Placa diz: BEM-VINDO A DEVIL’S KETTLE, A “CHALEIRA DO DIABO”. POP. 7.036.
VENHA VER O QUE ESTÁ FERVENDO! Sério... diz isso mesmo. Uma escola, uma pizzaria,
um semáforo e um monte de mata ao redor: basicamente os fundos de Lugar Nenhum,
Minnesota. Foi aqui que tudo aconteceu.
Eu sei que "Chaleira do Diabo" soa meio como magia negra, mas o lugar ganhou esse nome
por causa de uma cachoeira. Tecnicamente, nem é uma cachoeira normal. Em vez de
despencar em um riacho ou córrego, a água cai em um buraco e de lá não sai mais. Não existe
uma fonte a mais de um quilômetro de distância ou coisa assim: a água simplesmente some.
Os cientistas não conseguem explicar. Já lançaram todo tipo de coisa lá dentro - aquelas
bolinhas que quicam, tinta vermelha, lama radioativa, bebês... Ahá, agora peguei você! Essa
dos bebês foi brincadeira. Cara, que tipo de cidade você acha que é essa? Enfim, nenhum dos
trecos que jogaram lá dentro jamais veio à tona. Talvez tenham ido parar em outra dimensão.
Ou talvez o buraco seja, você sabe... fundo de verdade.
Acho que você está a fim de ouvir a história da Jennifer; é o que todo mundo sempre quer.
Uma garota tão bonita, dizem, partir antes do tempo assim. Era líder de torcida, sabe. Porém,
acredite, a vadia teve o que mereceu.
Perto do fim, seu corpo tinha uma aparência horrível, todo decomposto e amarelo. Mas, alguns meses atrás, Jen ainda era a coisa mais linda deste lado daquela coisa do buraco fundo.
Jennifer; eu; meu namorado, Chip... Éramos todos normais. Correspondíamos às nossas fotos
no anuário da escola: nada mais, nada menos. Jennifer, a líder de torcida; Needy, a CDF; Chip,
o baterista fofo.
Tem gente que tenta me convencer de que Chip Dove era um péssimo baterista, que era só um
nerd fracassado, mas eu nem escuto. Para mim, tudo nele era musical.
Tá bom, certo, tudo bem. Eu sabia que ele não sabia tocar nada na bateria. Ele só sabia "Land
of a Thousand Dances" - uma dessas músicas velhas sentimentaloides com a letra cheia de
nã-nã-nãs. Para sorte dele, porém, tocar na banda da Kettle High não era algo que exigia
muito. Ele descia a mão no tambor.
As meninas da torcida apareciam em seus uniformes roxo e amarelo-mostarda, batendo as
botinhas brancas em um ritmo mais perfeito do que a batida do tambor de Chip, depois
desdobravam as bandeiras para dar alguns volteios. E, lá na frente, senhoras e senhores, estava
Jennifer Check. Ela era linda. Cabelo castanho brilhante esvoaçante, peitões, cinturinha... O
pacote completo. Difícil acreditar que estava no ensino médio. Parecia que tinha acabado de
sair de uma das páginas duplas da Playboy. Essas apresentações antes dos jogos aconteciam
com muita frequência (eu às vezes me perguntava se isso não seria só uma desculpa para ver
Jennifer em sua superminissaia plissada dando voltas na bandeira). Naquela época a gente era
grudada, praticamente irmãs. As pessoas custavam a acreditar que uma beldade como Jennifer
pudesse ser amiga de uma débil como eu. Eu usava óculos de nerd e meu cabelo nunca viu um
secador na vida. Mas éramos as Supergêmeas desde a época pré-verbal. O amor que se sela na
caixa de areia nunca morre. Bom, pelo menos é o que eu costumava pensar.
Era fevereiro, uma quinta, e a escola inteira estava na apresentação, Jen acenou para a plateia e
eu acenei de volta. Uma garota da nossa aula de biologia, Chastity, estava ao meu lado nos
bancos do ginásio e revirou os olhos para mim.
