Chip tinha razão. Melody Lane Tavern definitivamente não é uma boate. Boates são para
gente bonita das metrópoles. Boates tem DJs e champanhe. Tudo o que tem em Melody Lane
é uma jukebox quebrada e a Privada do Sticker.
A placa de néon piscava falhando quando atravessamos o estacionamento coberto de cascalho
para chegar até a porta de entrada. O lugar era basicamente uma cabana de madeira caindo
aos pedaços decorada com calotas, localizada na saída da cidade. O cara na porta desenhou Xs
pretos gigantescos nas costas das nossas mãos. Jennifer olhou o dela com desgosto. Não
gostava de ser riscada de nada.
O interior estava em penumbras. Vimos o bartender passar uma caixa de cerveja pelo balcão
para um cara de camiseta rasgada.
– Mal posso esperar até ter idade pra ficar bêbada – disse Jennifer. – Já tomou cidra sabor de
pêssego?
– Já, foi demais – menti.
– É nojento! – contestou ela. Depois se encolheu um pouco quando um dos jogadores de
futebol americano da escola entrou, encarando os peitos dela.
– Oi, Jennifer. Você ta bonita – disse ele.
– E aí, Craig.
Jennifer revirou os olhos. Depois que ele se afastou o suficiente, ela me cutucou e disse:
– Ele acha que é bom o bastante pra mim. Não admira que esse cara esteja na turma de
matemática para retardados.
– É – concordei, distraída. Ao olhar em volta, reconheci um garoto da escola. – Ei, é Ahmet,
da Índia! O aluno de intercâmbio!
Os olhos de Jennifer acompanharam a direção dos meus e se enrugaram de irritação.
– Por que chamaram esse garoto de novo? – perguntou ela.
– Acho que o diretor Lunquist pensou que seria bom pra, você sabe... diversidade.
Ela revirou os olhos.
– Não acredito que a gente trocou um jogador de hóquei gostoso por isso.
Dei de ombros.
– Ah, sei lá, ele parece OK – argumentei. – E tem uma estátua sensacional de elefante no
armário da escola.
Eu andava planejando pesquisar sobre aquela estátua. Tinha quase certeza que era algo
religioso. Não deve ser demais ir à igreja cultua elefantes? Eu me sentia empolgada, pois o
simples fato de Ahmet existir fazia tudo parecer multicultural.
Fomos para o fundo da casa noturna e nos aproximamos do palco. Bom, acho que a
plataforma seria um termo melhor. O lugar para a apresentação só era cerca de vinte
centímetros de altura mais alto do que o resto da boate. O lugar estava lotado, mas a maioria
das pessoas era freqüentadora regular. A banda não tinha atraído muita gente diferente, além
de nós e de Ahmet.
Jennifer sacou um maço de cigarros da saia jeans. Depois tirou devagar um cigarro e o ergueu entre dois dedos, como se estivesse esperando alguém vir acendê-lo. Não me preocupei muito
com os pulmões dela, nem com os meus riscos de fumante passiva. Ela fazia aquilo o tempo todo para atrair os homens e raramente ultrapassava a marca de um cigarro antes de acabar se
agarrando com algum cara.
Dito e feito. Roman Duda, com boné camuflado, veio andando como quem não quer nada e se plantou um pouco perto demais de Jen. O cara tinha tipo uns 25 anos. Era nojento. Bebeu um gole enorme de uma garrafa de cerveja e depois arrancou o maço de cigarros das mãos dela.
– Jennifer, você tem 17 anos – repreendeu ele. – Seus pulmões são como duas costeletas de cordeiro perfeitamente rosadas, não os polua com esse lixo.
Ela respondeu colocando o cigarro que estava segurando entre os lábios e apertando-os na direção dele, que também o arrancou.
– Sabe que eu podia te prender por estar com isso?
– Me prender? Ai, ai. Você nem saiu da academia, Roman!
Ah, sim, eu mencionei que esse verdadeiro exemplo de humanidade estava na academia depolicia? Logo, logo, iria proteger a gente de bem de Devil’s Kettle. Eu duvidava que ele fosse
capaz de proteger um rato de um gato. Ou uma adolescente com tesão demais de si mesma.
