Corri o caminho inteiro até minha casa. Quase caí no choro enquanto tentava enfiar a chave na porta. A única coisa que eu queria era estar em casa. Só parei de correr quando cheguei no meu quarto. Acendi a luz e arfei em busca de ar, enquanto ficava ali parada um instante. Fui até o banheiro e tomei água direto da torneira. Foi quando me vi no espelho. Meu rosto estava coberto de fuligem, flocos de cinzas caíam de meus cabelos, e minhas roupas estavam rasgadas. Meu cérebro começou a processar a extensão do que acontecera.
Voltei para o quarto, agarrei o celular e apertei uma tecla de discagem rápida.
— Mrfshhh - balbuciou Chip. Acho que ele afinal foi dormir em vez de assistir Orca, a baleia assassina sozinho.
— Chip! Jennifer sumiu! Ela fugiu com aquela banda de rock. E o Melody Lane pegou fogo! Ai, meu Deus, Chip...
Mais cinzas caíram dos meus cabelos enquanto eu andava pelo quarto.
— Pegou fogo, como? Incendiou? Tá todo mundo bem?
Comecei a rir descontroladamente, o que depois virou um acesso de soluços.
— Não, acho que a maioria das pessoas morreu!
— Você tá bem, certo?
— Certo - solucei. - Saímos pela janelinha.
— O quê?
Se liga, Chip!
— Você sabe! Aquela janela do banheiro por onde todas as meninas menores de idade entram
de penetra? Só que todo mundo tava tentando sair pela porta. Foi, tipo, um estouro de boiada total! Quem desmaiou acabou sendo pisoteado, e dava pra ouvir os ossos se quebrando! Havia um monte de gritos e estouros, como se um milhão de fogos de artifício estivessem estourando ao mesmo tempo. E as pessoas... queimando... cheiravam como...
Finalmente calei a boca. Não conseguia respirar, soluçar e falar ao mesmo tempo.
— Que loucura.
Novamente, dã. Sentei-me na cama, tentando recobrar o fôlego. Olhei para a foto sobre a cômoda, de mim, Chip e Jennifer. Merda. O que aqueles fracassados estariam fazendo com ela?
— Só que Jennifer ainda tá com aqueles caras sem noção! Eles a levaram num furgão
apavorante com janelas pretas e...
— Você viu a marca e o modelo?
Ah, agora ele queria dar uma de Lei & Ordem para cima de mim? Quem é que se lembra de coisas desse tipo?
— Sei lá! Um furgão de estuprador oitenta e nove? A gente precisa encontrar Jennifer!
— E quem se importa com a Jennifer e aqueles retardados com cabelos retardados e rímel de olho? Tem gente que acabou de morrer queimada viva! Na nossa cidade!
Ah, Chip. Você e esse orgulho da sua cidade.
Nesse instante, a campainha tocou. O som foi tão agudo que parecia uma sirene no meu ouvido.
Comecei a sussurrar guinchando ao telefone:
— Meu Deus do céu! Tem alguém aqui! Tô sozinha, Chip! Vou surtar!
— Trabalhando no turno da noite. Não desliga, tá? Tá bom?
— Tá!
Desci as escadas correndo e depois parei no patamar. Não ouvi nada, só o nosso furão de estimação arranhando dentro da jaula, — Shhh, Spector! - pedi. Desci degrau por degrau na ponta do pé, estremecendo a cada rangido, depois abri devagar caminho pela cozinha escura e cheia de sombras, tateando o balcão de fórmica.
A maldita geladeira zumbia mais alto do que uma serra elétrica. Fui até o
corredor e olhei na direção da porta de entrada. Não dava para ver nada pela janela da porta. Devagar me aproximei dali e olhei para fora. Nada. Acendi a luz da varanda. Estava vazia. Apaguei a luz.
— Certo, não tem ninguém lá fora - disse ao celular. - Isso é... muito estranho. Talvez eu esteja ficando louca. Te ligo mais tarde.
— Ei!
Fechei o celular. Quem havia tocado a campainha? Abri o armário do corredor, enfiei a mão lá dentro e afastei os casacos. Uma raquete de tênis caiu e eu pulei meio metro para o alto, mas não havia ninguém escondido ali. Fechei a porta do armário com um clique suave.
Que diabo estava acontecendo? Essa era a noite mais estranha da minha vida. Ouvi o zumbido da geladeira. De repente percebi que havia mais um som na cozinha. Um ping, ping, ping. Virei-me. Ninguém. Avancei alguns passos para dentro da cozinha e escutei. Agora o som não parecia mais estar ali, mas de novo na porta da frente. Ping, ping, ping. Girei, acendi a luz e tornei a olhar para o corredor de entrada. De pé, dentro de casa junto à porta e ensopada de sangue, estava Jennifer.
Ela parecia saída de um pesadelo. A jaqueta branca acolchoada agora era vermelha escura, e sua bota azul direita estava retorcida em um ângulo estranho, como se ela tivesse machucado o tornozelo. O cabelo estava completamente emaranhado. Os ombros estavam encurvados e o rosto, voltado para o chão.