— Você é lésbica.
— Quê? - perguntei na defensiva, - Ela é minha melhor amiga.
Chastity imitou meu aceno.
— Você a olha como se quisesse se esfregar com ela. Tipo sexo sem penetração.
— Tá com inveja? - atirei, enquanto coçava o nariz por baixo dos meus óculos.
— Do quê? Daquela vadiazinha cheia da grana?
— Ela não é cheia da grana - respondi. A coitada da Jennifer Check estava longe de ser rica, a
menos que se medisse a riqueza pelas marcas na cabeceira da cama. Bom, marcas figurativas:
ela não marcaria de verdade sua cama de dossel.
Mais tarde, eu estava escavando um livro em meu armário azul de metal quando Jennifer
chegou saltitante para checar o cabelo no meu espelho magnético.
— E aí, Vodol? - sorriu ela.
— E aí, Vagisil?
Era minha resposta padrão.
Jennifer desviou o olhar para ver o rei do esporte, Jonas Kozelle, beliscar a bunda de alguma
garota. Seu nariz perfeito se retorceu de nojo. Ela já havia passado da Fase dos garotões do
esporte e entrado na dos homens mais velhos havia muito tempo.
— Nós duas vamos sair hoje à noite - disse ela, arregaçando as mangas do suéter rosa cortado.
A camiseta colada listrada de rosa e branco se ergueu, mostrando sua barriga reta.
— Hoje? Pra onde?
— O Low Shoulder vai tocar no Melody Lane. Pela primeira vez na vida o show está liberado
pra todas as idades, ou seja, a gente não vai ter de entrar escondido pela janelinha.
Apesar de Chip ser músico, eu não acompanhava bandas.
— O que é o Low Shoulder? - perguntei.
— Uma banda de indie rock de fora da cidade. Dei uma olhada no MySpace e o vocalista é
ultrassalgado. E vai ter um monte de outros petiscos salgadinhos lá pra você. Vamos, Needy! É
fim de semana!
— É quinta-feira - corrigi, batendo a porta do armário.
— Quinta conta como fim de semana na faculdade. E daqui a um ano e meio a gente vai estar
na faculdade.
Ela sorriu. Nós duas mal podíamos esperar pra dar o fora dessa cidade - juntas. A gente tinha
planejado ser BFF por toda a eternidade.
Dei um soco no ar.
— University of Northern Minnesota, Duluth! U-hu!
— Bom... e aí? - Ela fingiu perguntar. Em geral não tinha discussão. Ela liderava; eu seguia.
— Humm, não vai dar.
Olhei pro lado, tentando ser forte. Ela me rodeou até me encarar com aqueles olhos redondos
de filhotinho.
— Ai, para de ser chata.
— Prometi sair com o Chip hoje. Só nós dois - expliquei.
Jennifer fez beicinho e desenhou um X no ar na frente do meu rosto.
— Buuu! Needy tá fora.
Olhei em volta, para ver se alguém tinha notado. Odiava quando ela fazia aquilo em público.
Mas também odiava lhe dizer não. Eu realmente só queria ficar em casa com o Chip e me
sentia mal toda vez que cancelava algo com ele, mas sabia que, no fim, Jennifer conseguiria me
dobrar.
Decidi cortar aquela perseguição. Dei de ombros e me rendi.
— A que horas é o show? - perguntei.
— Passo pra te pegar às 20h30. Minha mãe vai sair com o dono da loja de presunto, por isso
não vai precisar do carro.
— Ele parece ser um cara legal.
Ela deu um sorrisinho.
— É, minha mãe diz que ele tem um enoooooorme... coração. Tão enorme que agora ela anda
com uma infecção urinária recorrente.
Eca.
Ela se virou para ir embora, mas gritou por cima do ombro:
— Vista algo bacana, ok?