– Dois meses – rouquejou ele. – Daí vou estar na força pra valer.
Jennifer inclinou-se e sussurrou:
– Você vai me algemar?
Depois se esfregou nele. Olhei pro lado. Sabia que ela já tinha ido pra cama com aquele cara,
mas tentei não pensar nisso. Não sou puritana, mas a coisa toda tava me dando nos nervos.
Roman gemeu um pouco e sussurrou de volta:
– Não faça isso aqui. Não posso arrumar encrenca.
– Olhem! – gritei, apontando para uma distração conveniente. – A banda!
Eles eram os típicos aspirantes a roqueiros alternativos. Eram tão magros que dava para
contar seus ossos. Não lavavam o cabelo havia semanas, talvez desde o inicio da turnê, e todos vestiam jeans rasgados ou calças cargo com a camiseta coladas ao corpo.
O líder da banda, porém era definitivamente salgado. Usava uma camiseta marrom sobre uma camisa branca de mangas compridas. Seus jeans eram ultracolados e ele tinha olhos enormes e intensos, como poças de tinta. Parecia... perigoso.
Ao meu lado, Jennifer pelo jeito achava a mesma coisa.
– Dá pra ver que são de fora.
Ela acenou na direção do resto da platéia, que era formada na maioria pelos bons e velhos garotos meio valentões com botas de caubói e metidos em jeans surrados.
Roman olhou a banda com desconfiança.
– Eles parecem um bando de...
– É lógico que você diria isso – cortou Jennifer. – Você é tão mosca morta. Que bom seria se a gente tivesse mais caras como esses em Devil’s Kettle. Todos estilosos e tal.
Eu ainda os estava encarando.
– Eles são tão maneiros – murmurei, ajeitava meus óculos.
Observei o guitarrista tirar a guitarra brilhante do case. Ele olhou para cima e seus olhos se encontraram com os meus. Lambeu os lábios. Congelei e engoli em seco.
– Ei, acho que eles tão precisando de duas groupies – disse Jennifer, agarrando meu braço. – Vamos! Vai ser igual a Quase famosos! Eu vou ser a Penny Lane e você pode ser aquela outra
garota.
– Não! – falei, automaticamente. Sentia dificuldades para respirar.
– Não seja nerd, Needy. Eles são só garotos. Petiscos. Nós é que temos o poder. – Ela me girou
e me encarou fundo nos olhos. – Você não sabe disso? – Depois colocou as mãos no meu peito. Essas coisas são como bombas inteligentes. É só apontar na direção certa que a coisa começa a rolar.
Eu estava bem consciente de que muitos homens ali perto estavam de olho nas mãos dela nos meus peitos, como se a gente fosse se agarrar a qualquer momento e eles não quisessem perder o showzinho. Dei de ombros e a afastei, mas sabia que ela tinha razão. Já a tinha visto conseguir muitas e muitas vezes o que queria só ostentando seus atributos. Mas eu não sabia fazer aquilo. Ela era ímã sexual; eu era só a Needy. Mesmo assim, quando ela andou até a beira do palco/plataforma, eu a segui.
O vocalista veio nos encontrar ali e olhou para Jennifer com expectativa. Aquilo não era novidade para ele.
– Oi! Hã, a gente queria muito conhecer vocês, e tal? Sou Jennifer Check e essa é... minha
amiga? – Jennifer piscava muito e entoava todas as frases como se fossem perguntas.
Ele não lançou exatamente um sorriso para ela, foi mais como se quisesse mostrar os dentes.
– Sou Nikolai, e essa é minha banda. – Ele apertou a Mao dela. Seus dedos tinham montes de anéis de prata pesados, e ele exibia uma tatuagem de lua negra no pescoço. Achei o nome dele demais. “Nikolai” parecia o nome de um caçador de vampiros gostoso de um filme que poderia passra de madrugada no Starz.
