimos em recreação.
Supostamente isso ajuda nós, os pacientes, a liberar a agressividade. Trocamos as
machadinhas pelas raquetes. Aquelas fracassadas no canto trocaram as bombas caseiras por
pular corda. Até as adeptas de automutilação entram na onda quando estão conscientes. Os
curativos de uma garota tremulam no ar a cada vez que ela pula a corda.
Eu, pessoalmente, acho que esses caras estão só tentando cansar a gente. Se nos deixarem
sempre letárgicas, não vai haver revolta. Só que comigo não funcionam essas táticas de
calouros. Sou uma atacante. É o que está escrito na minha ficha com caneta vermelha e depois
destacado com marca-texto: ATACANTE. Quando fui ao médico, dei uma olhada em
algumas das outras coisas que estão na minha ficha. Embaixo de ANITA “NEEDY” LESNICK
está escrito: alucinações e ideias de grandeza. Pelo jeito, sou maluca. O assassinato na verdade
não foi minha culpa. Foi o que minha mãe disse. E enfim, se eu tivesse mesmo ideias de
grandeza, não estaria então tentando arrumar umas fãs por aqui? E me tornar a líder de um
culto? Eu bem que poderia, sabe. É só contar certas coisas que eu já vi, o banho de sangue que
vivi... Elas me idolatrariam em um piscar de olhos. Mas eu busco só ficar invisível. Nem
sempre funciona.
Na hora do almoço, todo mundo tem uma amiga com quem se sentar. Até Desdentada tem
uma amiga. Mas eu, eu agarro uma bandeja de metal e vou me sentar sozinha com meu
sanduíche de micro-ondas.
Por mais que eu me esforce, nunca consigo ficar invisível. Nunca me deixam em paz. Hoje é a
vez da nutricionista, Ela vem direto até mim, como se estivesse esperando eu comer meu
sanduíche sozinha.
— Só um, hein? - diz ela.
— Eu gosto disso.
Essa sou eu, sendo invisível e sem provocar discussão. Só esperando a outra ir embora.
— Que bom - diz ela -, mas não sei se só um sanduíche será capaz de fornecer energia
suficiente para o seu dia. Eu recomendaria mais carboidratos complexos.
Não sei por quê, talvez porque ela esteja me dizendo o que fazer, ou porque ela é feia, ou
porque sua voz parece um prego riscando um quadro-negro, mas, seja lá o que for, eu surto.
Piro. Ultimamente acontece bastante,
— EU RECOMENDARIA QUE VOCÊ CALASSE A BOCA! - grito, enquanto me levanto de
repente, viro a perna e acerto um chute circular rápido no rosto dela. Ainda me surpreendo ao ver o quanto sou rápida.
A vadia da nutricionista cai de joelhos e seu nariz quebrado sangra. Todo mundo começa a
dar gritinhos. Dois enfermeiros vêm e me agarram pelos braços. Luto com eles por tempo o
bastante para conseguir dar uma escarrada no olho da nutricionista. É tudo culpa dessa
maldita. São necessários mais dois enfermeiros para me arrastar pelo corredor, gritando -
quatro armários para derrotar essa baixinha aqui. Olho pra trás, para ela, uma única vez, bem
a tempo de vê-la cuspir fora um dente.
Acabo na solitária, claro. Chorando. Acho que é melhor mesmo para mim ficar aqui. Já não
me reconheço mais. Eu não era assim maluca, juro. Nunca machucaria ninguém. Eu
costumava ser normal.. Bem, tão normal quanto qualquer garota sob a influência dos
hormônios da adolescência. Mas, depois que os assassinatos começaram, passei a me sentir,
não sei, meio desparafusada ou algo do tipo. Desmanchando como aquela calça jeans que fiz
na aula de economia doméstica. Despedaçada como frango xadrez. Morta por dentro.
É, na minha escola ainda dão aula de economia doméstica.
Essa não é a primeira vez que vou parar na solitária. Nem a solitária é tão ruim quanto se
imagina. A cela de concreto tem na verdade um tamanho decente; posso ficar deitada de
costas e me esticar, se eu quiser. Bem lá em cima, perto do teto, existe uma janelinha. Daria
para sair engatinhando por ela, se alguém fosse capaz de magicamente dar um salto de cinco
metros de altura.
Quando estou presa aqui, tento dormir, mas é pior do que ficar acordada. Meus sonhos não
são uma fuga. Vejo formas esquisitas, caveiras sorridentes, rostos carcomidos. E o tempo
inteiro ouço aquela música, em uma repetição infinita. Assim que fecho os olhos, aquele
sucesso idiota do Top 40 começa a tocar e a bateria tatua uma batida no meu cérebro.
Através das árvores vou achar você,
Curar os destroços que restaram em você.
E as estrelas irão lembrar a você
Que nós vamos nos reencontrar...
Essa música é muito mala.
Para matar o tempo, repasso os acontecimentos na minha cabeça. Uma, duas, três, mil vezes.
A história toda faz sentido? Não. Aconteceu de verdade? Sim. Alguém um dia vai acreditar em
mim? Ao que tudo indica, não.
Acho que você quer ouvir a história. Acho que eu quero contá-la, senão não estaria aqui
matraqueando por tanto tempo. Contar vai me impedir de ficar sonhando acordada.
Mas, primeiro, quero deixar uma coisa bem clara. Muita gente pergunta se eu me arrependo
de ter feito o que eu fiz.
A única coisa de que me arrependo é de não ter feito antes.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
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