— Ok - suspirei para mim mesma enquanto ela se afastava.
No vocabulário de Jennifer, “vista algo bacana” significava algo bastante específico. Significava
que eu não podia parecer um zero à esquerda, mas também não podia superá-la. Podia
mostrar a barriga, mas nada de decote. Lembra toda aquela besteirada que contei antes, sobre
os peitos dela? Eu estava sendo boazinha. Na verdade, eu é que tenho os peitões, mas sempre
tive de escondê-los para que Jennifer não sentisse sua posição de gatinha gostosa número um
ameaçada. Ela era sempre o alvo maior dos elogios quando a gente saía - ninguém colocava
Jenny pra escanteio.
Posando na frente do espelho encardido do meu banheiro, experimentei algumas blusinhas e
descartei todas. Decotada demais, laranja demais, surrada demais. Por fim, escolhi uma baby
look preta básica com capuz cinza e dobrei meu jeans um pouquinho na altura dos quadris.
Chip estava esperando, deitado espalhado na minha cama. Era bom tê-lo por perto enquanto
eu me arrumava. Era bom ter alguém prestando atenção em mim e não em Jennifer, para
variar. Chip e eu começamos a namorar há mais ou menos um ano. Ele me convidou para sair
depois de um jogo em que houve apresentação da banda da escola. Fiquei tão espantada que
só consegui ficar parada olhando para ele. Jennifer disse sim por mim e depois parou de fingir
que ele não existia. Então, de um jeito estranho, eu meio que lhe devo uma. Não que ela me
deixe ficar muito tempo com ele.
Quando saí do banheiro, ele ergueu a sobrancelha.
— Esse jeans aí tá ultrabaixo. Tô quase vendo sua virilha.
— Chip! É um show de rock. Esse é meu visual roqueiro.
— Tá, mas sabe o que é, tô vendo seu útero.
Suspirei e subi as calças, enquanto ele não parava de falar.
— Nunca ouvi falar desse Low Shoulder. De qual dos caras a Jennifer tá atrás?
— Do vocalista e líder da banda, óbvio - respondi, enquanto apanhava uma escova e começava
a passá-la pelos nós de meu cabelo loiro cinzento. Em geral eu só afastava um pouco de cabelo
do rosto com um elástico de cabelo. Ele é pesado demais para eu conseguir prendê-lo inteiro
com um elástico.
— Garotas como Jennifer não saem com bateristas.
— Valeu - disse ele, fingindo estar magoado.
— Sem querer ofender - falei. - Quer dizer, ela provavelmente abriria uma exceção no caso de
um baterista que também fosse vocalista e líder da banda. Esse cara aí tem uns 22 anos, por
isso pode acabar preso se transar com ela. Mas Jennifer disse que ele é ultrassalgado, então...
— Salgado? Vocês duas nunca vão parar com essa linguagem secreta?
— Salgado quer dizer “lindo” - expliquei, enquanto Chip me agarrava pela cintura e me
puxava para a cama. Ele acariciou minha orelha com o nariz.
— Então você deve ser molho shoyu, baby - disse ele. Depois me beijou. Seus lábios eram
macios e eu retribuí o beijo. O cabelo castanho dele fez cócegas em meu nariz. Ele o usava
meio comprido, mas não demais. Só o bastante para eu ter de afastá-lo dos olhos dele às vezes.
Sinto falta de transar com Chip. Era o paraíso. Pelo menos a melhor coisa que senti na vida, já
que nunca beijei ninguém nem antes nem depois. Ele mordiscou meu lábio e começou a
desafivelar o cinto.
Culpada por ter de deixá-lo sozinho, tentei falar enquanto ele me mordiscava.
— Tem certeza de que não quer ir ao Melody Lane com a gente? Agora eles dão pipoca de
graça. Tem um carrinho de pipoca lá.
O cinto já estava desafivelado e agora ele estava às voltas com o zíper.