– Ah, ta, Low Shoulder, né? Ouvi dizer que vocês são super... superbons com seus
instrumentos.
Verdade seja dita, Jennifer tinha uma grande coisa a seu favor, e não era a aparência. Era a coragem. Era a garota mais corajosa que já conheci na vida. Capaz de abordar qualquer um e conseguir o que queria. Ela era assim. Não tinha muito o que dizer àquele cara, mas conseguiu soltar uma quantidade suficiente de palavras para fazê-lo notá-la. Depois, seus filhotinhos meio que selaram o acordo. Tá bom, então acho que ela tinha duas grandes coisas ao seu favor. Mas que Jennifer tinha cara de pau, isso tinha, sem dúvida.
– A guitarra é quase uma extensão do meu corpo a essa altura – disse Nikolai.
Finalmente pensei em algo para dizer.
– Ei, se não se importam com a pergunta, por que viram tocar em Devil’s Kettle? Vocês vivem em uma cidade grande, né?
Achei que era uma pergunta justa. Estávamos mesmo no fim de lugar nenhum.
Nikolai por fim voltou seus olhos negros para mim.
– É – respondeu ele. – Mas, sabe o que é, acho muito importante a gente se conectar com nossos fãs nos lugares de bosta também. Justo.
– Impressionante. Posso lhe pagar uma bebida? – perguntou Jennifer.
Tava na cara que ela queria avançar naquilo. Mas, sério: como ela iria comprar uma bebida? A gente tinha dois Xs enormes nas mãos. Estávamos no meio do mato, mas mesmo assim não serviam bebida a menores de idade.
– Eles fazem uma batida ótima em tributo ao 11 de Setembro. É vermelha, branca e azul, mas você tem de beber bem rápido, senão fica marrom – disse Jennifer.
Nikolai estremeceu um pouco.
– Hã... claro.
– Volto já.
Jennifer saltitou até o balcão. Eu meio que fui para um canto, para poder ficar de olho nela.
Seja como for, não sabia mesmo o que mais dizer a Nikolai. O olho dele era verdadeiramente assustador. Um cara alto de calças jeans e botas colocou uma música de Loretta Lynn para tocar no jukebox. Alguém deve ter concertado aquela coisa. Aí um casal começou a faze uma dança country bem na frente da banda, como se fosse para irritar os caras do rock.
O baixista foi até Nikolai e os dois começaram a sussurrar um para o outro. Não consegui deixar de ouvir. Ei, não me julgue. Eu não tinha mais nada o que fazer! Ver Jennifer exibir os peitos para o bartender não era muito empolgante.
– Dirk, o que você acha dela? – perguntou Nikolai.
Meu pulso acelerou. Ele estava falando de mim?!
– Quem, a Jan Brady? – perguntou Dirk.
SIM! Eles estavam falando de mim! Encodi a barriga para dentro e tentei parecer sexy.
– Não, não; aquela que vai me trazer uma bebida. É ela, cara.
Ah, claro. Eles estavam falando de Jennifer. Qual era a novidade, mesmo?
– Sei não – disse Dirk.
Ahá! Talvez ele tivesse gostado mais de mim!
– Tem certeza de que ela é... – começou Dirk.
– Olhe, eu fui criado num lixo como esse – interrompeu Nikolai. – Sempre tem aquela garota que é a mais gostosa da escola. A princesa da feira anual da região, ou algo assim. Ela acha que vai ser atriz ou cantora um dia, mas não entende que as regras mudam depois que a gente sai do meio do mato. De repente, você deixa de ser especial.
Fiquei completamente confusa a essa altura. Ele a tinha visto, certo? Jennifer não era nenhuma princesinha.
– Você disse pra gente que era do Brooklyn – protestou Dirk.
– A questão é – continuou Nikolai – que ela com certeza absoluta é virgem. Meu queixo caiu.
– Já saí com meninas assim. São todas princesas metidas que adoram provocar, mas nunca abrem as pernas. E depois... te dão o fora.
— Sei não - repetiu Dirk.
Meu gatinho sabia o que estava rolando. Eu estava dando apoio total a ele.