— J-Jennifer?
Ela não disse nada, mas eu continuava a ouvi-la pingando. Percebi que era sangue e que pingava dela, caindo da manga da jaqueta e fazendo uma poça no chão de linóleo. Ela ergueu um pouco o rosto. Fiquei arrepiada ao ver que estava sorrindo.
— O que aconteceu? - sussurrei.
Silêncio ainda. Ela olhou para baixo, para os pingos, como se contemplasse o fato de que o sangue estava deixando seu corpo. Depois olhou para cima e voltou a me encarar.
— Jen?
Ela passou por mim abruptamente e foi até a geladeira. Pulei quando ela se mexeu e
automaticamente recuei. Era como se uma assombração tivesse resolvido me visitar. Só que a assombração era Jennifer. Minha BFF. Minha mente disparou. Eu precisava fazer alguma coisa. Precisava ligar para Chip, para minha mãe, para a mãe de Jennifer, para a emergência... para alguém! Ela estava obviamente machucada e precisava de um médico já!
Só que aí Jennifer fez algo inesperado, como se alguma coisa pudesse ser esperada a essa altura. Ela abriu a geladeira, e, pela luz da lâmpada do interior, eu a vi tirar um frango assado e soltá-lo no chão de linóleo verde. Ela se agachou e começou a arrancar pedaços do frango e a enfiá-los na boca. Aquilo dava um significado completamente novo à expressão lanchinho noturno. Eu disse a primeira coisa que me veio à cabeça.
— Hã, Jen... Minha mãe comprou esse frango no mercado de Boston. Eu não posso...
Ela gritou. Estou falando sério, gritou. Fiquei arrepiada, e eu meio que desabei na mesa da cozinha. Estiquei o braço para trás e agarrei uma cadeira cromada para me apoiar. Aí a coisa piorou. Ela vomitou - e não era frango. Uma gosma preta jorrou de sua boca, fazendo o corpo dela inteiro recuar com a intensidade do vômito. Aquilo não era só bile. Jennifer expeliu a substância mais nojenta e horrorosa que já vi. Era espessa, negra e oleosa, e cheirava como um gambá morto que tivesse apodrecido em um tonel de lixo cheio de Molho Badger durante uma semana. Havia uma tonelada daquilo, no mínimo quatro litros, talvez doze.
Então a gosma preta começou a se... mexer. Não sei, acho que estava escuro ali, mas posso jurar por Deus que aquela meleca se mexeu. Pequenos espinhos surgiram ao longo dela, e a coisa deslizou pelo chão e para cima das paredes. Para ser completamente exata, ela ondulou. Estava viva. Comecei a me sentir tonta, mas entrei em ação. Agarrei Jennifer e tentei tapar a boca dela com a mão. Eu não ia deixá-la emporcalhar ainda mais a cozinha retro kitsch da minha mãe com aquela gosma preta. Minha mãe tinha levado semanas para achar o tom exato de tinta verde que combinasse os armários com a cor original do linóleo.
Escorreguei um pouco naquela meleca ao agarrar Jennifer. Aí ela caiu de joelhos, levando-me para baixo com ela, e começou a rir compulsivamente. Tentei me afastar, mas Jennifer de repente se virou e me empurrou contra a parede, me prendendo ali. Ela estava tão forte! Eu não conseguia me mexer. Deslizei as mãos pelos braços dela e agarrei seus pulsos. Comecei a entrar em pânico, achando que ela iria vomitar mais um pouco daquela coisa nojenta bem na minha cara. Fechei os olhos com toda a força, e a boca também, tentando imaginar um jeito de, além disso, tapar meu nariz.
Levei vários segundos para perceber algo estranho. Ao segurar-lhe os pulsos, vi que a pulsação dela estava, tipo, extremamente lenta.
— O qu...?
Jennifer aproximou o rosto do meu, depois inclinou a cabeça para acariciar meu cabelo e o lóbulo da minha orelha. Não me entenda mal aqui. Não foi nada lésbico. Foi completamente diferente. Era como um animal preparando seu jantar. Senti os lábios dela em meu pescoço, e minha própria artéria pulsar enquanto meu coração acelerava. Senti os lábios dela se entreabrirem e a ponta de seus dentes na minha pele. Mas então seus dentes inferiores se prenderam na corrente de metal ao redor do meu pescoço - a do coração dourado onde estava escrito BFF. Ela hesitou, ainda me prendendo naquele abraço esquisito. Ficou tão imóvel que eu sequer tinha certeza se ela estava ou não respirando.
Aí ela me empurrou e saiu correndo pelo corredor até a porta de entrada. E sumiu.
Não consegui acreditar no que havia acabado de acontecer. Quer dizer, sério, o que é que tinha acabado de acontecer? Será que tinha sido um sonho? Uma alucinação? Eu me belisquei. Hã-hã, eu estava acordada.
Virei para olhar a cozinha e vi a montanha gigante de gosma preta no chão. Aquilo estava mesmo ali. E alguém precisava limpar aquela droga antes de minha mãe chegar em casa.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
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