— Você prometeu que a gente ia ficar junto hoje - balbuciou. - Aluguei Orca, a baleia
assassina. É tipo Tubarão, só que com uma baleia inofensiva.
— A gente fica junto em casa o tempo todo. No quesito ficar juntos, estamos extremamente
bem... Peraí,
Parei e o empurrei para longe, para que eu pudesse me sentar. Eu era como um perdigueiro
farejando uma raposa.
— Jennifer tá aqui - falei.
— Como você sabe? - perguntou ele, tentando me agarrar de novo. Então nós dois a
escutamos lá embaixo.
— Needy, pare de brincar com o absorvente interno e desça agora mesmo!
Chip pareceu assustado.
— Isso é muito estranho - murmurou para si mesmo. Eu me levantei e terminei de escovar o
cabelo. Chip nunca entendeu a ligação que existia entre mim e Jennifer. Éramos uma
irmandade sagrada, - Você sempre faz o que Jennifer te diz pra fazer - reclamou, enquanto
ajeitava as calças. Bom, talvez ele entendesse nossa relação mais do que eu achava que
entendia. É um caso a se pensar.
— Não faço, não - retruquei, negando o óbvio. - Só gosto de fazer as mesmas coisas que ela, só
isso. A gente tem coisas em comum. É por isso que a gente é BFF.
Puxei a corrente com pingente em forma de coração de baixo da camiseta e a ergui para que ele a visse. Tinha gravado BFF e tinha um brilhantezinho falso. Para ser sincera, eu achava
mesmo que tinha vontade de fazer as mesmas coisas que ela.
Ele simplesmente bufou:
— Vocês duas não têm nada em comum.
Agora fiquei puta da vida.
— Tá, tudo bem, Chip. Deixa pra lá.
Coloquei os óculos e saí do quarto pisando forte. Desci as escadas e vi Jennifer esperando na
porta da frente.
Estava usando uma tonelada de maquiagem e quase nada além disso. Uma roupa padrão para
uma saída ao Melody Lane. Bem, tá certo: além da baby look roxa rasgada e da minissaia jeans,
estava também com a jaqueta branca acolchoada que tinha gola de pelo falso. Era uma graça!
Sempre quis aquela jaqueta... Pelo menos até ela ficar coberta de sangue. Jennifer havia
arrematado o visual com um cinto que trazia escrita com tachas a palavra LOVE.
Ela balançou as chaves do carro na minha frente:
— Adivinhe só quem vai ser dona de um carrão até as 23h30? Um Chrysler Sebring 2003, e ele
é todinho meu! Você tem sorte de poder sair comigo em grande estilo!
Ela deu um meio giro com o quadril. Aí parou quando Chip desceu as escadas atrás de mim.
— Ah, oi, Chip - cumprimentou ela. - Gosta de filhotinhos?
Jennifer agarrou seus próprios peitos e os atirou na direção de Chip com uma risadinha.
— Acho que você esqueceu, tipo, uns dois botões - disse Chip, corajosamente tentando não
olhar, mas sem conseguir se conter.
— Acho que ela se lembrou de dois botões - retruquei, enquanto me metia na frente de
Jennifer para barrar a visão dele.
Ela cheirou o ar ao meu redor.
— Vocês dois estavam transando?
— Você é nojenta! - gritei. Empurrei-a para longe e ela me empurrou de volta. Lutamos um
pouco, e os peitos de Jennifer quase saíram da blusa. Quando vi Chip olhando, parei na hora.
— Tá bom, vamos logo pra boate - disse ela, depois de restabelecer sua superioridade como
ímã de garotos.
Enquanto eu trancava a porta da frente, Chip tentou arrumar briga.
— Melody Lane não é uma boate, é um bar - disse ele. - Na verdade, nem chega a ser bar. É
tipo um bingo com serpentina de chope.
— Dá um tempo, Chip. Você só tá com ciuminho porque não foi convidado - disse Jennifer.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
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