— Dirk, a gente não veio até aqui pra nada!
— Certo, tá bom. Mas, sabe, não sou só o seu baixista. Sou uma pessoa, com sentimentos, que por acaso toca baixo. E gostaria de um pouco mais de respeito...
Ele continuou a lenga-lenga, mas parei de escutar. Estava furiosa. Como eles ousavam falar de minha melhor amiga assim? Tornei a enconder a barriga e subi de novo naquele palquinho.
— Com licença - disse, enquanto dava um tapinha hesitante em Nikolai.
— Que foi? - cortou ele.
— É da minha melhor amiga que vocês estão falando. E... você tem razão... ela é virgem. O que é muito melhor do que ir pra cama com umas aberrações como vocês!
Depois me virei e atirei o cabelo para trás na direção dele. Eu me senti como um redemoinho de dignidade, quando saí batendo os pés. Então tá, menti sobre o negócio da virgindade. Como se eu fosse dizer que minha BFF é uma piranha!
Andei direto até o bar. Jennifer tinha de fato conseguido pôr as mãos em uns drinques.
Estavam em tubos de teste e eram mesmo vermelhos, brancos e azuis.
— A Torre Um não está cheia o bastante - reclamou ela. - E eu tive de brigar com Roman pra consegui-las. - Ela olhou minha cara de raiva. - Que foi? Tá com medo dos astros do rock?
— Esses caras são nojentos, Jen. Esqueça,
— Acho que o vocalista está na minha - disse ela, olhando por cima do meu ombro para ele. Isso só porque ele acha que você é virgem. Eu ouvi os dois conversando.
— O quê? Difícil, hein. - Ela endireitou os ombros. - Bom, se Nikolai quer o tipo inocente, posso fazer o tipo inocente. Vou ser a Pequena Miss Sunshine - disse ela, com determinação.
— Ele é velho demais pra você!
Jennifer me encarou com olhos semicerrados de raiva. Nunca ninguém se colocava entre ela e um homem. Jamais.
De repente os alto-falantes ganharam vida e o retorno guinchou em nossos ouvidos.
Estremeci enquanto Nikolai agarrava o microfone e sorria para a platéia.
— Boa noite, Devi’s Lake.
O guitarrista soltou um acorde de furar o tímpano.
— Devil's Kettle! - corrigiu alguém.
Olhei em volta, achando que pudesse ser Ahmet. Mas ele estava perdido no meio da multidão.
— Foi mal. Enfim, somos o Low Shoulder e só queremos fazer vocês felizes.
O logo da banda, pendurado atrás deles, mostrava os fundos de um carro meio inclinado para a direita. Não entendi. Também não entendi o nome da banda. Era indie demais pra mim.
Estava começando a achar que aqueles caras só podiam ser roubada. Nikolai, especialmente, tinha um brilho maligno no olhar. Mas, no momento, eu só achava que ele era gostoso.
Então o guitarrista soltou outro acorde de furar o tímpano e a banda tocou a canção de rock mais impressionante e mais assustadora de todos os tempos. Hoje faz parte do zeitgeist nacional, mas naquele momento foi uma revelação.
“Através das árvores vou achar você.”
A primeira vez em que ouvi aquela melodia foi mágica. Ver Nikolai cantar a letra foi intenso.
Com um dos pés sobre o amplificador, ele gritava ao microfone. O guitarrista parecia sentir dor, de tão concentrado que estava.
Jennifer ficou totalmente hipnotizada; agarrava meu braço e encarava Nikolai. Bom, como todo mundo. O bar todo ficou enfeitiçado. O Low Shoulder estava fazendo alguma macumba maluca naquela multidão. Tirei o meu capuz. Começava a ficar muito quente com tanta gente socada aqui algo dançou no reflexo dos meus óculos. As pessoas sacudiam os braços no ar; era uma loucura total. Jennifer e eu balançávamos ao som da música, junto com todo mundo. Fechei os olhos por um instante e deixei a voz de Nikolai preencher minha mente.
Por fim abri os olhos e olhei ao redor. Havia um movimento estranho à minha esquerda,
contra a parede. Uma luz dançante. Achei que talvez a multidão tivesse acendido os isqueiros e que estivessem movendo-os em homenagem à banda, mas logo percebi que chamas
dançavam pelas paredes. Chamas de verdade. Chamas grandes. Fogo!
Fiquei parada, assistindo àquilo tudo como se fosse um filme. O fogo subiu pelas paredes e enrolou os pôsteres pregados na madeira. As flâmulas presas no teto se acenderam como fósforos e a parede inteira se iluminou. Tudo aconteceu muito rápido - afinal, aquele lugar inteiro era feito de madeira. As pessoas começaram a lutar para se afastar da parede e uma mulher gritou.
O bartender idiota abriu caminho pela multidão e atirou um jarro de cerveja na parede, o que só fez piorar as coisas. Não se ensina mais na escola o que significa “inflamável” não?
Todo mundo por fim se ligou que o lugar estava em chamas. Pararam de balançar e cantarolar com a música e ficaram ali em silêncio. Foi assustador, sobrenatural, o jeito como todos simplesmente ficaram esperando algo acontecer, esperando o fogo aumentar. A banda percebeu que tinha perdido a platéia e parou de tocar abruptamente. Todos nós escutamos o fogo crepitando enquanto corria até outra parede e depois pelo teto.
E sabem o que aconteceu nesse momento crucial? Prestem atenção, isso será importante mais tarde. Eu estava lá, eu vi. Aqui vai exatamente o que os ilustres membros da banda Low Shoulder fizeram: atiraram longe os instrumentos e deram no pé! Os amplificadores e as guitarras foram abandonados enquanto os músicos sai¬am desesperados. Exceto Nikolai, que meio que ficou ali, sorrindo. Aquele cara era estranho. Observou o lugar e o fogo, depois olhou para Jennifer. Como se estivesse satisfeito com aqueles acontecimentos. Depois deu no pé, também. Eu repito: o Low Shoulder deu no pé.
A fuga da banda finalmente quebrou o encanto. Os clientes do bar voltaram em pânico à vida. Foi um caos quando as pessoas debandaram até a porta de entrada - a única porta. As chamas se espalharam, e o cabelo loiro de uma mulher pegou fogo. Ha uivou e caiu no chão, tirando a jaqueta jeans para bater com ela na cabeça. Um cara saltou por cima da mulher para chegar até a porta. Sem sequer olhar para baixo. O cheiro acre do cabelo queimado dela atingiu minhas narinas e por fim me arrancou do transe.
Ao meu lado, no meio daquela loucura, Jennifer continuava parada, como se estivesse no olho
do furacão.
— Sei pra onde a gente tem de ir! - gritei Agarrei Jennifer e comecei a arrastá-la até o banheiro.
Era como arrastar um manequim. Ela ainda estava hipnotizada, ou sei lá o quê, e seus membros não se dobraram.
— Hmmmm? - disse ela, como se não notasse a bola de fogo gigantesca no meio da qual estávamos.
— Vamos! A janelinha!
Abri caminho às cotoveladas entre uns bêbados que estavam ziguezagueando na direção oposta, enquanto puxava Jennifer comigo até os fundos do bar. Entramos no banheiro minúsculo, o que dizia DAMAS na porta. Pisei na Privada do Sticker, que já exibia um sticker do Low Shoulder grudado, e arrastei Jennifer para cima comigo. Eu me equilibrei na privada enquanto a empurrava para fora pela janelinha. Em geral a gente entrava no Melody Lane daquele jeito. Porém hoje era a única saída. Dei um impulso para cima e sai também, atrás dela. Caímos na grama e depois, cambaleantes, nos afastamos do edifício.
Olhei para a fogueira atrás de nós e vi que ainda tinha gente lá dentro. Homens e mulheres tropeçavam na saída, mas obviamente estavam subindo sobre corpos para isso. Subindo em pessoas como a mulher loira cujo cabelo pegara fogo. Havia gente sendo pisoteada até a morte. Cobri o rosto; não conseguia mais olhar.
Porém, eu continuava a ouvir os gritos... muitos gritos. Alguns devem ter sido meus. Ouvi sirenes. Escutei o estalido de ossos e o uuuuush do fogo queimando-os. Os estouros soavam como fogos de artifício. Era de gente queimando, eu sabia. Podia ouvir os engasgos ao meu lado.
Jennifer caiu em cima de mim, tossindo. Suas meias-calças estavam rasgadas por causa da saída pela janela, mas ela ainda estava com as duas botas cinza. Sua corrente com o coração dourado escrito BFF brilhou à luz do fogo. Abracei-a com força e assim fiquei.
— Tá tudo bem - sussurrei. - A gente conseguiu sair. Você vai ficar bem.
De repente, alguma mão esquelética agarrou o ombro de Jennifer. Era Nikolai.
— Graças a Deus, tá tudo bem com você! - declarou ele. - Estive te procurando em tudo o que é lugar!
Não dava para acreditar que aquela aberração ainda tentava dar em cima dela.
— Acho que você devia ir procurar sua banda - dei a dica.
— Aqueles caras? - acenou ele. - Foram os primeiros a sair correndo. Fugiram para o furgão como se fossem um bando de mulherzinhas.
Viu? Ele mesmo admitiu que os caras fugiram! Eu o encarei enquanto mais gritos se ouviam do prédio em chamas. Jennifer estremeceu e cobriu as orelhas.
— Tá perigoso de verdade aqui, meninas - disse Nikolai. Como se a gente não soubesse, dã. - Querem saber? Vocês deviam vir pro meu furgão, onde é seguro.
— O quê?! - guinchei. O cara queria que a gente entrasse no seu furgão depravado?
Ele falou comigo como se eu fosse surda.
— Perigoso. Furgão. Segurança. Vamos nessa.
Jennifer me empurrou e caiu nos braços dele.
— Certo, certo - murmurou.
— Você tá em choque, Jenny - falou ele suavemente enquanto a envolvia com um dos braços e enfiava a outra mão no bolso, de onde tirou um frasco. - Tome, beba isso aqui.
É claro que ela deu um gole enorme. Minha BFF nunca dispensava álcool de graça.
— Você não tá meio na noia com tudo isso, não? - berrei, tentando falar a língua dele. - E seus alto-falantes, amplificadores e não sei o que mais? Tá tudo pro¬vavelmente derretido, e
quando vocês forem pra próxima parada vão ter de, sei lá, fazer um show acústico idiota! Ninguém curte isso!
— Vamos arrumar equipamento novo logo, logo. Tenho a impressão de que a gente vai estourar.
Eu não sabia se ele estava falando da banda ou do prédio.
Insisti com Jennifer:
— Vamos, Jen.
— É, vamos pro meu furgão - arrematou Nikolai e a conduziu até um furgão branco
encardido estacionado na estrada que levava a Melody lane. As janelas eram negras: não dava para ver lá dentro, nem dizer se a banda estava lá ou não.
Jennifer a essa altura estava enrolando a língua.
— Quero ver seu furgão descolado. Vamos, Needy, vamos pro furgão.
Cara, o que é que tinha naquele frasco?
— Por quê? Por que a gente deveria ir? Temos de pegar o Sebring! A gente podia ir pro El Ojo e comer uns Northwoods Nachos com Molho Badger extra! Por favor? Tô morrendo de fome?
Ela sempre estava a fim de nachos... Por favor, Jen, por favor.
— Needy, corta essa! Cala a boca!
Minha melhor amiga entrou no furgão branco com o vocalista do Low Shoulder. Um cara que parecia pálido, torto e maligno como a árvore petrificada que eu vi quando era pequena. Ele se virou ao ajudá-la a entrar no banco do carona. Juro que mostrou os dentes para mim e rosnou.
Não fiquei para ver. Virei e saí correndo na direção da floresta enquanto Melody Lane
explodia atrás de mim. Nunca fui tão corajosa quanto Jennifer.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
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